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RSE Geral busca avançada

Dia Mundial sem Carro estimula reflexão sobre os impactos negativos dos veículos particulares e a necessidade de transporte público de boa qualidade

Estimular a reflexão sobre os impactos negativos gerados pelo uso de carros particulares e incentivar a população a exigir transportes coletivos de boa qualidade, esses são os objetivos do Dia Mundial sem Carro, campanha lançada no dia 8 de agosto pelo Movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade, iniciativa que busca recuperar os valores do desenvolvimento sustentável, da ética e da democracia participativa perdidos pela sociedade.

O Dia Mundial sem Carro é uma campanha que já vem sendo feita em várias cidades em todo o mundo. "Ele se realiza em 22 de setembro, mas a data é apenas um pretexto para fazer a população da cidade pensar nas políticas públicas de transporte, no trânsito, nos acidentes, na poluição e em suas implicações para a saúde das pessoas?", afirma Oded Grajew, um dos fundadores do Movimento Nossa São Paulo.

A iniciativa nasceu em resposta a uma realidade vivida pela maioria das grandes cidades. Em São Paulo, por exemplo, a velocidade média na hora de pico, em 2000, era de apenas 17,7 quilômetros por hora. Entre 2002 e 2006, a frota de veículos aumentou em 19,54%. No ano passado, o número de viagens motorizadas chegou a 25 milhões por dia.

O aumento do total de carros em circulação pelas ruas da capital paulistana também reflete negativamente na segurança e na saúde da população. Em 2006, 1.480 pessoas morreram e 27,74 mil pessoas ficaram feridas em acidentes de trânsito em São Paulo. Dos mortos, 49,4% eram pedestres. Com relação à poluição do ar em São Paulo, há registros de que 49,9 mil pessoas foram internadas em 2005 por problemas no aparelho respiratório. Sabe-se que os veículos são responsáveis por 70% da emissão de poluentes.

"O grande problema é que as pessoas costumam se defender do transporte público ruim comprando mais carros", observa Grajew. "Por isso, queremos uma cidade com uma boa política de transportes, mais ciclovias, mais faixas de pedestre e mais calçadas, para que estimular o cidadão a caminhar."

Além do Dia Mundial sem Carro, o Movimento Nossa São Paulo vai acompanhar sistematicamente os principais indicadores já existentes relacionados ao tema, como o número de dias em que o limite aceitável de poluição é ultrapassado, a média de congestionamento em horários de pico, o tempo médio que um veículo leva para deslocar-se entre determinados pontos da cidade, o total anual de mortes em acidentes de trânsito, a média de atropelamentos por ano, o número de automóveis particulares na cidade, o déficit de semáforos e de faixas de pedestres e o total anual de ocorrências de doenças respiratórias ligadas à poluição.

O grande problema é que muitos desses indicadores não estão atualizados e não se encontram disponíveis para a população. Uma pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) sobre as informações oficiais no Estado de São Paulo revelou que a capital é o lugar que apresenta maior transparência. Ainda assim, numa escala de 0 a 10, a capital paulista recebeu nota 3,5.

Poluição e saúde

Para André Luís Ferreira, do Instituto de Energia e Meio Ambiente, não há mais dúvida de que a poluição é o maior problema ambiental da cidade de São Paulo. Em 2006, o padrão aceitável de ozônio foi ultrapassado com grande freqüência. Há registros de que São Paulo é a área de maior concentração de ozônio e material particulado do país. "Embora saibamos dessa realidade, estamos andando na contramão da solução do problema, pois a frota veicular paulistana não pára de crescer", afirma André.

Apesar de serem os grandes responsáveis pela poluição na cidade, os carros hoje chegam a poluir 95% menos do que em 1986 e os caminhões reduziram seus níveis de poluição em 85% no mesmo período. Esses números são resultado do Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículo (Proconve), que introduziu mudanças tecnológicas nos veículos e colocou limites nas emissões de gases poluentes dos carros. Desenvolvido pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) e baseado nas experiências de países que já desenvolviam políticas de controle da poluição veicular, esse programa proibiu a comercialização dos modelos de veículos não homologados segundo seus critérios.

"Em 1986, os carros poluíam sem nenhum limite. O Proconve forçou a indústria automobilística a fixar um limite para emissão de cinco poluentes: monóxido de carbono, hidrocarboneto, óxido de nitrogênio, aldeídos e material  particulado", explica o especialista em engenharia veicular Gabriel Murgel Branco, um dos responsáveis pela criação do Proconve. Dez anos depois, em 1996, na tentativa de resolver os problemas de trânsito e mais tarde os da poluição, a prefeitura paulistana introduziu o rodízio de veículos na cidade. No entanto, a iniciativa não trouxe grandes resultados. Segundo Branco, de1996 até hoje a frota veicular cresceu 150%. "Sem melhorar o sistema de transporte público e sem investir em metrô e em ônibus, muitos carros são introduzidos na cidade. O rodízio tira 25% dos veículos da rua, mas coloca outros 50%", critica.

"Na minha opinião é preciso melhorar o sistema de motores e colocar catalisadores mais avançados nos carros?, diz Branco. Para ele, o Toyota Prius é um exemplo de como se pode diminuir a agressão dos veículos ao meio ambiente. Com sistema de combustível híbrido, o carro faz 25 quilômetros por litro na cidade e 21 quilômetros por litro na estrada. Além disso, emite apenas 0,03 gramas de monóxido de carbono por quilômetro rodado, enquanto os outros emitem em média 2 gramas. Mas, por enquanto, o Prius é uma realidade apenas no Japão e nos Estados Unidos.

"O Brasil deve apostar nesse tipo de tecnologia", prossegue Branco. "Estamos trabalhando para trazer um filtro cerâmico que reduz em 99% a emissão de gases poluentes do veículo. Mas a população brasileira ainda não percebeu o quanto a poluição é maléfica para o meio ambiente e para a saúde. Ainda há pessoas que pedem para o mecânico retirar o catalisador do automóvel na tentativa de conseguir mais velocidade", afirma.

Evangelina Vormittag, médica microbiologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), explica que a poluição resulta da presença na atmosfera de partículas que degradam a qualidade do ar. "Pode ser gerada por atividades diretas ou indiretas do homem e causar danos à saúde dos indivíduos", diz Evangelina. Com as mudanças climáticas, seus efeitos são ainda mais maléficos, porque o aquecimento global afeta a dispersão do ar. "A intensa urbanização que se verificou nos últimos anos também agravou a situação" continua a médica. "São Paulo tem hoje 14 milhões de habitantes e 7 milhões de carros circulando pelas ruas. É um carro para cada dois habitantes!"

Segundo a especialista, poluição relacionada à saúde tem sido o principal tema tratado por revistas de medicina conceituadas, como Lancet, New England Journal of Medicine e Nature. O material particulado, formado por pequenas partículas de material sólido emitidas pelos veículos, cujo diâmetro varia de 0,01 micrômetro a 100 micrômetros, é um dos elementos que podem causar maior impacto à saúde. "Quando abaixo de 10 micrômetros, o material particulado pode atingir os alvéolos, que são a porção mais profunda do sistema pulmonar, onde há trocas gasosas", explica Evangelina. "Um estudo do professor Paulo Saldiva, também da FMUSP, confirmou que a poluição aumenta em 13% os casos de morte de pessoas de idade e crianças."

Alem disso, não é só a poluição relacionada ao transporte urbano que afeta a saúde da população. Evangelina explica que o homem do campo está sujeito à poluição proveniente da queimada da cana-de-açúcar, que atinge níveis bem mais elevados do que o permitido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Outro grande vilão da poluição no campo é o fogão a lenha. "Cerca de 60% das residências do Nordeste do país possuem fogão a lenha, responsável pela queima diária de madeira." Esse poluente, segundo Evangelina, pode ser mais prejudicial à saúde do que a poluição emitida pelos veículos no centro de São Paulo. "É por isso que no interior, onde não há poluição veicular, as pessoas também sofrem de doenças respiratórias."

Data: 16/08/2007 Fonte: Giselle Paulino / Edição: Benjamin S. Gonçalves
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