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RSE Geral busca avançada

A futurista Rosa Alegria faz um balanço do movimento de RSE no Brasil, mostra suas falhas e aponta soluções

Formada em letras e apaixonada por comunicação, Rosa Alegria começou sua carreira trabalhando como jornalista e assessora de imprensa. Quando era diretora de comunicação e marketing da Avon, uma das maiores empresas de cosméticos do Brasil, criou lá a área de responsabilidade social e impulsionou projetos ligados à saúde e ao bem-estar da mulher. Com bom salário, poder para tomar decisões e espaço para criar, sua vida no mundo coorporativo estaria perfeita, não fossem suas inquietudes, vontade de provocar mudanças, de ser dona do próprio tempo e de lançar-se em novos vôos. "Sentia que minha missão dentro da empresa estava concluída. Via que o mundo lá fora era muito mais amplo. Queria dar um sentido maior à minha vida", diz.

Foi assim que ela viajou para os Estados Unidos a fim de se dedicar a um campo ainda pouco conhecido: o de estudos do futuro. Trata-se de um curso interdisciplinar que busca entender, interpretar e preparar as pessoas para as mudanças que devem ocorrer no mundo. Rosa tornou-se mestre nessa área pela Universidade de Houston, no Texas, e hoje é vice-presidente do Núcleo de Estudos do Futuro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Engajada em diversas iniciativas que buscam transformações positivas para o mundo, como o Projeto Millennium, do Conselho Americano da Universidade das Nações Unidas, e o Movimento Mídia da Paz, Rosa é uma mulher de grande carisma, que transborda valores humanos.

Para ela, o ser humano precisa ser mais criativo, sonhar mais e ser capaz de imaginar o futuro que ele quer para o mundo. "Fomos desacostumados a pensar como será a vida lá na frente. Hoje, a pessoa que fala em sonhos é considerada ingênua', afirma.

Rosa acredita que o movimento de responsabilidade social empresarial (RSE) está estancado. Na sua opinião, somente quando as empresas começarem a valorizar seus funcionários como indivíduos é que haverá avanços na área. "Se as pessoas continuarem infelizes no trabalho, de nada adiantará o movimento de RSE."

Esses ideais se refletem em seu trabalho, como consultora de RSE, instrutora do UniEthos e diretora de conteúdo do portal Mercado Ético.

No primeiro pingue-pongue do Notícias da Semana de 2008, Rosa Alegria fala sobre a importância dos princípios femininos para a sustentabilidade, ética na mídia, espiritualidade e outros assuntos, ajudando-nos a iniciar o ano com muita inspiração.

Instituto Ethos: Você é uma futurista, certo? O que significa isso?
Rosa Alegria:
Em 1999, fui convidada a fazer mestrado em estudos do futuro na Universidade de Houston, nos Estados Unidos. Futurismo é um curso que busca entender e preparar as pessoas para as mudanças que estão por vir. Ou seja, meu trabalho é antecipar as mudanças e fazer as empresas enxergarem lá na frente e trazerem soluções e inovações tanto do ponto de vista do mercado como da sustentabilidade. A idéia é que as organizações se antecipem no tempo e minimizem seus impactos negativos na sociedade e no meio ambiente. Uma coisa é você ser atropelado pelas mudanças; outra é você usá-las para inovar-se. Existem atualmente quatro escolas no mundo que oferecem estudos do futuro: duas nos Estudos Unidos - a de Houston, no Texas, onde fiz o curso, e a do Havaí -, uma na Austrália, uma na França e uma na Finlândia. Às vezes as pessoas confundem as coisas e me pedem para fazer previsões para os próximos anos. Mas eu não adivinho as coisas, não possuo o dom de fazer previsões. Apenas tenho uma leitura da realidade com base em observações. No futurismo, a gente estuda diversas disciplinas, como pensamento sistêmico, projeção e métodos intuitivos. Há técnicas para desenvolver a intuição. Sempre me senti atraída por esse lado de mudanças e hoje sou uma futurista. Essa é a minha profissão.

IE: Você participa de diversas iniciativas muito interessantes. Fale um pouco delas?
RA:
Eu me envolvo em vários projetos por um motivo muito claro: vivo antenada em tudo que esteja delineando uma nova sociedade. Sou apaixonada e ativista em várias esferas. Uma delas é a ética na comunicação. Acho que os meios de comunicação devem mudar sua perspectiva na geração de conteúdo, pois são eles que pautam a sociedade nas direções a tomar. E o caminho para o qual a mídia está nos direcionando é o do medo, da desesperança e da descrença. Tudo isso gera uma sociedade violenta. Na minha opinião, esse não é o mundo real. O problema é que hoje em dia 98% dos domicílios brasileiros possuem televisão. Aliás, cerca de 90% da população mundial têm acesso a televisão, de uma forma ou de outra. Tudo aquilo que é mostrado na mídia serve para moldar nossa cultura. E essa cultura é decadente, pois somos expostos a simbologias carregadas de imagens pesadas e mensagens negativas. Será que o mundo é só isso que temos visto? Parece que a mídia nunca coloca seus holofotes sobre o mundo que está florescendo. Estamos nos transformando numa sociedade que perdeu a fé no próprio ser humano. E o mais doloroso é que nos tornamos pessoas desprovidas da capacidade de sonhar, de imaginar nosso futuro.

IE: Em sua opinião, por que as pessoas que trabalham com responsabilidade social estão se sentindo frustradas?
RA:
Parece-me que está faltando dar um salto na realidade. É preciso restaurar a esperança que as pessoas têm nelas mesmas e na sociedade. Talvez as organizações que trabalham com responsabilidade social e sustentabilidade devam dar mais atenção a esse ponto. Quando houver esse resgate, os caminhos reaparecerão. Por exemplo, estamos acostumados a estudar o passado, os acontecimentos históricos etc. Mas não conseguimos imaginar o futuro, pois não fomos capacitados a olhar lá na frente. Não criamos o hábito de nos questionarmos sobre o mundo no qual queremos viver e sobre o nosso papel aqui. Não temos esse pensamento crítico. Por isso, o sistema educacional e a mídia também são incapazes de fazê-lo. É preciso reinventar a realidade, incentivar o poder de imaginação das pessoas. Albert Einstein falava que a imaginação é mais importante do que o conhecimento. Perdemos a capacidade de manipular as coisas. Estamos atrofiados. Hoje em dia, a pessoa que fala sobre seus sonhos é vista como ingênua e romântica. Se você falar em sonho para um empresário, é provável que ele pergunte se você veio de outro planeta. Ou seja, conceitos como sonhar, imaginar e desejar, que são absolutamente vitais para os seres humanos, não são celebrados nem considerados pelo nosso sistema. Na década de 1950, o sociólogo holandês Fred Polak, um dos criadores dos estudos do futuro, observou que depois da Segunda Guerra Mundial as pessoas passaram a viver com medo e com a sensação de que o mundo poderia acabar a qualquer hora. Ele então começou a estudar as civilizações e a comparar as sociedades que tinham medo. E chegou à conclusão de que o medo influencia a imagem que as pessoas fazem do futuro. E que, na história da humanidade, as culturas que sobreviveram foram as que tinham imagens positivas sobre o que estava por vir. Quando trabalho a visão de futuro com os empresários, procuro fazer com que eles encontrem ações possíveis de serem feitas lá adiante. Isso dá muito resultado. Essa é a minha grande paixão: fazer com que as pessoas enxerguem coisas que elas não conseguem ver no dia-a-dia.

IE: E qual é a reação dessas pessoas?
RA:
É demais. Quando um diretor de empresa, daqueles bem racionais, me diz que conseguiu superar seus medos e conseguiu se elevar e visualizar o que deseja, fico muito feliz. É muito emocionante ver as pessoas descobrindo tais coisas.

IE: E você acha que elas vão perceber que a espiritualidade é importante? 
RA: A leitura que faço sobre esse assunto é de que estamos exauridos das coisas negativas do mundo, da violência, da descrença na humanidade e de outras coisas negativas. Vejo também que dentro das empresas ninguém agüenta mais ouvir falar de resultados, de produtividade e de competitividade. Todo mundo está cansado da crença de que é preciso produzir mais com menos, porque isso tem um custo imensurável para o indivíduo. Nunca houve um nível tão grande de estresse, alcoolismo e uso de drogas como hoje em dia. Há uma exaustão psíquica. E, a partir disso, os indivíduos começam a buscar vias para respirar. Eles querem respostas que as empresas não oferecem. Querem saber qual é o sentido de estarem dedicando tanto tempo e energia a um projeto. Passam a se questionar sobre o que querem da vida e sobre as razões de estarem sendo tão cobrados. Mesmo as empresas que adotam uma gestão responsável não dão a atenção devida à questão do indivíduo e continuam com aquele modelo de produzir mais com menos. Se isso não mudar, acredito que o movimento da RSE não vai chegar aonde deveria. Uma vez perguntei ao John Elkington, fundador da SustainAbility e criador do conceito de triple bottom line, se ele não havia pensado num quarto bottom line, que dissesse respeito ao indivíduo. Essa idéia é do professor Evandro Vieira Ouriques, coordenador do Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

IE: Ou seja, é preciso trabalhar valores dentro das organizações?
RA: Sim, é preciso trabalhar valores que hoje não estão sendo pautados. Numa avaliação de desempenho, por exemplo, leva-se em conta se o funcionário é competitivo, criativo, empreendedor etc. Mas ninguém avalia se ele é amoroso, solidário, sensível ou compassivo. A empresa mede o valor do indivíduo por aquilo que ele faz, e não pelo que ele é. Por isso o movimento de RSE não tem avançado mais, está estanque. O que nos faz tomar determinadas atitudes é a mente. Então é preciso trabalhá-la. E que eu vejo é que o movimento de RSE trabalha no nível da instrumentação, e não da consciência. Sou muito crítica nesse ponto. Acredito que as empresas quando entram para o movimento de RSE pensam, em primeiro lugar, que aquilo vai ser bom para o marketing delas. E isso não muda a situação. Além do crescimento financeiro e do lucro, é preciso contemplar a integração do ser humano e batalhar pela felicidade das pessoas. Nunca vi tanta gente infeliz como vejo agora. Você vai a uma ONG e as pessoas que trabalham lá estão descontentes. Você vai a uma empresa e também só encontra gente insatisfeita.

IE: Ao mesmo tempo, é possível citar coisas boas acontecendo. Houve alguma experiência no movimento de RSE que você julga positiva, que a emocionou ou que a deixou feliz este ano?
RA:
Tantas coisas. Eu me emociono muito quando vejo as pessoas se descobrindo. Mas teve alguém que me marcou muito neste ano. Foi o canadense Claude Ouimet, da InterfaceFlor, cuja palestra assisti durante a Conferência Internacional do Instituto Ethos. Ele veio ao Brasil não para falar bonito, mas por ser movido por um propósito maior. É muito bom saber que alguém na posição de vice-presidente de uma grande empresa tem esses valores. Quem dera todos os executivos se emocionassem como ele ao falar do planeta e das futuras gerações! O Claude possui princípios femininos, e isso me tocou muito.

IE: Então você acredita que a mulher tem um papel importante nesse movimento?
RA:
A cultura atual iniciou-se há cerca de 8.000 anos, com a era agrícola, a apropriação de bens, a produção de alimentos etc. Foi nessa época que o homem, graças à força física, passou a ter uma atribuição mais importante na sociedade. Antes disso, a mulher é que era o centro de tudo. Havia uma sociedade nômade na qual as mulheres tinham filhos sem saber quem eram os pais, pois o papel do pai não era relevante. A mulher era considerada a geradora da vida. Nessa época, não havia disputa por poder, nem confisco de terras, nem dominação. Era uma sociedade matriarcal. Quando veio a fase agrícola, que implicava exploração dos territórios, dominação dos espaços e controle da natureza, o homem passou a pautar a sociedade por valores como agressividade, exploração e uso da força. Ou seja, houve um desequilíbrio de valores. A sociedade deixou de ser guiada pela cultura do acolhimento e passou a ser pautada pelo sistema de domínio e uso da força. A realidade de hoje é resultado disso. Quando Charles Darwin disse que quem vence é o mais forte, ele se referia, na verdade, àquele que sobrevive às mudanças e às transformações do mundo. Mas lemos Darwin de outra forma. Quando falo da importância das mulheres, não estou querendo dizer que devamos assumir o poder ou coisa assim. A mulher é essencial para o desenvolvimento sustentável graças a seus valores. A mulher tem o princípio da vida. E já não restam dúvidas de que isso precisa ser resgatado. Ainda vai chegar o momento em que um CEO que chorar durante uma reunião da empresa não será ridicularizado.

Data: 07/01/2008 Fonte: Giselle Paulino/Edição: Benjamin Gonçalves
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