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Ainda temos inovação ou vivemos uma “saturação criativa”?

06/03/2013

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Estamos vivendo uma época em que ainda temos inovação a realizar ou tudo está se tornando apenas uma releitura, sem nada de muito inovador?

Por Jorge Abrahão*

Uma pergunta pode estar na cabeça do leitor: o que quer dizer inovação? Inovação é investir em recursos que gerem novos meios de trabalhar e obter produtos e processos que representem ganhos para a sociedade, para o meio ambiente e para a competitividade da empresa. É ela sair da mesmice e se reinventar, minimizando problemas anteriores e impactos que suas atividades possam gerar.

Mas por que a inovação é tão importante? E por que países e empresas, especialmente os mais ricos, investem somas crescentes para desenvolver o potencial inovador?

O principal motivo é que os processos inovadores, expressos em novos produtos, processos e patentes, têm relação direta com o desenvolvimento econômico, a geração de emprego e renda e o aumento da competitividade, fator essencial para o progresso das empresas e das economias nacionais.

Mas aí nos vem outro questionamento: estamos vivendo uma época em que ainda temos inovação a realizar ou tudo está se tornando uma releitura, sem nada de muito inovador?

A edição de janeiro da revista The Economist traz à tona justamente esse questionamento. Com o humor característico da publicação, a capa traz uma montagem gráfica com a imagem do famoso O Pensador, de Rodin, sentado em um vaso sanitário e se perguntando: “Será que vamos inventar algo tão útil assim novamente?”.

De fato, o vaso sanitário foi uma grande inovação, que veio para resolver problemas graves de saneamento básico e representou significativos avanços em saúde pública para a sociedade e também para a higiene pessoal e doméstica. O vaso sanitário foi inventado no século XVI por um poeta inglês, John Harrington. No século XVIII, outro inglês adicionou ao vaso a descarga hídrica, completando o invento, que permanece indispensável para a sociedade até hoje. Historiadores apontam para o fato de que a degradação ambiental trazida pela industrialização só não foi maior por conta dessa invenção, que inclusive estimulou as cidades a investir nos complexos sistemas de esgotos.

A revista britânica questiona, justamente, se alguma invenção recente poderá manter-se útil e inovadora por tanto tempo. E qual a finalidade de tantos milhões de dólares jogados em inovações que não resolvem os problemas básicos da humanidade.

O que observamos hoje é que a inovação é direcionada não mais para atender as demandas da sociedade, mas para ampliar lucro do capital. Por exemplo, a questão do carro. Em vez de pensar em alternativas para o carro, inventamos motores mais potentes. Em vez de pensar em soluções específicas e eficazes para a mobilidade e acessibilidade urbanas, inventamos carros menores ou que consomem menos combustível. Mas não se pensa em alternativa ao transporte individual, a verdadeira inovação de que os centros urbanos estão precisando.

Se pararmos bem para pensar, veremos que a inovação, dentro dos paradigmas da civilização tal qual a conhecemos, está no limite, como a própria civilização.

A inovação tem sido destacada como a grande força propulsora e renovadora das empresas e da própria sociedade. Se a força criadora que o ser humano tem for direcionada para atender as demandas de uma nova civilização, baseada no desenvolvimento sustentável, vamos superar os desafios que temos pela frente.

Nesse sentido, é importante a sociedade brasileira prestar mais atenção nas verbas públicas destinadas a pesquisa e desenvolvimento.

Buscar a competitividade pela sustentabilidade

A presidenta Dilma Rousseff está para aprovar um programa de R$ 27,5 bilhões para financiamento à inovação em setores estratégicos da economia. A intenção é que o programa atinja as áreas de petróleo, gás, etanol, energias renováveis, defesa, aeroespacial, saúde, tecnologia da informação e comunicação.

Grande parte dos recursos desse novo investimento virá do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), pelo qual o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financia a aquisição de máquinas e equipamentos. Com esse investimento, espera-se que a indústria ganhe novo fôlego e aumente a produtividade, pois nos últimos anos a produtividade evoluiu muito aquém do que se previa e gerou um descasamento insustentável para a competitividade da economia brasileira.

Hoje, o Brasil investe 1,4% do PIB em pesquisa e tecnologia da inovação. É o país da América Latina que mais investe em inovação, ciência e tecnologia e figura também entre os dez que mais investem no mundo.

Mesmo assim, todos os outros países emergentes que formam os Brics (Rússia, Índia, China e África do Sul) investem mais em pesquisa e inovação do que o nosso país.

Segundo a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência brasileira da inovação, isso ocorre porque a maioria dos pesquisadores brasileiros está nas universidades, e não nas empresas. Em outros países, as empresas são as responsáveis por traduzir os avanços tecnológicos em produtos e serviços para a sociedade.

No Brasil, a falta de iniciativa empresarial para investimento em inovação tecnológica pode ser observada por vários indicadores. Um deles: elas praticamente não contratam mestres ou doutores. Esses profissionais, que estariam prontos para pesquisar e inovar, estão, na grande maioria, nas universidades (que concentram a produção científica nacional) ou na administração pública. Nos Estados Unidos, por exemplo, 79% dos pesquisadores estão nas empresas, 14,8% nas universidades e 3,6% no governo.

De acordo com a Finep, entre 7.000 e 10.000 empresas respondem pelo total do investimento privado brasileiro em pesquisa e desenvolvimento, equivalente a cerca de 0,5% do PIB. Delas, entre 600 e 700 respondem por mais de 90% do total, sendo que mais da metade é estrangeira.

E aí mais uma pergunta deve vir à cabeça de vocês: então para que serve meu imposto para inovação? Esse dinheiro vai ajudar a criar produtos, processos e serviços? Representa melhoras para a minha vida?

O fato de “fazer diferente” não é necessariamente indicação de que a inovação abre caminho para o desenvolvimento sustentável. Vivemos num mundo em que a maioria dos nossos problemas vem do fato de a economia e as forças sociais estarem à mercê de um crescimento desenfreado e insustentável, que já deixou evidências de seu esgotamento.

Então, inovação é investir no desenvolvimento de soluções que respondam aos dilemas ambientais, sociais, econômicos e éticos que a sociedade humana está enfrentando. Como se trata de inventar uma nova civilização, mais cuidadosa com todas as formas de vida, o Brasil, com seu imenso patrimônio natural, social e cultural, pode assumir a vanguarda desse processo.

* Jorge Abrahão é presidente do Instituto Ethos.

 

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