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A indústria de cosméticos e a sustentabilidade da cadeia produtiva

24/07/2013

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Acordos construídos coletivamente incluem preço justo e requisitos como prazos, volumes, qualidade e processamento que respeitem o modo de vida tradicional.

Por Patrícia Cota Gomes*

A preocupação com as cadeias produtivas nas indústrias de cosméticos, incluindo a sustentabilidade na produção de ingredientes da biodiversidade, o respeito às comunidades produtoras, o comércio ético e a importância de processos garantidos por sistemas reconhecidos de certificações e verificações, foi um dos destaques da In-Cosmetics 2013, feira internacional que aconteceu em Paris, na França.

O evento é um dos mais importantes do setor e reuniu cerca de 600 empresas fornecedoras de matérias-primas e ingredientes para as indústrias de beleza, higiene e cuidados pessoais, de mais de 40 países. Entre os destaques estava a garantia de origem dos ingredientes, valorizando regiões produtoras e seus fornecedores, como o Taiti, os Andes, Marrocos, Madagascar, o Pacífico e, claro, a Amazônia.

Ao observar mais atentamente o setor, fica claro o potencial que ele tem de demandar cada vez mais ingredientes da biodiversidade e, consequentemente, de influenciar positiva ou negativamente a conservação dos recursos naturais e uma comercialização pautada em princípios éticos, principalmente das matérias-primas provenientes de comunidades tradicionais, pequenos produtores e povos indígenas, como acontece em grande parte da Amazônia brasileira.

É reconhecido, inclusive no meio acadêmico, o relevante papel dessas comunidades tradicionais, que conseguem há gerações conciliar a conservação de seus territórios e florestas com a coleta desses recursos, que são repassados de pais para filhos. Isso constitui a base para a manutenção dos meios de vida e cultura dessas populações.

Contudo, sabe-se também que a maioria desses produtos, demandada pelo setor de cosmético, dentre outros, ainda é comercializada, em grande parte, de forma extremamente informal. Em geral, as negociações são realizadas por atravessadores, que oferecem baixíssima remuneração pelos produtos, gerando pouco ou nenhum benefício social e econômico para essas populações.

Experiências diferenciadas de comercialização vêm sendo medidas, na região da Terra do Meio e da Calha Norte paraense, pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e parceiros locais, mostrando que o setor tem buscado formas inovadoras de relacionamento com esse público.

A relação diferenciada inclui a aproximação e a negociação direta das empresas com as comunidades, balanceada pela presença de instituições da sociedade civil nos processos de negociação, gerando acordos construídos coletivamente, que incluem o estabelecimento de preço justo e de requisitos como prazos, volumes, qualidade e processamento que respeitem o modo de vida tradicional.

Os resultados têm sido contratos cumpridos, geração direta de benefícios econômicos e sociais, transferência de tecnologias, garantia de fornecimento e origem e contribuição com a conservação dos territórios e florestas.

A preocupação com uma cadeia de fornecimento mais ética parece ser uma tendência não somente do setor de cosméticos, que consome ingredientes naturais, mas também do consumidor, inclusive o brasileiro.

Num estudo lançado recentemente pela União para o Biocomércio Ético (UEBT), que avalia o conhecimento sobre a biodiversidade ao redor do mundo, 84% dos consumidores afirmaram que deixariam de comprar produtos da indústria de beleza se soubessem que as empresas não adotam boas práticas ambientais e éticas.

O Brasil aparece também em destaque na pesquisa sobre conhecimento da biodiversidade, como sendo o país onde os consumidores detêm o maior conhecimento sobre o conceito de biodiversidade (96%), seguido pela França (95%) e China (94%).

Os consumidores se modificaram nos últimos anos, estão mais exigentes e preocupados com qualidade, ética e impacto ambiental.

E as empresas serão cada vez mais cobradas e terão de se preparar para demonstrar, de forma transparente, seus processos produtivos.

* Engenheira florestal e mestre em manejo florestal, Patrícia Cota Gomes é coordenadora do Imaflora.

Artigo publicado originalmente pela Folha de S.Paulo, em 13 de maio de 2013.

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Este texto faz parte da série de artigos de especialistas promovida pela área de Gestão Sustentável do Instituto Ethos, cujo objetivo é subsidiar e estimular as boas práticas de gestão.

Veja também:
– A promoção da igualdade racial pelas empresas, de Reinaldo Bulgarelli;
– Relacionamento com partes interessadas, de Regi Magalhães;
– Usar o poder dos negócios para resolver problemas socioambientais, de Ricardo Abramovay;
– As empresas e o combate à corrupção, de Henrique Lian;
– Incorporação dos princípios da responsabilidade social, de Vivian Smith;
– O princípio da transparência no contexto da governança corporativa, de Lélio Lauretti;
– Empresas e comunidades rumo ao futuro, de Cláudio Boechat;
– O capital natural, de Roberto Strumpf;
– Luzes da ribalta: a lenta evolução para a transparência financeira, de Ladislau Dowbor;
– Painel de stakeholders: uma abordagem de engajamento versátil e estruturada, de Antônio Carlos Carneiro de Albuquerque e Cyrille Bellier;
– Como nasce a ética?, de Leonardo Boff;
– As empresas e o desafio do combate ao trabalho escravo, de Juliana Gomes Ramalho Monteiro e Mariana de Castro Abreu;
– Equidade de gênero nas empresas: por uma economia mais inteligente e por direito, de Camila Morsch;
– PL n° 6.826/10 pode alterar cenário de combate à corrupção no Brasil, de Bruno Maeda e Carlos Ayres;
– Engajamento: o caminho para relações do trabalho sustentáveis, de Marcelo Lomelino;
– Sustentabilidade na cadeia de valor, de Cristina Fedato;
– Métodos para integrar a responsabilidade social na gestão, de Jorge Emanuel Reis Cajazeira e José Carlos Barbieri;
– Generosidade: o quarto elemento do triple bottom line, de Rogério Ruschel;
– O que mudou na sustentabilidade das empresas, de Dal Marcondes;
Responsabilidade social empresarial e sustentabilidade para a gestão empresarial, de Fernanda Gabriela Borger;
Os Dez Mandamentos da empresa responsável, de Rogério Ruschel;
O RH como alavanca da estratégia sustentável, de Aileen Ionescu-Somers;
Marcas globais avançam na gestão de resíduos sólidos, de Ricardo Abramovay; e
Equidade e certificação, de Luís Fernando Guedes Pinto.

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