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Blatter renuncia à presidência da Fifa quatro dias depois de reeleito

02/06/2015

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Pressão de patrocinadores e denúncia contra Valcke, o número dois da Fifa, podem ter influenciado decisão. Dirigente só sai do cargo após dezembro.

Na tarde desta terça-feira (2/6), Joseph Blatter surpreendeu os jornalistas ao anunciar que vai deixar a presidência da Fifa após a realização de um congresso extraordinário da entidade, que deve acontecer entre dezembro deste ano e março de 2016.

Blatter foi reeleito para seu quinto mandato à frente da entidade na última sexta-feira (29/5). O processo aconteceu num clima conturbado pela prisão de dirigentes da entidade, campanhas de organizações da sociedade civil pela renúncia de Blatter e pressão de patrocinadores por mudanças na estrutura da entidade.

A última revelação no escândalo de corrupção da Fifa foi publicada na segunda-feira (1º/6) pelo jornal The New York Times. Segundo a reportagem, a Justiça americana acredita que Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, teria transferido US$ 10 milhões de uma conta da entidade para a conta pessoal de Jack Warner, então presidente da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf). A quantia seria para o pagamento de propina por Warner ter ajudado na eleição da África do Sul como sede da Copa do Mundo de 2010.

Valcke é bem conhecido dos brasileiros, tendo sido o responsável por acompanhar o processo de organização da Copa de 2014 no Brasil. Em 2006, então diretor de Marketing e TV, ele chegou a ser demitido da Fifa após ser considerado culpado pela Justiça dos EUA por quebrar o contrato com a Mastercard e fechar patrocínio com uma empresa rival, a Visa. Em 2007, ele retornou à entidade como secretário-geral, o segundo cargo mais importante na hierarquia administrativa da Fifa.

Declaração de Blatter

Em declaração publicada no site da Fifa em inglês, Blatter deu poucas explicações sobre o motivo de sua saída. Apenas afirma: “Embora eu tenha um mandato dos membros da Fifa, não sinto que tenha o mandato do mundo do futebol – dos torcedores, dos jogadores, dos clubes e das pessoas que vivem, respiram e amam futebol”.

O presidente da Fifa também declarou que resolveu não esperar pelo próximo congresso ordinário, que será em 13 de maio de 2016, para organizar uma nova eleição. Além disso, anunciou que Domenico Scala, um auditor independente, vai ajudar na realização de reformas na estrutura da Fifa.

No texto, Blatter lista quatro alterações que fariam parte do que chamou de “reforma profunda” na Fifa:

  1. Redução do número de membros do Comitê Executivo;
  2. Eleição de todos os membros do Comitê em congresso e, portanto, a extinção de membros natos indicados pelas confederações;
  3. Verificação prévia, pela Fifa, de questões ligadas à integridade e à corrupção relativas a todos os membros do Comitê; e
  4. Limitação do número de mandatos para todos os integrantes do Comitê, inclusive seu presidente.

Prisões dos dirigentes

Os eventos que levaram à saída de Blatter parecem ter começado na quarta-feira (27/5), quando foi deflagrada uma megaoperação policial envolvendo a Justiça da Suíça e dos Estados Unidos. A pedido dos EUA, a polícia suíça prendeu em Zurique sete membros do Comitê Executivo da entidade, entre os quais José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Também foram detidos Jeffrey Webb, Eugenio Figueredo, Eduardo Li, Julio Rocha, Costas Takkas e Rafael Esquivel. Os dois primeiros são vice-presidentes da Fifa.

No final da tarde do mesmo dia, o ex-vice-presidente da Fifa Jack Warner se entregou às autoridades de Trinidad e Tobago, na América Central. Warner foi liberado após pagar fiança de US$ 400 mil. Na época, a Justiça americana anunciou que as prisões foram motivadas por questões ligadas à venda dos direitos de transmissão de eventos da Fifa, que teria movimentado pelo menos US$ 150 milhões nos últimos 20 anos. Dois empresários brasileiros foram citados no processo: José Hawilla, dono da Traffic, e José Margulies, também conhecido como José Lázaro, controlador da empresa marketing esportivo Valente Corp.

Já a Procuradoria-Geral da Suíça, na mesma quarta-feira, apreendeu mais de 150 milhões de páginas de documentos na sede da Fifa como parte de uma investigação sobre a possível compra de votos na escolha das sedes das copas de 2018, no Catar, e de 2022, na Rússia.

A pressão de organizações da sociedade civil aumentou depois das prisões. Uma frente de entidades, chamada New Fifa Now (“Nova Fifa Já”, em tradução livre), criou uma campanha para pressionar os patrocinadores da entidade. E a Transparência Internacional lançou uma carta pedindo que Blatter desistisse de concorrer e adiasse a eleição. Antes, na segunda-feira (25/5), a Transparência Internacional havia divulgado o resultado de uma enquete com 35 mil pessoas na Internet em que 80% eram favoráveis a que Blatter não concorresse ao cargo novamente.

Resposta dos patrocinadores

Todos os grandes patrocinadores da Fifa se declararam preocupados com as prisões e o escândalo de corrupção, ainda na quarta-feira (27/5). Entre todos os pronunciamentos oficiais, o comunicado da operadora de cartões Visa foi o mais contundente: “Esperamos que a Fifa tome atitudes rápidas e imediatas para resolver essas questões. Se a entidade falhar na tarefa, informamos desde já que reveremos nosso patrocínio”.

A única exceção foi a empresa russa de energia Gazprom. Questionado pela rede de TV CNN se as denúncias de corrupção poderiam alterar o patrocínio da Gazprom à Fifa, o porta-voz da empresa declarou: “Como uma coisa pode afetar a outra? Simplesmente não pode. Não são questões relacionadas”.

Com o final dos contratos para a Copa de 2014 no Brasil, a Fifa perdeu cinco patrocinadores: Sony, Emirates, Castrol, Continental e Johnson & Johnson. Alguns analistas afirmaram na época que as empresas estavam preocupadas com a associação de suas marcas a uma organização sob suspeita de corrupção.

Eleição no segundo turno

A vitória de Blatter no dia 29 por uma grande vantagem parecia indicar que ele permaneceria no cargo por mais quatro anos. A vitória, no entanto, foi por margem menor do que em outras eleições. Pela primeira vez desde 1974, quando da eleição do brasileiro João Havelange, foi necessária a realização de um segundo turno. Na primeira rodada, o suíço teve 133 votos, seis a menos do que o necessário para vencer sem uma nova aferição. Seu concorrente, o príncipe jordaniano Ali bin Al Hussein, reuniu 73 votos, mas desistiu de disputar o segundo turno.

Por Pedro Malavolta, do Instituto Ethos

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