O Grupo de Trabalho (GT) de Integridade do Instituto Ethos realizou, em 31 de março, sua primeira reunião de 2026, dedicada ao debate internacional sobre a construção de métricas de mensuração da integridade e do risco de corrupção, além dos novos desafios regulatórios enfrentados pelas empresas brasileiras. O debate expôs o paradoxo entre o fortalecimento das instituições nacionais e a estagnação do país em rankings globais de percepção da corrupção. 

advogada e pesquisadora Izabela Telles apresentou uma análise sobre o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) da Transparência Internacional, criado em 1995, e que é ainda reconhecido como o principal indicador global sobre corrupção. Segundo a especialista, o índice funciona como um “termômetro de confiança sistêmica”. Como a metodologia é desenhada para refletir a percepção da corrupção, estudos acadêmicos e debates internacionais têm apontado a necessidade de desenvolver indicadores complementares, capazes de oferecer maior usabilidade para empresas e governos e refletir de forma mais ampla os avanços institucionais. 

Telles apresentou ao GT resultados de pesquisas internacionais que defendem o uso de métricas objetivas e a transição do foco de “combate à corrupção” para “promoção da integridade”. Esse conceito, mais amplo e mensurável, permite criação de indicadores internos claros, gera valor competitivo e fortalece a segurança jurídica. 

Dados da Controladoria-Geral da União (CGU) indicam que, em 2025, foram instaurados 126 Processos Administrativos de Responsabilização (PAR) – o maior volume desde a criação da Lei Anticorrupção – com arrecadações superiores a R$ 1 bilhão em acordos de leniência. Apesar do aumento no enforcement, especialistas ressaltam que o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) da Transparência Internacional possui baixa sensibilidade para refletir esses avanços em curto prazo, o que reforça a importância de métricas complementares. A questão recai sobre o uso exclusivo de fontes internacionais e a ausência de dados de institutos brasileiros, o que torna o índice um “termômetro de confiança sistêmica” em vez de um retrato da corrupção real. 

 Entre as métricas sugeridas está a “equação da confiança”, que soma credibilidade técnica, confiabilidade de ações e proximidade, dividindo o resultado pelo fator de autointeresse. 

No campo regulatório, o grupo alertou para a urgência de as empresas monitorarem a nova Lei de Crime Organizado, em razão de evidências de lavagem de dinheiro em setores regulares e no sistema bancário. Outra lacuna identificada foi a ausência de legislação específica para investigações corporativas no Brasil, o que gera insegurança sobre a validade de evidências colhidas internamente. A CGU reforçou a importância da manutenção da cadeia de custódia e recomendou o uso do Pacto Brasil como ferramenta de autoavaliação para empresas que buscam elevar a maturidade de seus programas de conformidade antes de pleitearem o reconhecimento oficial. 

A aplicação de inteligência artificial (IA) também foi destacada como ferramenta estratégica para o tratamento de grandes volumes de dados e mapeamento de riscos jurisdicionais. O uso ético da tecnologia, aliado a mecanismos de controle para prevenir o assédio eleitoral e a desinformação, configura-se como a nova fronteira da integridade privada para os próximos anos.