Evento

Indicadores e critérios para o investimento socialmente responsável

O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e a Bolsa de Valores de São Paulo -BOVESPA, com o apoio da Telefônica têm a satisfação de convidá-lo(a) para nosso próximo evento mensal onde discutiremos como promover e avaliar investimentos em empresas socialmente responsáveis e quais indicadores devem ser considerados nas decisões de investimentos para o desenvolvimento sustentável.

Os palestrantes serão Hazel Henderson, mundialmente reconhecida pelo seu ativismo no desenvolvimento de uma economia sustentável, autora dos livros: "Transcendendo a economia" "Construindo um mundo onde todos ganhem e "Politcs of the solar age: alternatives futures, the end of econimcs", e Maria Helena Santana, superintendente executiva de relações com empresas da BOVESPA.

Maiores informações sobre a palestrante Hazel Henderson, acesse o site www.hazelhenderson.com, encaminhamos a seguir sua entrevista concedida ao Jornal o Estado de São Paulo.

21 de janeiro, terça-feira

08h00 às 10h00

Será oferecido um café de boas-vindas das 7h30 às 8h00

Local: Auditório da Telefônica

Rua Martiniano de Carvalho, 851

Piso SE-Paraíso- S.P

Apoio: Aguilla Produção e Comunicação

Apoio de divulgação: CSU CardSystem

(Estacionamento nas imediações por conta do participante)

Favor confirmar presença até o dia 20 de janeiro. Para confirmar clique aqui ou envie um fax (11) 3897.2424

Vagas Limitadas


Entrevista com Hazel Henderson

Quando começou a pregar a adoção de novos indicadores para medir riqueza e qualidade de vida das nações - um dos capítulos da Agenda 21 que os países participantes da Conferência Rio 92 se comprometeram a adotar - , a economista americana Hazel Henderson não agradou muito. No auge da bolha da internet, enquanto todos elogiavam o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos, Hazel insistia em mostrar números incômodos: 40 milhões de pessoas sem nenhum tipo de seguro saúde; 2 milhões de presos, a maioria afro-americana.

Hoje, o índice Calvert-Henderson, que incorpora, entre outras coisas, questões ambientais, investimentos em educação e saúde, qualidade de moradia e direitos humanos, virou referência nos Estados Unidos. É ensinado em universidades e objeto de análise de um grupo de trabalho governamental. "Na medida em que os países percebem que, ao contabilizar gastos em educação e saúde como investimento e não como despesa, o déficit público se transforma em superávit, eles começam a se interessar pelo modelo", diz Hazel.

Autora de Além da Globalização, ela é considerada uma das grandes líderes do pensamento alternativo, elogiada por Fritjof Capra. Uma das poucas vozes femininas em uma ciência dominada por homens, Hazel defende a adoção de modelos de desenvolvimento baseados no estímulo às pequenas empresas. Prega o escambo de mercadorias para libertar os países da dependência por dólares.
De passagem pelo Brasil na semana passada, quando concedeu entrevista ao Estado, Hazel falou de seu entusiasmo com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições. "O Brasil pode se transformar em meca de idéias avançadas de desenvolvimento sustentável e solidário."

Estado - Qual a sua avaliação sobre a vitória de Lula?
Hazel Henderson - Estou muito entusiasmada. É uma vitória da democracia. O fato de ele ter falado, em seu primeiro discurso depois de eleito, que a questão da fome será prioridade mostra um jeito muito diferente de fazer política. Para que serve o crescimento econômico se não é para ajudar as pessoas? Há muita gente interessada no Brasil. Virei novamente em janeiro, para participar do Fórum Social Mundial em Porto Alegre e vou trazer comigo um grupo de 30 investidores de um fundo social e ecologicamente correto, o Calvert Fund, que administra uma carteira de US$ 8 bilhões.

Estado - A senhora acredita que ele será capaz de realizar as promessas de redução da pobreza?
Hazel
- Este é um problema dos líderes em democracias: prometer demais. É o mesmo problema de Hugo Chavez, na Venezuela, e Vicente Fox, no México.
Muitas das mudanças sobre as quais eles estão falando podem levar décadas.
Acho que o Brasil tem grandes chances de se transformar em uma meca de modelos de desenvolvimento alternativos, atraindo pensadores e acadêmicos de todos os cantos do mundo. Sobre a questão da pobreza, o Brasil é um país riquíssimo, com um grande espírito empreendedor, uma criatividade incrível e bens ecológicos fabulosos. No entanto, somos forçados a olhar o mundo pelos olhos desses economistas e banqueiros de visão estreita, que acham que alguns países são pobres só porque não possuem reservas internacionais. O mesmo acontece com a economia informal. Na maioria dos paises, pelo menos 50% do trabalho não é remunerado ou pertence à economia informal. Essas pessoas podem comercializar e fazer escambo, cultivar seus próprios alimentos e ter um nível de vida bastante adequado, apesar de serem consideradas pobres pelos economistas.

Estado - Uma de suas bandeiras é a adoção de índices mais abrangentes do que o Produto Interno Bruto (PIB) para medir a riqueza e a qualidade de vida das nações. Qual a importância disso?
Hazel
- Durante a bolha da internet, todos achavam que os EUA eram uma maravilha. Mas com o índice Calvert-Henderson, que eu elaborei com um colega, a gente consegue saber da verdade. Vemos que 40 milhões de americanos não possuem seguro saúde e que, em termos de direitos humanos, temos 2 milhões de presos, a maioria afro-americanos. Não é preciso dizer que o índice não foi muito popular. Agora, porém, muitos governos estaduais estão começando a adotar o modelo e o índice passou a ser ensinado em universidades. E o governo americano criou um grupo de trabalho para estudar a adoção de novos índices, o que significa cumprir os compromissos da Agenda 21 de corrigir o PIB das nações com a inclusão de bens ecológicos, capital social e tudo o mais.

Estado - O que muda na realidade dos Países com os novos índices?
Hazel
- Hoje, os gastos em educação são contabilizados como despesa nos cálculos do PIB. Mas na era da infomação, educação é o investimento mais importante que um país pode fazer. Se o governo brasileiro anunciar que vai corrigir seu PIB e contabilizar os gastos em educação e saúde como investimento e projetos de infra-estrutura como bens, o cálculo da dívida pública vai mudar completamente. Quando os EUA fizeram isso, em janeiro de 96, o país começou a ter superávits. Mais recentemente, os canadenses fizeram o mesmo. O ex-presidente Bill Clinton foi esperto e disse se tratou de uma melhora nos cálculos. Na verdade, um terço da redução do déficit público veio da alteração contábil. Outro terço veio do aumento dos impostos resultante do boom tecnológico em Wall Street e a última parte, dos cortes no orçamento militar.

Estado - Qual seria o País mais rico do mundo se se contarem todas as riquezas e despesas como investimento?
Hazel
- São tantas variáveis que eu não gostaria de dar um chute. Depende do patrimônio ecológico. Por este quesito, o Brasil povavelmente seria o mais rico. Em termos de patrimônio social, vocês estão bem, têm muita coesão social, coisa que perdemos no Ocidente. Mas neste aspecto, talvez a China esteja melhor. Eles têm uma cultura muito forte, um grau de educação altíssimo e muito espírito empreendedor. Só que em termos ecológicos os chineses são um desastre. Esse é o tipo de cálculo que você tem de fazer. O Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU, é uma primeira tentativa. Se o Brasil anunciar que está disposto a liderar esse movimento, fazendo correções no PIB e aprofundando os cálculos nas universidades, você verá que o mundo todo vai olhar e dizer: esse é o futuro. É assim que as coisas deveriam ser.

Estado - Esta semana, Lula falou sobre a adoção de uma "moeda verde" no comércio com a Argentina, para promover a troca direta de mercadorias. Esse é o tipo de políticas que a senhora defende?
Hazel
- Esta é a grande mudança de paradigma dos novos tempos. Há dez anos escrevi um artigo sobre isso, chamado A nova moeda mundial não é escassa.
Temos de acabar com essa idéia de que quem não tem dinheiro é pobre. As pessoas são incrivelmente criativas. Na Argentina 6 milhões de pessoas fazem escambo - entre vizinhos diretamente, ou pela internet. É a melhor coisa que podem fazer diante da situação pela qual o país passa. É possível fazer muita coisa para driblar o velho sistema. Enrique Iglesias (presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento) é um entusiasta dessas idéias e pode ser um grande aliado de Lula se o Brasil quiser mesmo adotar esse tipo de medida.

Estado - Há muita gente fazendo escambo pelo mundo?
Hazel
- O site de leilão e-bay é o protótipo desse modelo na internet. As empresas transnacionais também fazem escambo. Por ano, elas comercializam o equivalente a US$ 1 trilhão internamente, trocando passagem, hospedagem, espaço em escritório. A General Electric fez um acordo com a China anos atrás em que trocou geradores por um milhão de galinhas. Os EUA ficaram danados com Chavez por uma coisa que eu sempre defendi, que os produtores de petróleo troquem petróleo por commodities. Chavez fez 13 acordos de escambo, inclusive com Iraque e Cuba. Com Fidel Castro, ele trocou petróleo por médicos cubanos que montaram clínicas de saúde na Venezuela. É brilhante. Claro que o presidente George W. Bush ficou enlouquecido e a mídia americana interpretou a atitude como pregação marxista ou como uma volta ao capitalismo primitivo. Mas com a falta de moeda forte nos países em desenvolvimento, o escambo é uma alternativa muito eficiente. E com as tecnologias existentes, é possível criar plataformas bastante robustas de escambo eletrônico.

Estado - Como a senhora está vendo as negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca)?
Hazel
- Não acho que vai ajudar muito. Comércio livre é muito bom para as economias dominantes. Mas funciona mal para os países em desenvolvimento.
Assim é o mundo. A economia global é injusta. Só há uma superpotência global, e a economia globalizada é uma questão de poder. Suas armas são as moedas.
Estado - Qual é a alternativa para os países latino-americanos?
Hazel - Acordos regionais. Seria fantástico, ao invés da Alca, fazer uma integração no continente latino-americano. Vocês têm condições de comercializar entre vocês. Pode-se pensar ainda na criação de um FMI latino-americano, como os asiáticos estão pensando em fazer. Algo que faça os EUA, que controlam o FMI e o Banco Mundial, entenderem que eles não podem controlar o mundo todo. Uma outra coisa que os países podem fazer é transferir suas reservas, hoje mantidas em dólar, para o euro. Quando o euro se tornar uma moeda global, o que já está acontecendo, o dólar vai depreciar e o jogo vai mudar.

Estado - Mas como fazer para diminuir a dependência por capital estrangeiro?
Hazel
- A primeira coisa é identificar esse cassino global, que é o mercado financeiro internacional. Se o Brasil continuar jogando o jogo dos mercados, vai ser muito difícil para o Lula fazer alguma coisa. Veja a Coréia, a China e a Malásia, que não seguiram o receituário liberal do FMI e foram bem sucedidos. Ao pegar esse empréstimo que está sendo oferecido pelo FMI, o Brasil precisa dizer que não vai seguir todas as imposições.

Estado - E se, com isso, o FMI não conceder o empréstimo?
Hazel
- Tudo bem. A questão é que há espaço hoje para uma postura diferente.
Para isso é preciso que haja uma comunicação eficiente para mostrar que o empréstimo não trará benefícios. É preciso avisar com antecedência que você está embarcando em uma estratégia totalmente nova, que não passa pelo aumento do endividamento e sim pelo fortalecimento do mercado acionário. Não é fácil agir contra um sistema que está morrendo, mas que ainda é muito poderoso. O que se tem a fazer é fortalecer o mercado doméstico, estimular as pequenas empresas - e não pensar em atrair multinacionais. As pequenas empresas devem ser o motor do desenvolvimento.

Estado - Mas como seria possível adotar uma postura de confrontação, não aceitando regras do FMI, sem ficar ameaçado de sofrer uma intervenção militar, como aconteceu na Venezuela?
Hazel
- A confrontação não leva a lugar nenhum. Imagino que Lula será mais esperto que Chavez, que é muito falastrão, tem boas idéias, mas acaba se chocando desnecessariamente. Não acho que haverá confronto entre Lula e Bush. Mas espero que, a portas fechadas, haja conversas francas. Lula tem de dizer: "Ei, veja, por que eu devo seguir esse modelo que vocês tentam me impor, se todas as evidências me levam a agir de forma contrária? Por que tomar mais esse empréstimo do FMI?" É possível fazer muita coisa sem precisar criar um confronto aberto. Bush é um cara muito pragmático.

Estado - Qual a sua avaliação da era Bush?
Hazel
- Com muita apreensão. O público americano não vê a realidade da fragilidade da economia americana. Somos o país mais endividado do mundo, tanto no setor público quanto no privado. Os consumidores gastaram tudo no cartão de crédito e temos uma taxa de poupança negativa. E agora essa guerra global, o país querendo ser a polícia do mundo. Depois do último corte de juros, se eu fosse um investidor com títulos do tesouro americano, mudaria para títulos europeus, que são mais rentáveis e as economias têm fundamentos melhores. Em Wall Street, há quem interprete essa redução dos juros como um ato de desespero, sinal de que a situação está grave. Temos de estimular a economia, os pequenos negócios, e a forma de fazer isso é investir em educação, em medicina preventiva. Coisas que não fazemos hoje, pois são consideradas despesas. Temos de fazer um ajuste estrutural e promover uma reforma política. A política empacou. Temos dois partidos, Republicano e Democrata, que são como dois times de futebol de um mesmo dono. Precisamos mudar o sistema de financiamento milionário de campanhas políticas e sair em busca de novas lideranças solidárias. Não temos mais as respostas certas para o mundo.

Fonte: O Estado de São Paulo

 

Home | Solicitação de Publicações e Informações | Agenda | FAQ | Notícias da Semana | Conferência Nacional | Global Compact | Publicações e Ferramentas | Banco de Consultores | Publicações Ethos | Links | Busca | Empresas e Entidades Empresariais | Jornalistas | Comunidade Acadêmica | Parceiros

© Copyright Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social - Todos os direitos reservados