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Poupança verde em alta

Plantio de árvores usadas na produção de papel, construção civil, móveis e até como lenha atrai produtores. Investimento é baixo e retorno pode chegar a 1000% em seis anos

Luciano Pires
Da equipe do Correio

Marcelo Ferreira/CBLaércio, produtor do DF, plantou 10 hectares de eucalipto e planeja ampliar área para 200 em seis anos
O investimento inicial é baixo, os cuidados são mínimos e a rentabilidade é certa. Não por acaso, o eucalipto vem sendo apontado como a mais nova estrela do campo. O cultivo da árvore já ocupa 3,5 milhões de hectares em todo o Brasil — 140 mil hectares a mais do que em 2005 —, se expande pelo Centro-Oeste e onde chega ganha adeptos. Assim como a cana-de-açúcar em alguns estados do país, o eucalipto disputa espaço com culturas tradicionais como milho, soja e feijão, além da pecuária.

A indústria de celulose é quem mais absorve a matéria-prima. Com a expansão da economia, o setor está superaquecido e as grandes empresas ampliaram o plantio de subsistência. César Augusto dos Reis, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), explica que os benefícios são muitos. As companhias possuem áreas próprias, mas também trabalham em parceria com fornecedores independentes. “Para o produtor é vantajoso porque ele recebe as mudas de qualidade e tem a garantia de que terá para quem vender a madeira. Para a empresa a vantagem é que o eucalipto acaba criando uma rede de proteção no campo e ajuda a reduzir custos”, resume. Reis confia que pelos próximos 10 ou 15 anos a atividade só produzirá boas notícias.

A lenha utilizada como fonte de energia — especialmente por siderúrgicas — também está valorizada e, por causa da escalada dos preços do petróleo, o óleo combustível perdeu espaço para a madeira. “Gastávamos R$ 100 mil por mês com a caldeira alimentada a óleo. Hoje, reduzimos esse custo para R$ 30 mil”, confirma Valério Folador, diretor-superintendente da Brasília Alimentos (Basa), fabricante de ração para gatos, cães, cavalos, aves e suínos do Núcleo Rural de Tabatinga. A mudança ocorreu há três anos. A caldeira movida a lenha produz o vapor necessário para secar a ração. Por causa da madeira, a Basa contratou mais empregados e pensa em construir mais uma caldeira.

O produtor rural Laércio Gonçalves da Silva, que possui terras no Núcleo Rural Rio Preto, está otimista. No lugar de soja, sorgo (utilizado para a ração animal) e feijão agora crescem eucaliptos. As plantas estão com cinco meses de idade. “Plantei 3 mil eucaliptos por hectare em uma área de 10 hectares. Quero chegar a 200 hectares em cinco ou seis anos”, planeja. Por hectare, será possível faturar R$ 20 mil bruto, um belo retorno perto dos R$ 2 mil investidos na mesma faixa de solo. “Há três anos queria plantar. Via que o negócio era bom. Vou fornecer lenha”, diz. Em sua propriedade, Laércio fez duas experiências: reduziu o espaçamento entre as plantas e plantou as mudas bem antes do período chuvoso.

Multiuso, o eucalipto ainda atende à construção civil (com vigas e escoras), o setor de móveis, serve aos fabricantes de postes de eletricidade e é aceito por diversos segmentos rurais para a produção de cercas, por exemplo. Algumas variedades mais nobres tiveram valorização recorde de até 200% nos últimos cinco anos.

As novas florestas crescem principalmente sobre áreas degradadas. Como o eucalipto se adapta a qualquer tipo de solo, relevo e clima, pastagens empobrecidas servem de refúgio para a planta. O ciclo até o primeiro corte comercial é de sete anos. Mas há inimigos, principalmente as formigas. Em média, o eucalipto resiste a três cortes. “É uma poupança verde. Mas tem de ser explorado corretamente”, resume Helton Damin da Silva, pesquisador da Embrapa e coordenador do projeto Florestas Energéticas. “O grande gargalo talvez seja a deficiência no fornecimento de sementes e mudas de qualidade. O produtor precisa ficar atento”, completa.

Marcelo Ambrogi, engenheiro regional floresta da Aracruz Celulose, afirma que o eucalipto pode ser uma boa opção de renda para o produtor. A Aracruz é uma das gigantes no setor florestal com 250 mil hectares de área própria e outros 80 mil em terras de fomento. O apoio aos parceiros é total. “Fornecemos mudas, defensivos, insumos e damos a assistência técnica”, finaliza.
Afetada por preconceitos

Alvo preferido dos ambientalistas, o eucalipto é acusado de causar erosão, consumir grandes quantidades de água, empobrecer o solo, expulsar a fauna e interferir na biodiversidade. O problema é que pouco ou quase nada nessa lista de ataques foi comprovado até agora. Mitos e verdades sobre a planta mereceram uma análise cuidadosa e detalhada por parte do jornalista Geraldo Hasse.

Autor do livro Eucalipto – histórias de um imigrante vegetal, lançado no ano passado, Hasse afirma que o eucalipto é visto como um vilão, mas nem tudo o que se diz contra a árvore é verdade. “Na década de 1920, ele foi usado para drenar áreas em São Paulo porque existia essa lenda na Europa, mas ninguém sabe se isso resolveu ou não”, lembra. O escritor afirma ainda que o senso comum exerce forte influência sobre os conceitos que costumam passar de pai para filho. “O homem do campo tem suas convicções”, explica.

Há estudos que atestam, por exemplo, que a água necessária ao eucalipto é obtida da camada superficial do solo. Suas raízes dificilmente ultrapassam os 2,5 metros de profundidade e, portanto, não alcançam os lençóis freáticos. Igualmente controverso é apostar que a planta afugenta animais. Por princípio, toda a monocultura — cana-de-açúcar, soja, milho, pasto — reduz a biodiversidade. O nível de agressividade depende da forma como essas variedades são introduzidas no ambiente. Os defensores do eucalipto argumentam que a produção consorciada ajuda a minimizar os impactos negativos sobre o ambiente.

Outra qualidade conferida ao eucalipto é sua incrível capacidade de capturar carbono: há pesquisas que apontam para o seqüestro de até 11 toneladas por hectare ao ano. Entre os vegetais mais eficientes neste quesito, o eucalipto seria um dos campeões. (LP)

Para saber mais, chegada em 1860

Os registros de chegada ao Brasil das primeiras mudas de eucalipto são precários, mas a literatura especializada aponta o período de 1860 a 1870 como o mais provável. O Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro teriam sido os estados pioneiros no cultivo dessa árvore que é originária da Oceania. O plantio comercial ganhou força no Brasil a partir dos anos 1900. A monocultura, que chegou até Minas Gerais e Bahia, atendeu à demanda por lenha das locomotivas e ajudou a consolidar o setor ferroviário. A madeira também era usada para a fabricação de dormentes para trilhos, cercas, postes, vigas da construção civil e móveis. Graças à pesquisa e ao incentivo das grandes empresas, o país é destaque na produção de mudas e sementes. (LP)

Data: 24/09/2007 Fonte: Correio Braziliense
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