1. Introdução e contexto

Embora o cuidado sempre tenha estruturado a organização social e econômica, o tema ganhou maior visibilidade pública nos últimos anos, especialmente diante de transformações sociais, econômicas e demográficas acumuladas nas últimas décadas, como o envelhecimento da população e o aumento de lares chefiados por mulheres. Entre essas mudanças, destaca-se também a reconfiguração do mundo do trabalho, marcada pelo crescente ingresso das mulheres no mercado formal e informal. Apesar desse avanço importante em termos de autonomia e participação econômica, essa transformação não foi acompanhada por uma redistribuição equivalente do trabalho doméstico, da renda e do cuidado.

A divisão sexual do trabalho permanece profundamente desigual. Dados da PNAD Contínua 2022 indicam que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a atividades domésticas e de cuidado, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Essa desigualdade impacta diretamente trajetórias profissionais, renda, tempo disponível e acesso a oportunidades. Para muitas mulheres brasileiras, essa realidade se traduz na chamada dupla jornada: além do trabalho remunerado, recai sobre elas a maior responsabilidade pelas tarefas domésticas e pelo cuidado, historicamente naturalizado como atribuição feminina.

Esse acúmulo se intensifica no contexto da chamada “geração sanduíche”, fenômeno associado à sobreposição de responsabilidades entre diferentes gerações da família. Essa dinâmica também recai de forma desproporcional sobre as mulheres, acumulando múltiplas responsabilidades e sobrecargas. Nas classes sociais mais altas, essa dinâmica frequentemente se reorganiza por meio da terceirização, especialmente através do trabalho doméstico remunerado e dos serviços voltados a cuidar de crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência. Ainda que inseridas na esfera do trabalho remunerado, essas atividades continuam marcadas pela feminização do cuidado.

Nesse contexto, a promulgação da Lei Complementar nº 150, conhecida como Lei das Domésticas, em 2015, representou um avanço importante ao reconhecer o trabalho doméstico como trabalho formal, garantindo direitos como carteira assinada, jornada definida e acesso a direitos trabalhistas básicos. Ainda assim, esse reconhecimento legal não foi suficiente para romper com a histórica desvalorização de uma das principais atividades do cuidado remunerado.

Esse cenário evidencia como essa agenda está no centro das desigualdades de gênero, classe e raça no Brasil. Cerca de 70% das trabalhadoras domésticas no Brasil são mulheres negras (IPEA/DIEESE). Como destaca a cientista política Joan Tronto, “não é apenas o gênero, mas também o pertencimento de classe e de raça que, na nossa cultura, permite identificar quem pratica o cuidado e de que maneira”.

De modo que a discussão sobre o fim da escala 6×1 soma-se a essa pauta, pois ultrapassa a questão estrita da organização da jornada de trabalho. Ela nos conduz a uma pauta fundamental de justiça social e de trabalho digno, especialmente no que diz respeito às mulheres negras, que concentram as ocupações mais precarizadas e intensivas em trabalho de cuidado. Repensar os modelos de jornada, descanso e valorização do trabalho é, portanto, um passo essencial para enfrentar desigualdades estruturais e avançar na construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

Diante desse cenário, é importante avançar na compreensão de que essas responsabilidades são não apenas uma dimensão da vida privada, mas também um elemento estruturante das dinâmicas sociais e econômicas. É um tema que sustenta a reprodução da vida e o funcionamento da economia, ainda que permaneça historicamente invisibilizado e desvalorizado. Nesse sentido, essa dinâmica se revela como um dos principais eixos de reprodução das desigualdades sociais. Ao demandar tempo, energia e disponibilidade constante, impacta a permanência, progressão e qualidade da inserção das mulheres no mercado de trabalho e reforça ciclos de desigualdade econômica e social.

Ao mesmo tempo, o debate contemporâneo sobre trabalho, incluindo discussões sobre jornada, como no caso da escala 6×1, amplia essa reflexão e evidencia o tempo como recurso central para a qualidade de vida. A forma como o tempo é distribuído entre trabalho remunerado, deslocamento, cuidado e descanso está diretamente relacionada à qualidade de vida e à possibilidade de construção de trajetórias mais equitativas.

2.  Trabalho decente como eixo integrador

O conceito de trabalho decente se consolidou como um dos principais referenciais internacionais para discutir desenvolvimento sustentável, direitos humanos e redução das desigualdades. Apresentado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 1999, o trabalho decente é compreendido como a promoção de oportunidades para que mulheres e homens tenham acesso a um trabalho produtivo e adequadamente remunerado, realizado em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade humana. Está diretamente conectado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, especialmente ao ODS 8, que propõe “promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos”.

Mais do que garantir emprego ou renda, a noção de trabalho decente amplia a compreensão sobre o que significa trabalhar em condições dignas. Segundo a OIT, esse conceito se estrutura em quatro pilares fundamentais:

Na prática, isso significa considerar dimensões diretamente relacionadas à qualidade de vida das pessoas trabalhadoras, como remuneração adequada, jornadas equilibradas, segurança no ambiente laboral, estabilidade, não discriminação, possibilidade de conciliar trabalho e vida pessoal e respeito à dignidade humana. A discussão sobre remuneração digna também integra essa agenda, ao reconhecer que renda insuficiente compromete acesso a direitos, estabilidade e qualidade de vida.

Nesse sentido, a discussão sobre trabalho decente ultrapassa a lógica da geração de postos de trabalho e do cumprimento formal de obrigações legais; passa a considerar a qualidade dessas relações laborais e seus efeitos concretos sobre a vida das pessoas. Essa reflexão ganha ainda mais relevância diante das transformações recentes no mundo do trabalho e da ampliação do debate público sobre jornadas excessivas, saúde mental, equilíbrio entre vida profissional e pessoal e responsabilidades de cuidado. A discussão sobre modelos de jornada, como o debate em torno da escala 6×1 no Brasil, evidencia que tempo, descanso e possibilidade concreta de recuperação física e mental também são elementos fundamentais para a construção de relações de trabalho mais dignas e sustentáveis.

O debate sobre trabalho decente também expõe que essas responsabilidades impactam de forma desigual trabalhadores e trabalhadoras. Em contextos marcados por desigualdade social, gênero e raça, trabalho decente não pode ser reduzido à formalização do vínculo empregatício, mas precisa considerar as condições concretas em que o trabalho é realizado e sustentado. Isso afeta especialmente mulheres, que seguem assumindo de maneira desproporcional o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.

Integrar as agendas de cuidado e trabalho decente significa compreender que condições dignas de trabalho também dependem da possibilidade concreta de conciliar trabalho remunerado, vida familiar e bem-estar. Para as empresas, isso significa reconhecer que condições de trabalho impactam diretamente saúde, permanência, produtividade, segurança psicológica e sustentabilidade das relações laborais.

3.  Política Nacional de Cuidados: por que importa
3.1 Construção da Política Nacional de Cuidados

A partir de 2023, no Brasil, essa organização social, historicamente marcada por desigualdades e sobrecargas, passa a ser reconhecida como um problema público que é objeto de formulação de políticas públicas. A construção da proposta de política foi fruto de um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) com

20 ministérios – composição atipicamente ampla para grupos dessa natureza. A diversidade institucional do GTI já refletia o reconhecimento do caráter intersetorial e interseccional da agenda do cuidado.

Coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e pelo Ministério das Mulheres (MMulheres), o GTI se reuniu ao longo de um ano, apoiado por um intenso processo de participação e escuta social. A missão era construir um diagnóstico da organização social dos cuidados no Brasil e elaborar propostas para uma Política Nacional de Cuidados e para o Plano Nacional de Cuidados, seu principal instrumento implementador.

A Política Nacional de Cuidados, aprovada pela Lei nº 15.069, de dezembro de 2024, reconhece o direito ao cuidado de todas as pessoas, compreendendo o direito a ser cuidado, a cuidar e ao autocuidado. Uma das principais inovações da Política é reconhecer a interdependência entre quem exerce atividades de cuidado e quem delas necessita, propondo a aplicação da chamada “lente dos cuidados”, isto é, considerar simultaneamente as necessidades de ambas as partes no desenho e redesenho de serviços e políticas públicas, independentemente do espaço em que sejam ofertados.

Em sintonia com a discussão internacional sobre o tema, a Lei reconhece que a garantia do direito dessa agenda deve se dar por meio da promoção da corresponsabilização pela provisão de cuidados, entre homens e mulheres, mas também entre famílias, Estado, comunidades e setor privado. Além do cuidado como direito, a Política também o reconhece como necessidade e trabalho, o que se evidencia na definição de seus públicos prioritários. Do lado do cuidado como necessidade, são priorizadas as crianças e adolescentes, com atenção especial à primeira infância, e as pessoas idosas ou com deficiência. O reconhecimento dessas responsabilidades como um trabalho fica evidenciado nos públicos prioritários de trabalhadoras e trabalhadores remunerados e não remunerados, no caso destes, dando visibilidade a um grupo em geral invisibilizado.

A Política Nacional de Cuidados funciona como uma bússola para transformar a organização social dessa agenda no Brasil ao reconhecer como um direito, explicitar desigualdades históricas e promover a responsabilização social e de genero. Apesar do caráter predominantemente principiológico, a Lei nº 15.069/2024 detalha mecanismos de implementação e organização governamental. Prevê que o Poder Executivo federal elabore o Plano Nacional, com ações, metas, indicadores, instrumentos, período de vigência e de revisão. A governança do Plano Nacional deve necessariamente observar a intersetorialidade, a articulação interfederativa, a participação e o controle social.

3.2  Plano Nacional de Cuidados e implementação

A regulamentação do Plano Nacional de Cuidados se deu ao longo de 2025, com dois principais instrumentos normativos:

As ações do Plano estão organizadas em cinco eixos:

Com a aprovação, o MDS regulamentou o processo de adesão de estados e municípios e passou a apoiar a elaboração de diagnósticos e planos locais. Em maio de 2026, mais de 40 estados e municípios já haviam firmado Termos de Adesão. Em dezembro de 2025, foram instauradas as duas instâncias de governança do Plano: o Comitê Estratégico (consultivo e propositivo, com composição paritária entre governo e sociedade civil) e o Comitê Gestor (composto pelos 20 ministérios, focado em gerenciar, articular, monitorar e avaliar as ações).

3.3  Cuidado, empresas e corresponsabilização social

A agenda está diretamente relacionada à promoção dos direitos humanos, à redução das desigualdades e ao desenvolvimento econômico sustentável. O cuidado historicamente foi tratado como uma responsabilidade privada, exercida majoritariamente pelas mulheres e pouco reconhecida. Nesse contexto, a Política Nacional de Cuidados representa um avanço importante ao reconhecer essa responsabilidade como uma questão pública e coletiva, que demanda ações coordenadas entre Estado, empresas e sociedade.

Além de sua dimensão social, essa agenda possui forte impacto econômico. A sobrecarga de trabalho de cuidado não remunerado afeta diretamente a participação de mulheres no mercado de trabalho, limita oportunidades profissionais e aprofunda desigualdades de renda. Políticas e práticas voltadas à organização social do tema contribuem não apenas para a garantia de direitos, mas também para o aumento da produtividade, da inclusão econômica e do desenvolvimento sustentável.

O Estado possui papel central na formulação de políticas públicas, mas as empresas, por sua vez, têm capacidade de promover ambientes de trabalho mais equilibrados e inclusivos, incorporando práticas que favoreçam a conciliação. Já a sociedade civil e organizações coletivas possuem papel estratégico na mobilização e qualificação do debate.

Nesse cenário, o Instituto Ethos vem atuando ao longo deste ano junto à agenda, em parceria com a Secretaria Nacional da Política de Cuidados e Família (SNCF), vinculada ao MDS. A atuação envolve o diálogo com empresas e o apoio à construção de referências voltadas ao setor empresarial, buscando fortalecer o trabalho decente e a equidade.

Fruto dessa parceria, está em elaboração um guia para orientar as empresas na implementação da Política Nacional. O material propõe estratégias e ações concretas, incluindo passo a passo, indicadores práticos, orientações sobre governança interna e ferramentas metodológicas (listas de verificação e fluxogramas), com diferenciação por porte e setor de atuação. Nesse contexto, o Grupo de Trabalho de Empresas e Direitos Humanos do Instituto Ethos atua como espaço de articulação, promovendo troca de experiências e participação empresarial na consolidação da Política Nacional de Cuidados.

4.  Cuidado, trabalho e desigualdades

O trabalho do cuidado é compreendido como o conjunto de atividades necessárias à manutenção da vida e ao bem-estar das pessoas. Engloba tarefas indispensáveis para o funcionamento dos lares, sejam elas materiais (limpar, cozinhar, cuidar de crianças, idosos e pessoas com deficiência) ou imateriais (suporte emocional, atenção contínua).

Apesar de sua centralidade, esse trabalho permanece historicamente invisibilizado e desvalorizado. Relegado à esfera privada e destituído de reconhecimento econômico, não costuma ser contabilizado nas métricas tradicionais de riqueza, embora sustente a reprodução da vida e a própria estrutura produtiva. Longe de ser neutra, a organização social do cuidado está profundamente atravessada por desigualdades estruturais de gênero, raça e classe. Historicamente, essas responsabilidades foram naturalizadas como vocação, obrigação moral ou expressão de afeto feminino, e não como trabalho.

Esse arranjo produz impactos concretos sobre trajetórias profissionais e renda, e se expressa na feminização de determinadas ocupações, na precarização do trabalho doméstico remunerado e na concentração desproporcional de mulheres, especialmente mulheres negras, nas atividades mais precarizadas relacionadas ao cuidado. No contexto brasileiro, pensar essa agenda exige reconhecer como desigualdades de gênero, raça e classe operam de forma articulada, atuando como mecanismo de reprodução da desigualdade racial e econômica. Discutir cuidado significa discutir trabalho decente e justiça social.

4.1  Divisão sexual do trabalho e invisibilização do cuidado

A divisão sexual do trabalho ajuda a compreender como a organização social do cuidado foi historicamente estruturada. Conforme formulam Helena Hirata e Danièle Kergoat (2007), trata-se de uma forma de organização social que direciona prioritariamente os homens à esfera produtiva e as mulheres à esfera reprodutiva, atribuindo maior reconhecimento social, econômico e político às atividades historicamente associadas ao masculino.

Essa lógica se estrutura desde a infância, quando meninas são frequentemente socializadas para o cuidado, enquanto meninos tendem a ser incentivados à autonomia e ao distanciamento das tarefas reprodutivas. Como consequência, essas responsabilidades passam a ser percebidas não como trabalho, mas como demonstração de afeto, o que naturaliza a sobrecarga feminina e dificulta o reconhecimento público do cuidado não remunerado.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mulheres realizam aproximadamente 76% do trabalho de cuidado não remunerado no mundo, dedicando mais do que o triplo do tempo dos homens. No Brasil, os dados da PNAD reforçam esse cenário: as mulheres dedicam quase o dobro do tempo semanal às tarefas domésticas em comparação aos homens. A invisibilização desse trabalho contribui para a manutenção de estruturas desiguais.

4.2  Feminização das profissões e desigualdade econômica

A desigual distribuição do cuidado também se expressa no mercado de trabalho. Profissões associadas ao cuidado, à educação e ao suporte social seguem sendo majoritariamente exercidas por mulheres e apresentam menor reconhecimento econômico. Cerca de 85% dos profissionais da enfermagem no Brasil são mulheres, assim como ocorre na pedagogia (Cofen, 2025; Censo Escolar, 2026), áreas marcadas por menor valorização salarial. Em contraste, setores majoritariamente masculinos, como engenharia civil e tecnologia, apresentam remunerações mais elevadas.

Trabalhos associados ao cuidado permanecem frequentemente tratados como extensões de competências socialmente atribuídas às mulheres, e não como atividades técnicas estratégicas. Além disso, a necessidade de conciliar trabalho remunerado com responsabilidades domésticas afeta a permanência no emprego, progressão de carreira, acesso a cargos de liderança e renda das mulheres. Discutir trabalho decente exige considerar os impactos concretos dessa organização sobre a participação econômica.

4.3  Raça, precarização e trabalho doméstico

As desigualdades tornam-se ainda mais profundas quando atravessadas por raça e classe social. No Brasil, mulheres negras estão desproporcionalmente concentradas tanto nas atividades de cuidado não remuneradas quanto nas formas mais precarizadas de trabalho remunerado. O trabalho doméstico remunerado permanece como uma das ocupações mais vulneráveis do país, historicamente marcado por informalidade e baixos salários.

Conforme estudo do IPEA, cerca de 70% da força de trabalho doméstico remunerado é composta por mulheres negras, evidenciando a permanência da racialização e da precarização. O Brasil é o país com o maior contingente de trabalhadoras domésticas do mundo. A histórica transferência do trabalho doméstico das mulheres brancas de classes médias e altas para mulheres negras evidencia como a organização social atua na reprodução do racismo. Essa sobrecarga também impacta trajetórias educacionais, com dados mostrando que meninas negras frequentemente deixam os estudos para assumir tarefas domésticas na própria família.

4.4  Saúde mental e sobrecarga do cuidado

Os impactos também se manifestam na saúde física e emocional das trabalhadoras. A combinação entre responsabilidades domésticas, exigências profissionais, insegurança econômica e ausência de redes de apoio produz efeitos concretos. As mulheres aparecem de forma desproporcional entre aqueles mais afetados pela conciliação desigual entre vida remunerada e responsabilidades familiares.

Esse cenário evidencia impactos subjetivos importantes sobre experiências de exaustão, sobrecarga e desgaste emocional. Discutir essa agenda significa reconhecer que o cuidado é estruturante para as relações econômicas e que sua distribuição desigual aprofunda vulnerabilidades, reforçando a necessidade de corresponsabilização entre Estado, empresas e sociedade.

5.  Jornada de trabalho e qualidade de vida

As transformações recentes no mundo do trabalho ampliaram significativamente o debate sobre jornada, tempo, qualidade de vida e saúde mental. Desde a pandemia, a experiência de reorganização das rotinas e a ampliação de discussões sobre equilíbrio entre vida profissional e pessoal intensificaram essas reflexões. Em grandes centros urbanos brasileiros, jornadas extensas associadas a longos deslocamentos reduzem significativamente o tempo disponível para descanso, lazer e autocuidado. A forma como o tempo é distribuído não é apenas uma questão de carga horária formal, mas de intersecção com a busca por dignidade.

A relação entre extensão da jornada, bem-estar e produtividade vem sendo progressivamente repensada. Modelos excessivamente exaustivos tendem a produzir custos indiretos relevantes para organizações, como adoecimento, absenteísmo, rotatividade e desengajamento. Por outro lado, jornadas equilibradas contribuem para ambientes mais saudáveis e sustentáveis. Discutir jornada de trabalho ultrapassa a organização formal das horas; trata-se de saúde, trabalho decente e distribuição social do tempo.

5.1  Transformações no mundo do trabalho e uso do tempo

A expansão de modelos híbridos e remotos intensificou o debate sobre o tempo livre. Tornou-se evidente que o debate não pode se restringir exclusivamente à produtividade. A forma como o tempo é distribuído impacta diretamente no bem-estar. A realidade dos grandes centros urbanos afeta de forma ainda mais intensa pessoas que acumulam responsabilidades de cuidado, aprofundando desigualdades no uso do tempo. A gestão da rotina se conecta diretamente às estruturas sociais e às formas contemporâneas de organização do trabalho.

5.2  Escala 6×1, saúde mental e trabalho decente

A sociedade brasileira passou a questionar de forma contundente modelos de jornada considerados excessivamente desgastantes, como a escala 6×1 (seis dias consecutivos de trabalho para um de descanso). O debate envolve impactos econômicos e organizacionais, mas evidencia discussões mais amplas sobre saúde mental. Enquanto trabalhadores reivindicam melhores condições, setores do mercado manifestam preocupações com custos e competitividade, criando o desafio de conciliar sustentabilidade econômica e condições dignas de trabalho.

A ampliação dos debates sobre burnout, estresse crônico e adoecimento mental contribuiu para questionar modelos de produtividade baseados em jornadas extensas. Contextos marcados por ausência de recuperação impactam negativamente o engajamento e a segurança psicológica. Nesse sentido, o debate envolve condições concretas para que se possa exercer as atividades com saúde e possibilidade real de descanso.

Diferentes experiências (como em Islândia, Reino Unido, Espanha e Japão) demonstram que modelos de jornada mais equilibrados ou reduzidos podem estar associados à melhoria do bem-estar, redução do adoecimento e aumento da satisfação. Muitas empresas relataram ganhos relacionados à produtividade qualitativa e retenção de talentos, uma vez que trabalhadores menos exaustos apresentam maior capacidade de concentração e criatividade.

A discussão precisa considerar as desigualdades do contexto brasileiro, onde deslocamentos extensos (como em São Paulo) reduzem o tempo livre. Sob a perspectiva empresarial, reconhecer essa realidade é ver que a sustentabilidade das organizações depende das relações humanas que sustentam o trabalho. Organizações que investem em ambientes saudáveis e flexíveis tendem a construir culturas mais inovadoras e resilientes, conectando-se diretamente à agenda ESG e à responsabilidade social corporativa. Assim, descanso e tempo livre não são obstáculos à produtividade, mas elementos fundamentais para o trabalho decente.

5.3  Jornada, cuidado e corresponsabilização

A discussão sobre jornada também está relacionada ao direito ao cuidado e autocuidado. Quando o tempo é consumido integralmente pelo trabalho e deslocamentos, reduz-se a convivência familiar e o acompanhamento de crianças e pessoas idosas. Em contextos de desigualdade de gênero, raça e renda, a escassez de tempo produz efeitos mais profundos sobre as mulheres. Discutir qualidade de vida exige debater a distribuição social do tempo e a corresponsabilização, reconhecendo que a jornada se conecta a uma agenda mais ampla de sustentação da vida.

6.  O papel das empresas e boas prática
6.1 Fiotec

A incorporação da agenda exige das empresas uma abordagem estruturada e transversal. A responsabilidade empresarial ultrapassa o cumprimento legal, demandando políticas que enfrentem desigualdades e promovam ambientes mais equitativos. Isso se expressa na institucionalização de políticas de diversidade, equidade e inclusão, com mecanismos de garantia de isonomia em processos seletivos e progressão na carreira. É essencial também o letramento organizacional sobre racismo e prevenção de assédio, além de ações formativas (rodas de conversa, comitês) para construir uma cultura de respeito.

Outro eixo fundamental são as políticas de suporte ao trabalhador, como a ampliação de licenças parentais, flexibilização de jornadas e apoio psicossocial.

Isso evidencia que o cuidado é atravessado por contextos sociais diversos. Espaços de escuta, como grupos de afinidade, são centrais para reconhecer demandas específicas. Ao integrar a gestão de pessoas com a responsabilidade social, as organizações atuam como agentes de transformação.

Um exemplo prático no Brasil é a Fiotec (Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde), que estrutura programas de diversidade valorizando marcadores como gênero e raça. A instituição incentiva grupos de afinidade e promove iniciativas de prevenção de assédio. No campo do cuidado, a Fiotec destaca-se por práticas de apoio à saúde mental, mantendo uma brigada de saúde mental com colaboradores capacitados para oferecer acolhimento emocional e assistência social.

6.2  Firjan

A atuação da Firjan parte do entendimento de que a agenda de cuidados é um eixo estratégico para enfrentar as desigualdades estruturais de gênero e raça. O programa Firjan Saudável articula ações de apoio à parentalidade, saúde mental e escuta. A instituição mantém salas de apoio ao aleitamento materno e ações de acompanhamento de gestantes. Também possui ações para cuidadores atípicos (pessoas com deficiência ou neurodivergentes), como grupos de escuta, flexibilização de jornada e trabalho remoto.

O Firjan Saudável engloba campanhas de vacinação, incentivo à atividade física e workshops. Promove espaços de diálogo sobre masculinidades, saúde mental e acolhimento psicossocial, fortalecendo ambientes organizacionais mais saudáveis e provando que o cuidado pode ser articulado à redução das desigualdades.

7.  Considerações finais

A discussão sobre cuidado, trabalho decente e qualidade de vida evidencia que as desigualdades não podem ser compreendidas de forma isolada. Esse trabalho sustenta a reprodução da vida, mas permanece invisibilizado e desigualmente distribuído. Ao longo do artigo, demonstrou-se como essa organização impacta a participação das mulheres, a saúde mental e o acesso a oportunidades, exigindo olhar além da formalização do emprego para focar no equilíbrio, na saúde e na segurança psicológica.

A Política Nacional representa um marco ao reconhecer o cuidado como responsabilidade compartilhada entre Estado, empresas, famílias e sociedade. O setor empresarial tem capacidade de induzir transformações culturais relevantes. Incorporar essa agenda fortalece ambientes sustentáveis e contribui para a retenção de talentos. No entanto, desafios como a persistência de jornadas exaustivas e da sobrecarga feminina indicam um longo caminho pela frente, demandando compromisso contínuo.

O fortalecimento da Política Nacional, as agendas ESG e as práticas humanas criam oportunidades para novos modelos de desenvolvimento. Ampliar o engajamento de empresas e sociedade é fundamental. O cuidado deve ser compreendido como elemento central para a sustentabilidade da vida e condição indispensável para construir uma sociedade mais justa e democrática. O GT de Empresas e Direitos Humanos do Instituto Ethos reafirma seu compromisso de fortalecer esse diálogo e a mobilização empresarial em prol dos direitos humanos.

Este artigo foi construído de forma colaborativa no âmbito do Grupo de Trabalho de Empresas e Direitos Humanos do Instituto Ethos, como resultado do diálogo, da troca de experiências e da construção conjunta entre o Instituto Ethos e empresas participantes do GT.

A elaboração deste conteúdo contou com a participação de:

O artigo também contou com revisão técnica da ECOS, consultoria parceira do Grupo de Trabalho de Empresas e Direitos Humanos do Instituto Ethos, contribuindo para a qualificação e consolidação do conteúdo.