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A atualidade do ecodesenvolvimento

03/06/2013

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“Deveríamos incluir explicitamente na definição do desenvolvimento a dimensão ecológica, subsumida no prefixo ‘eco’”, diz Ignacy Sachs.

Por Ignacy Sachs*

Acabo de consultar a edição eletrônica do dicionário francês Grand Robert e dei uma espiada no Novo Aurélio – Século XXI (5ª impressão, 1999). Nenhum dos dois menciona o termo “ecodesenvolvimento”, neologismo relativamente recente, que surgiu à margem da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente reunida em Estocolmo, em 1972.

Penso que este neologismo se justifica pelo fato de que, mais do que em qualquer outro momento da já longa presença da nossa espécie no planeta Terra, deveríamos incluir explicitamente na definição do desenvolvimento a dimensão ecológica subsumida no prefixo eco”. Isto em vista do perigo que representam para o futuro das civilizações humanas mudanças climáticas deletérias devidas ao aquecimento global provocado por emissões excessivas de gás carbônico de origem antropogênica.

Convém, portanto, pensar o desenvolvimento como um conceito tridimensional. Seus objetivos são sempre éticos e sociais. No entanto, para que sejam alcançados, é necessário dar-lhes viabilidade econômica, precavendo-se ainda, como já foi dito, contra mudanças climáticas deletérias, pelo menos as provocadas por ações humanas que estão, portanto, sob nossa responsabilidade.

Acredito que o termo “ecodesenvolvimento” merece, portanto, um lugar permanente no nosso vocabulário como sinônimo e abreviação do desenvolvimento socialmente includente e ambientalmente sustentável. Constitui um passo para a frente, na medida em que adiciona explicitamente a dimensão ecológica ao social e ao econômico.

A quarta dimensão, subentendida, é a política, já que a gestão da economia implica necessariamente decisões de caráter político. Vale a pena lembrar a este respeito que, nas línguas de origem latina, damos preferência ao termo “economia política” em oposição ao anglo-saxão “economics”.

O ecodesenvolvimento se contrapõe ainda a diferentes formas de mau desenvolvimento: crescimento econômico acompanhado de impactos sociais e ambientais negativos. De uma maneira geral, deixando de lado as situações de não crescimento econômico (e, portanto, de regressão em termos per capita enquanto a população continua a crescer), podemos distinguir os dois casos-limite:

  • crescimento econômico virtuoso acompanhado de impactos sociais e ambientais positivos (o ecodesenvolvimento);
  • crescimento econômico com impactos sociais e ambientais negativos – o mau desenvolvimento, que alguns preferem chamar de crescimento perverso.

Entre os dois, figuram os casos intermediários. Durante as três décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, tivemos, em vários países, um crescimento econômico rápido, com consequências sociais globalmente positivas, ainda que fortemente diferenciadas, mas com um custo ambiental excessivamente alto.

Tampouco podemos excluir configurações caracterizadas por impactos ambientais sob controle, porém acompanhadas de polarização social excessiva, deixando à margem do progresso grupos populacionais importantes – camponeses sem terra, favelados e todos aqueles que, por falta de conhecimento e de sorte não conseguem inserir-se na economia moderna e são obrigados a lutar pela sobrevivência em condições precárias.

Olhando para o futuro, convém reservar o termo “desenvolvimento includente e sustentável” unicamente a situações com a presença simultânea das três características seguintes:

  • crescimento econômico por enquanto superior à taxa de crescimento demográfico, lembrando que esta última tende felizmente a se reduzir, graças aos progressos da educação e das políticas sociais; e considerando, por outro lado, que a passagem à economia estacionária só será factível depois de termos drasticamente reduzido as diferenças abissais de nível de vida que ainda imperam no mundo de hoje;
  • impactos sociais positivos graças à geração de oportunidades de trabalho decente em número suficiente e à existência de um conjunto de políticas sociais abrangendo a totalidade da população; não podemos por enquanto abrir mão do conceito de pleno emprego, nem tentar lográ-lo unicamente pela redução do tempo de trabalho dos já empregados;
  • redução de impactos ambientais negativos, mitigados por políticas ambientais dos Estados desenvolvimentistas, com destaque para a geração da energia, já que o aquecimento global está vinculado à utilização das energias fósseis.

A transição para o ecodesenvolvimento está ao nosso alcance. Por que não encarregar as Nações Unidas da formulação de um plano mundial de desenvolvimento includente e sustentável?

*O ecossocioeconomista Ignacy Sachs é professor emérito da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris, França.

Artigo publicado originalmente na revista Rumos, edição de janeiro-fevereiro de 2013.

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