Mace valoriza a terceira idade por meio da integração de gerações
Iniciativa da Moderna Associação Campograndense de Ensino (Mace), o projeto 'Integrando Gerações' mobiliza jovens para atuarem como monitores na valorização da chamada terceira idade, por meio do ensino voluntário de informática em Campo Grande (MS). A integração das gerações rompe barreiras não apenas do mundo virtual, baseada em bites e ferramentas tecnológicas, mas de cruzamento de outras linguagens e histórias.
A aluna Derli Hollender diz que antes de freqüentar o curso estava se sentindo 'amarga'. "Meus netos falavam só sobre computação e a gente ficava de lado, não entendendo nada. Não perco uma aula. Participar elevou minha auto-estima, me sinto integrada na sociedade", completa. "Eu tinha de enfrentar esse desafio: por que minha neta de quatro anos lidava com o computador, e eu, que na época tinha 63 anos, não podia, não tinha capacidade?", indaga Constança Castello, hoje também aluna do projeto.
Já Armando Dinigre credita seu interesse no aprendizado à atuação dos monitores. "Eles poderiam estar aproveitando a vida, e, em vez disso, estão aqui dedicando seu tempo para nos ensinar, com amor e paciência".
Para participar como monitor e aluno, os interessados têm apenas de se inscrever na Assistência Social do Centro de Convivência do Idoso (Central CCI), órgão da Prefeitura de Campo Grande. Cada aluno tem o acompanhamento individual e personalizado de um monitor, um estudante da 6ª, 7ª ou 8ª série da instituição de ensino particular Mace. O objetivo aqui é propiciar aos idosos condições necessárias para atuar ativa e independentemente, desenvolvendo habilidades com o computador, a convivência e a troca de experiências.
Reni dos Santos, diretora pedagógica da Mace, conta que foi convidada a participar do projeto durante uma reunião no Centro de Convivência do Idoso. "Discutimos como a escola poderia participar e dar sua melhor contribuição. Envolvemos professores e coordenadores e acabou dando certo. Incentivamos nossos alunos a trazerem seus avós, mães e vizinhos a participar do Integrando Gerações".
O professor Francesco Edson Nogueira revela que o projeto tem como base filosófica a valorização do envelhecer, pois é possível que o idoso tenha vez e voz para compartilhar e expressar suas idéias e experiências com as diversas áreas profissionais e com a sociedade em geral. No entanto, afirma, essa parcela, considerável e expressiva, encontra-se, em sua maioria, alheia ao atual contexto tecnológico. "Exemplo disso é a grande dificuldade a que essas pessoas se submetem quando precisam utilizar os sistemas de facilitação (bancário, comercial e de auto-atendimento em geral). Constantemente presenciamos humilhações e constrangimentos que eles passam por não conhecerem essas tecnologias".
Para Francesco, é incontestável a necessidade de aprimorar e capacitar os idosos, também, para a vida moderna. "Para que eles possam exercer a cidadania e ter direito à qualidade de vida. Tricô, crochê, bordado, cestos, colagens, pintura, dança, caminhada, viagens, teatro, cinema, festas e outras atividades são relevantes, cada qual com sua importância e objetivo, pois estão ligadas à promoção social e à saúde. Mas só isso não é suficiente".
O monitor Cesar Albuquerque Jr. reconhece a possibilidade de aprendizado de mão dupla. "Aprendemos coisas com eles para o nosso futuro e também ensinamos outras para atualizá-los". Os alunos têm, em geral, idades entre 65 e 81 anos.
Critérios de participação Podem ingressar no programa como alunos pessoas que tenham 60 anos completos ou mais, que passam por uma pré-inscrição. Já a seleção dos monitores é baseada na formação, experiência na área de informática, autorização dos pais ou responsáveis, disponibilidade para dedicar-se em caráter exclusivo nos dias de aula do projeto, rendimento escolar, responsabilidade, entre outros. Os monitores selecionados reúnem-se com o professor para as primeiras orientações sobre o público-alvo, o compromisso, as dificuldades, os conteúdos e os valores que deverão trabalhar. Com a dupla formada (monitor e aluno), é realizada uma entrevista. Enquanto se conhecem, os monitores são encarregados de efetivar a matrícula de seus alunos no projeto. As turmas (avançada e básica) são formadas, respectivamente, com base nos seguintes critérios: os alunos que concluíram o Curso de Informática Básica e não quiseram abandonar ou se desligar do projeto, desde que estejam cadastrados no Centro de Convivência do Idoso João Nogueira Vieira (Turma A); e qualquer pessoa idosa interessada em se iniciar no mundo da informática, desde que esteja cadastrada no CCI (Turma B). A carga horária semanal é de uma hora e trinta minutos, compostas por duas aulas geminadas de 45 minutos cada. Ao final, é expedido pela escola Mace um Certificado de Participação, tanto para os monitores quanto para os alunos que concluíram o curso, obtendo bom desempenho. Além do certificado, é entregue uma placa em metal de 'Honra ao Mérito' ao 'Aluno-destaque' e também uma placa ao 'Monitor-destaque', que são escolhidos segundo critérios de desempenho, rendimento, assiduidade, responsabilidade, zelo, carisma e respeito.
"Nessa interação, os monitores repassam conhecimento aos idosos, que, por sua vez, devolvem saberes, como histórias e folclores", atesta Ana Cristina Anachi, professora da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp).
Dia-a-dia As aulas práticas são voltadas para temas e fatos da vida dos idosos, com aplicabilidade prática dos conteúdos. Nos primeiros dez minutos de cada encontro, é aberto um espaço para que os alunos possam apresentar aos seus monitores alguns trabalhos realizados fora do espaço de aula.
Entre as metas do projeto destacam-se a promoção do retorno da pessoa idosa ao núcleo de aprendizagem continuada e a efetivação dos direitos e deveres preconizados no Estatuto do Idoso e no Estatuto da Criança e do Adolescente. De acordo com a coordenadora Evanir Sandim, o projeto utiliza uma metodologia que consiste em três momentos: planejamento, sistematização e orientação.
"Com isso, ajudamos a construir uma sociedade mais justa e igualitária, preparando a pessoa idosa para a vida moderna, quebrando paradigmas sobre uso e disseminação da informática, e buscando uma melhor qualidade de vida para esse público", informa o professor.
Segundo ele, há ainda a meta de se implantar um curso especial de nível superior (universitário) para a terceira idade, com duração de dois ou três anos, por intermédio da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp); a promoção de um intercâmbio com os alunos da Uniderp, instituição do mesmo grupo da escola Mace, a fim de abrir um campo de estudo e de pesquisas aos acadêmicos dos cursos de Medicina, Fisioterapia, Odontologia, Educação Física, Letras, Moda e outros, oferecendo assistência gratuita, desde o início, aos alunos idosos do projeto; o lançamento de um espaço para debates sobre as questões do idoso, com periodicidade mínima mensal, com palestras de professores da universidade; a criação da Delegacia municipal ou estadual da Pessoa Idosa (Terceira Idade), assim como já existe a Delegacia da Mulher, pela ratificação do Estatuto do Idoso e em legislações diversas, com a criminalização dos abusos e violências contra a pessoa idosa; a aquisição de bibliografias e literaturas específicas e afins (Lei do Voluntariado, Constituição Federal, Novo Código Civil, Estatuto do Idoso, Estatuto da Criança e do Adolescente, entre outros) à terceira idade para a biblioteca da Mace, visando cumprir efetivamente o Estatuto do Idoso no que diz respeito à questão da educação (leitura, pesquisa, entre outros); compra de equipamentos (scanner, gravadora de CD/DVD, impressoras jato de tinta e a laser, máquina fotográfica digital, webcams, acessórios (cabos para computador) para o fortalecimento e atualização do curso de informática; cobertura da mídia sobre tema, a começar pela rádio da Uniderp; e, por fim, a contratação de um médico gerontólogo.
Avaliação e monitoramento O projeto mantém avaliações para verificação da monitoria, professores e infra-estrutura. Para aferir notas, além da prova qualitativa, são realizados dois tipos de avaliações: com os idosos e com os alunos da escola. Os primeiros passam por testes práticos e teóricos, que reúnem quesitos como atividades individuais realizadas aula-a-aula, registradas em disquete; no Laboratório de Informática, abordando os conteúdos repassados pelos monitores, sob a supervisão e acompanhamento do professor; uma prova escrita, dirigida e individual ou de múltipla escolha, com duração de duas horas, sobre os conteúdos praticados, valendo de 0 a 10 pontos (essa é realizada apenas com os alunos (idosos), sem o acompanhamento do monitor. A avaliação dos monitores é realizada mensalmente, por meio de testes ou provas, individualmente, sobre o conteúdo programático planejado para o ano letivo, e de trabalhos realizados abordando temas transversais, podendo ser, esse último, em grupo (equipe de dois a quatro alunos). Esses conhecimentos adquiridos em sala de aula são repassados, de forma prática, aos idosos no Laboratório de Informática da escola. São realizadas ainda reuniões rápidas, de no máximo 15 minutos, com os monitores, toda terça-feira, antes do início das aulas com os idosos, para discutir suas dificuldades e dúvidas. A Supervisão Pedagógica do Ensino Fundamental de 5ª a 8ª séries da escola é que dá, em caráter voluntário, toda a assessoria quanto à questão didático-pedagógica a ser aplicada.
Os idosos também têm a chance de avaliar o seu monitor, por meio de uma ficha de controle de qualidade do projeto que aborda itens como clareza na explicação, assiduidade, apresentação, atenção, paciência, respeito e carisma, entre outros.
Infra-estrutura Para a realização do projeto, a direção da escola Mace oferece aos alunos da terceira idade a mesma infra-estrutura que oferece aos demais matriculados regularmente: um laboratório de informática equipado com 30 microcomputadores com kit multimídia e interligados à internet, softwares atualizados, disquetes-extras, uma sala de multimeios equipada com recursos audiovisuais, uma biblioteca, área de convivência, um teatro com 500 lugares e um auditório com 100 lugares.
O investimento anual de recursos financeiros é simbólico, cerca de R$ 2.786. Boa parte do contingente envolvido no projeto são voluntários - das 65 pessoas 45 são jovens monitores, não-remunerados. Participam como parceiros da iniciativa a Prefeitura Municipal de Campo Grande, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social, e a Uniderp.
Resultados alcançados Em 2001, quando o projeto foi lançado, 56 alunos do Curso de Informática Básica para a Terceira Idade se formaram e receberam o primeiro certificado. Em 2002, dando continuidade e aperfeiçoando ao trabalho desenvolvido no ano anterior, mais uma turma de Informática Nível Básico, composta por 30 alunos idosos, concluiu o curso. Um grupo de 28 alunos da primeira turma também concluiu o módulo de Informática Nível Intermediário. Nesta etapa, a carga horária do curso aumentou de 60 minutos semanais para 90 minutos semanais em cada turma e o período letivo foi ampliado, totalizando sete meses de aulas. Outra conquista foi o ensino de língua espanhola, assim como o I Seminário Estadual do Estatuto do Idoso, realizado em 2003, ano em que a Instituição de Ensino Mace recebeu o Certificado e o Selo 'Escola Solidária', do Instituto Brasil Voluntário, órgão vinculado ao Ministério da Educação e Cultura do governo federal e à Unesco, por conta do Projeto Integrando Gerações. Ainda em 2003, um grupo de 45 alunos se formou no Curso de Informática e a Uniderp abriu suas portas para promover intercâmbio entre os acadêmicos da universidade e os alunos do projeto, consolidando uma parceria com os cursos de Psicologia, Fisioterapia e Medicina, para aulas técnicas, entre outras atividades. No ano seguinte, o projeto venceu a 6ª edição do Concurso Talentos da Maturidade, na Categoria Programas Exemplares, promovido pelo Banco Real AMRO. No ano passado, foram agregadas aulas de hidroginástica e oficina de textos. De 2001 a 2005, o Curso de Informática na Terceira Idade do Projeto Integrando Gerações contabilizou cerca de 250 idosos formandos.
"Além de eu ensinar, aprendo muito sobre a vida com meus alunos", finaliza o monitor Ricardo Zalla.
O projeto 'Integrando Gerações - Informática na Terceira Idade' foi o vencedor da Região Centro-Oeste do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social 2005. |