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RSE Geral busca avançada

O Nobel da Paz Muhammad Yunus acredita na habilidade de cada um para combater a pobreza

"Foi muito difícil sair do meu país num momento como este. Mas achei importante vir ao Brasil dar o recado de que é preciso atentar para os fenômenos que podem ocorrer com o aquecimento global." Com essa declaração, o economista e banqueiro Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz de 2006, abriu sua palestra na Eco Power Conference, fórum internacional sobre energias renováveis que se realizou em Florianópolis (SC), entre 27 e 30 de novembro.

Yunus nasceu e mora em Bangladesh, país situado no sul da Ásia, com uma população de cerca de 150 milhões de pessoas comprimidas num território de 142 mil km², menor que o do Estado do Amapá. Em 1971, após tornar-se independente do Paquistão, o país foi devastado por uma grande seca. O índice de pobreza chegou a 80% da população. Em 2000, esse número caiu para 40%. Em novembro de 2007, Bangladesh estava perto de alcançar a meta estabelecida por um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, o de reduzir pela metade a pobreza do país. Foi quando o ciclone Sidr atingiu o país, com ventos de até 240 km/h, e destruiu esse sonho. A passagem do ciclone devastou plantações, derrubou linhas de transmissão de eletricidade e deixou milhares desabrigados. Cerca de 5 milhões de pessoas morreram e outras 5 milhões ainda estão desaparecidas.

"Bangladesh tem 20% de seu território abaixo do nível do mar. Estamos na linha de frente das conseqüências das mudanças climáticas ", afirmou Yunus.

Formado em economia, com doutorado nos Estados Unidos, Yunus ficou mundialmente conhecido por ter iniciado um movimento que tirou milhares de pessoas da linha da pobreza. Era professor nas universidades de Daca e de Chittagong, em Bangladesh. Cansado de ensinar teorias econômicas que de nada valiam para o seu povo, que continuava morrendo de fome, Yunus deixou de lado a academia e passou a se dedicar à economia da vida real. Na pequena aldeia de Jobra, próxima a Chittagong, teve um contato maior com a população carente e percebeu que uma pequena quantia investida na economia local tiraria diversas famílias daquela situação.

O primeiro investimento saiu de seu próprio bolso. Foram U$ 27 que beneficiaram 42 famílias. Mas isso não bastou. Para resolver o problema em grande escala seria necessário uma quantia muito maior. Assim nasceu o Grameen Bank, uma instituição financeira que empresta dinheiro aos pobres, não exige garantia, não cobra juros sobre juros, não aceita empréstimo de governos, visita seus clientes em suas casas, é de propriedade do povo e tem como objetivo acabar com a pobreza no mundo.

Hoje, cerca de 7,5 milhões de pessoas em Bangladesh já se beneficiam do microcrédito. Outros 60 países importaram a tecnologia. Em 2006, um levantamento mostrou que 64% das pessoas que inicialmente se encontravam em extrema pobreza saíram dessa situação após cinco anos de empréstimos.

Mulheres com talento

O grande segredo para o sucesso no desenvolvimento do país foi apostar nas mulheres, muitas das quais nunca haviam tido a oportunidade de desenvolver alguma atividade. "As mulheres tentavam nos convencer de que seria melhor deixar que seus maridos cuidassem dos negócios", conta Yunus. "Mas nossa equipe fez de tudo para encorajá-las a dar o primeiro passo, pois acreditamos que a participação delas é essencial para o desenvolvimento."

O empréstimo inicial do Grameen é de U$ 35 dólares. As mulheres são aconselhadas a começar com algo simples ou com uma atividade em que se sintam à vontade para executar, como, por exemplo, criar galinhas, descascar arroz, fazer cestos ou costurar. Algumas delas são muito criativas. É o caso de uma senhora que comprou um telefone móvel e passou a oferecê-lo aos vizinhos, tornando-se, em pouco tempo, o centro de telefonia da vila. "As pessoas vinham de todos os lados para usar aquele serviço", lembra Yunus.

O fato de dar poder às mulheres teve resultados positivos em diversos aspectos da sociedade. O primeiro deles foi na educação. "As meninas, que antes costumavam abandonar a escola para ajudar em casa, tornaram-se maioria no ensino médio. Também passamos a ver cada vez mais meninas entrando nas universidades e demonstrando um bom desempenho profissional", conta.

A explicação para esse fenômeno é que, ao contrário dos homens, as mulheres investem na própria família o dinheiro que ganham. Elas procuram garantir o futuro dos filhos, que são os primeiros a serem beneficiados.

Os bons resultados na educação também são reflexo de uma ação do banco, que encoraja seus clientes a manter os filhos na escola. O Grameen também oferece empréstimos para alunos do ensino superior, com a vantagem de serem pagos apenas após a conclusão do curso, a uma taxa de 5% ao ano.

Outra conseqüência positiva foi o aumento do controle populacional. Com aproximadamente 900 habitantes por quilômetro quadrado, Bangladesh está entre os países mais densamente povoados do mundo. Capacitar as mulheres fez com que o número de filhos por família diminuísse de forma significativa. No país, era comum ver famílias com seis crianças ou mais. Em 25 anos, a média passou para três filhos por família.

Investir nas mulheres trouxe também melhoria nos indicadores de saúde do país. Nesse aspecto, Bangladesh estava abaixo da Índia, do Paquistão, do Nepal, do Sri Lanka e de outros países da Ásia.

"Tudo isso colaborou para as mudanças que tivemos em Bangladesh", resume Yunes. "A sociedade civil também teve grande participação, ao preencher espaços que muitas vezes o governo não era capaz de alcançar."

Sem garantia

Enquanto o microcrédito é considerado uma atividade de alto risco pela maioria dos banqueiros, Yunus anda na contramão do mundo de negócios tradicionais e não exige nenhuma garantia legal dos credores. Ainda assim, o Grameen Bank consegue um retorno de 99%. "Exerço essa atividade há mais de 30 anos e posso dizer que não existem riscos", afirma. "Mesmo diante das catástrofes que o país tem enfrentado, as pessoas continuam pagando suas dívidas."

A maior prova de que o banco não considera o empréstimo de dinheiro aos pobres como uma atividade de alto risco veio há quatro anos. Foi quando o Grameen passou a aceitar mendigos como clientes. A intenção era fazer com que eles passassem a levar algum produto para vender no seu bairro, em lugar de simplesmente pedir esmolas de porta em porta. "A idéia agradou tanto aos mendigos  quanto a toda a sociedade. E, com pleno apoio da equipe do banco, o programa logo se tornou popular."

Segundo Yunus, a expectativa inicial era atingir 3 mil mendigos. Hoje cerca de 100 mil deles se beneficiam do microcrédito e aproximadamente 10 mil deixaram de pedir esmolas e se tornaram vendedores. "Os 90 mil que sobraram dividem o tempo entre pedir esmolas e vender alguma coisa. Costumo dizer que eles se tornaram mendigos apenas de meio período."

Quando questionado sobre os motivos pelos quais as pessoas pagam seus empréstimos sem ter deixado nenhuma garantia, ele afirma que, freqüentemente, aquele que paga sua dívida experimenta pela primeira vez o valor do sucesso. "Quando o indivíduo paga o que deve, ele se sente alguém. Sente que é capaz", explica o economista. "Vivemos numa sociedade na qual muitos não têm a oportunidade de experimentar suas habilidades. Isso não significa que não saibam fazer alguma coisa. Se você der um voto de confiança a essas pessoas, elas darão a vida para te proteger."

De acordo com Yunus, o sucesso do microcrédito não se limita a Bangladesh, nem é uma exclusividade de regiões pequenas. Existem inúmeras experiências bem-sucedidas em locais como o Equador, a Costa Rica, Honduras, os Estados Unidos e países da Europa. "Muitos ainda acreditam que o sucesso desse programa tem a ver com a cultura de Bangladesh. Mas as pessoas do Brasil, do Chile ou de Bangladesh são iguais e têm os mesmos problemas", diz ele. "Quando o microcrédito não funciona, a culpa é de quem administra, e não do povo. Apenas aconselho a deixar as políticas de microcrédito longe das mãos do governo. Microcrédito e governo têm uma química que não combina."

Desenvolvimento sustentável

Uma grande parcela das residências em Bangladesh não possui energia elétrica. Por isso, o Grameen Bank desenvolveu, por meio do Grameen Energy, um programa para levar energia solar aos locais mais carentes. Cerca de 100 mil residências já foram beneficiadas com a instalação de painéis solares.

O banco também aproveitou a pecuária do país para desenvolver um programa para aproveitamento do biogás. Cada família aprende a produzir o gás a ser utilizado em sua cozinha. Além da queima de CO2, essa prática evita o desmatamento, pois em Bangladesh ainda é muito comum utilizar toras de madeira no fogão.

"Negócios devem ser feitos para beneficiar os seres humanos. É preciso criar mais negócios sociais, nos quais o lucro seja revertido para os desprovidos. Quem sabe um dia a pobreza estará apenas confinada em museus, como uma triste lembrança do passado."

A jornalista viajou a Florianópolis a convite do Banco Real ABN Amro, um dos patrocinadores da Eco Power.

Data: 12/12/2007 Fonte: Giselle Paulino/ Edição: Benjamin S. Gonçalves
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