ETHOS MEIO AMBIENTE

A crise climática em seis tempos na Conferência Ethos do Rio


10/07/2019

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Evento abordou diferentes olhares sobre os impactos da mudança do clima

Quando o assunto é mudança do clima muitas são as questões a serem consideradas. De forma a dialogar amplamente sobre o tema, diferentes painéis da Conferência Ethos 360º no Rio de Janeiro proporcionam uma visão sobre os pontos chave para o que os especialistas vêm chamando de crise climática. “O 360º da Conferência Ethos não é apenas porque há painéis sendo realizados simultaneamente, mas sim pela abrangência dos temas que não se reduzem a diálogos sobre apenas uma questão”, disse o superintendente de Inovação & Desenvolvimento Institucional da Fundação Amazonas Sustentável, Victor Salviati.

O lançamento

Afirmando o pioneirismo do Brasil na agenda climática: o projeto Conferência Brasileira de Mudança do Clima e as oportunidades para o país manter sua competitividade na agenda de clima e florestas foi o primeiro painel a abordar a questão climática e trouxe a boa nova sobre a realização do evento, que irá acontecer nos dias 16, 17 e 18 de outubro, em Recife.

“A medida em que temos um governo que está abrindo mão dos compromissos, anteriormente assumidos, em esfera internacional entendemos que não podemos depender do governo”, explicou Maurício Voivodic, diretor-executivo do WWF Brasil. Que completou: “a gente está num momento em que não dá para esperar, precisamos agir rapidamente. Isso, não se resume aos governos federais, estes têm que ter um papel fundamental, mas a solução é compartilhada. Para tanto é preciso diálogo e ação. Diversos segmentos da sociedade precisam falar sobre mudança do clima. E, a segunda questão, a ação, o setor empresarial e financeiro devem considerar a importância da situação climática para seus negócios, para o todo, e agir. Inclusive definindo metas de emissão. Por isso, considero importantíssima a Conferência Brasileira de Mudança do Clima, em que os diversos atores poderão apresentar o que estão fazendo e se comprometer com a agenda”, avaliou.

Victor Salviati, superintendente de Inovação & Desenvolvimento Institucional da Fundação Amazonas Sustentável clamou por mais atenção a agenda do clima. “Participei de uma palestra na qual o interlocutor disse: ‘estamos vivendo a síndrome do Titanic, o navio está afundando enquanto tomamos vinho’. Isso acontece por minha causa também, pois esse assunto não está passando no Jornal Nacional e quando falamos sobre a questão do clima usamos apenas siglas que a sociedade não entende. Para não sofrer dessa patologia do Titanic precisamos fortalecer nossas redes e reforçar o diálogo”, pontuou.

Ane Alencar, diretora de ciência do IPAM, considerou a relevância do evento frente ao atual cenário. “Estamos vivendo um processo de retrocesso muito grande quanto a manutenção de nosso patrimônio”, disse. E, Luiz Xavier, coordenador do GT de Energia e Clima da Rede Brasil do Pacto Global e coordenador de Desenvolvimento Sustentável da Braskem compartilhou atividades as quais está envolvido. “O Pacto Global tem atuado para identificar indicadores e metas até 2030 sobre o entendimento do papel empresarial, sobretudo quanto a precificação de carbono”, explicou.

Os desafios 

Paulo Artaxo, professor titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP e membro do IPCC e Ricardo Abramovay, professor titular do Departamento de Economia da FEA foram os palestrantes do diálogo A ciência das mudanças climáticas e seus desafios na implementação de agendas de mitigação e adaptação climática.

Artaxo foi categórico: “já estamos em franco acontecimento dos eventos de mudança do clima, o que não nos surpreende, mas acredito que ainda falamos pouco sobre a perda de produtividade agrícola causados pela crise climática. Podemos reverter? Sim, mas precisamos agir o mais rápido possível. O setor energético precisa ser descarbonizado. E, sabemos que essa não será uma tarefa fácil”. O professor disse ainda que “temos um problema gigantesco de governança global” e que esse é justamente o ponto onde “estamos falhando mais”.

Abramovay abordou o papel das empresas nesse contexto. “A mitigação de riscos é uma responsabilidade que cabe também ao empresariado, em conversar com os setores militares, inclusive os que estão dentro do planalto, sobre o olhar errado quanto as organizações que atuam em defesa da Amazônia. É um absurdo que ainda hoje há pessoas que acreditem que o ativismo na Amazônia sirva para enfraquecer a atuação do país e beneficiar a internacionalização do local”, analisou.

Outro risco apontado por Abramovay foi quanto ao negacionismo que, segundo ele, está ligado à mídia. “Busque aquecimento global no YouTube e encontrará não o Paulo Artaxo, que é especialista, mas sim outro professor falando sobre a questão e na sequência um negacionista. Temos que conversar com o Google para mudar isso. A entrevista com o negacionista que mais aparece no YouTube é de alguém que nunca escreveu uma linha sobre a temática, e não do Paulo, que é reconhecido neste assunto”, criticou.

Uma observação interessante trazida pelo professor titular do Departamento de Economia da FEA foi com relação a proposta de Carlos Nobre e Ismael Nobre quanto a formação de laboratórios de inovação na Amazônia. “Eles (Carlos e Ismael) acreditam que nosso foco deve estar no conhecimento da natureza, com uso sustentável da biodiversidade. Nosso potencial nesse sentido é riquíssimo. Não se trata de substituir a natureza por atividades econômicas já conhecidas, mas também de descentralizar o conhecimento, implementando pequenos laboratórios”, explicou Abramovay.

Os compromissos

O painel viabilizado pela WayCarbon, Estados e cidades brasileiras e a liderança política na pauta climática – compromissos e ações conjuntas, contou com representantes governamentais apresentando ações em prol da agenda do clima.

A vice-governadora do Estado de Pernambuco, Luciana Santos, ressaltou o momento que vivemos quanto a situação do clima e reforçou a importância do Brasil manter os compromissos assumidos. “Nós temos potencial e vocação para atingirmos as metas que o Brasil se propôs. Devemos assumir uma luta política para não abandonar os compromissos que assumimos. O Brasil não pode se esquivar de participar ativamente desse caminho”, acredita a vice-governadora.

Thais Kasecker, superintendente de mudanças do clima da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro, endossou a fala de Luciana: “o Estado tem o papel de se reconhecer como um ente federativo importante para cumprirmos as metas da NDC. Além disso, tem um potencial muito importante, sobretudo através de medidas em reconhecimento a natureza”.

A essas reflexões, Sérgio Margulis, pesquisador Sênior Associado da WayCarbon e do International Institute for Sustainability atribui a atual postura do governo federal. “Temos um governo que acha que a questão do clima é um plano comunista. As pessoas só não estão enlouquecidas ainda porque não estão olhando com atenção para o problema. Estamos diante de uma hecatombe mundial”, prevê o pesquisador.

Para Thais Kasecker, quanto aos riscos que envolvem a situação “é importante trazer a questão da segurança alimentar para esse diálogo. A produção do estado do Rio de Janeiro só atende a 1/3 da demanda do estado. Então como garantir a segurança alimentar num cenário de aquecimento global?”.

No que se refere a experiências adquiridas em iniciativas anteriormente implementadas, a superintendente de mudanças do clima contou sobre um plano com metas para redução de emissões de gases de efeito estufa adotado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro que não obteve êxito, pelo contrário, resultou num aumento de 40%. “Tivemos uma política pública estabelecida e por que não deu certo? Porque perpassa por outras questões, como o engajamento da sociedade”, avalia.

Nesse sentido, Josilene Ferrer, do Programa Estadual de Mudanças Climáticas do Estado de São Paulo (PROCLIMA) apresentou que, seguido o objetivo de “gerar base técnica para entender as emissões de gases de efeito estufa”, o programa tem caminhado com a “proposta de capacitar a área corporativa, afim de desenvolver inventários de emissões”.

A capacidade competitiva 

Unir uma especialista em Direito Ambiental e o diretor de uma associação do agronegócio resultou em uma análise sobre pontos de vista que culminaram no reconhecimento quanto ao papel da sustentabilidade.

O painel Insegurança jurídica e mudanças climáticas: como poderão agravar crises e recessões e modificar a capacidade competitiva do Brasil, contou com Luiz Cornacchioni, diretor executivo da Associação Brasileira do Agronegócio, e Danielle Moreira, professora agregada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e coordenadora acadêmica do curso de Especialização em Direito Ambiental da PUC-Rio.

As explanações de ambos explicitaram o entendimento das leis ambientais de forma a assegurar a capacidade competitiva do Brasil. “Quando se muda a lei por medida provisória é como ganhar o jogo no tapetão e não é legal. Sobretudo, a questão da sustentabilidade é uma variável que devemos manter na equação”, disse Cornacchioni. E, Moreira destacou que “a defesa do meio ambiente deve ser vista não como um entrave, algo a ser rechaçado, mas sim reconhecer que é necessária para a sustentabilidade e garantia para o desenvolvimento econômico brasileiro”.

O planejamento das cidades

Foi a anfitriã da Conferência Ethos 360º no Rio de Janeiro, desta edição de 2019, a SulAmérica, que ofereceu o diálogo Eventos climáticos extremos e o planejamento das cidades, uma importante discussão frente as fortes chuvas que já tem acometido cidades brasileiras como o Rio de Janeiro.

​​“É preciso ter planos estratégicos, mas há uma parte pragmática para que tudo seja implementado e as cidades são parte importante nessa questão”, é a análise de Marcelo André Cid Heráclito do Porto Queiroz, secretário municipal de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro​.

Já, Fernanda Candeias Guimarães, gerente de desenvolvimento Social da Ternium Brasil, relatou a experiência da empresa junto à comunidade em um episódio causado pelos extremos climáticos. “Aprendemos, num procedimento de catástrofe, importantes lições. Monitoramento, canal direto com funcionários, parcerias locais e um plano de atuação em 48 horas fazem parte dos ensinamentos obtidos. Ter uma política para o enfrentamento de catástrofes fez muita diferença não só para os funcionários, mas também para a comunidade de Santa Cruz”, explicou.

Por sua vez, o Promotor de Justiça do Rio de Janeiro, Vinícius Lameira Bernardo, observou a questão sob o prisma da legalidade. “O poder judiciário pode ter o papel de racionalizar o debate sobre a questão climática. Uma primeira demanda pode ser quanto aos instrumentos de legislação urbanística”.

A questão legal

A questão legal também foi uma das abordagens da temática de clima, na primeira Conferência Ethos 360º do ano. Justiça climática e o bem-estar comum: como a distribuição de poder e a democracia participativa criam comunidades que decidem sobre seus próprios futuros foi o nome dado ao painel que recebeu Maureen Santos, coordenadora de Programas e Projetos de Justiça Socioambiental da Fundação Heinrich Böll no Brasil e coordenadora da Plataforma Socioambiental do Brics Policy Center; Ana Maria de Oliveira Nusdeo, professora da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e diretora de biodiversidade do Instituto O Direito por um Planeta Verde; e Adriana Ramos, coordenadora de Política e Direito do Instituto Socioambiental – ISA.

A visão de Maureen é que “frente a crise civilizatória que estamos vivendo, a justiça climática surge como uma rota alternativa”.

Retomando o que já tinha sido apresentado em outros painéis, Ana Maria exaltou a importância do diálogo num evento como a Conferência Ethos, que reúne empresas. “Para a própria democracia e tudo que ela representa é importante um movimento como esse, de participação do setor empresarial”, ponderou.

Enfática, Adriana Ramos pontuou que “a maior injustiça social atualmente é o negacionismo, pois tenta incluir os povos indígenas nas mesmas condições que os demais”. A coordenadora do ISA concluiu dizendo que: “é triste ver que todas as ações são pensadas sob a perspectiva do desmonte”.

Por: Rejane Romano, do Instituto Ethos

Foto: André Luiz Mello

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