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CEOs acham que falta esforço pela sustentabilidade nas empresas

09/10/2013

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Pesquisa do Pacto Global da ONU com CEOs de mais de 100 países aponta para os desafios da sustentabilidade nos próximos anos

Por Paulo Itacarambi*

O Pacto Global, o organismo das Nações Unidas que reúne as maiores empresas para discutir os problemas do mundo, e a consultoria Accenture, realizam, desde 2007, uma pesquisa global para saber a opinião dos lideres empresariais sobre sustentabilidade. Este ano, foram ouvidos mil CEOs, de mil empresas multinacionais representando mais de 27 setores da indústria e 103 países, para opinar sobre os negócios e os caminhos para a economia sustentável.

As entrevistas foram feitas pessoalmente por uma equipe de consultores da Accenture. Entre os CEOs entrevistados, estavam os líderes dos setores de alimentação, mineração, tecnologia, financeiro, farmacêutico, seguros, petroquímico, entre outros.

Algumas personalidades brasileiras são citadas pelos comentários feitos à pesquisa, como Paulo Roberto dos Santos (Caixa Econômica Federal), Guilherme Freire (Embraer), Andréa Matteucci Pinotti Cordeiro (Itaú Unibanco) e Jorge Abrahão (Instituto Ethos).

Este é o terceiro estudo de CEOs lançado pelo Global Compact e pela Accenture e ele aponta algumas mudanças ocorridas no período.

 

O que mudou no período
Desde a primeira pesquisa, realizada em 2007, o Global Compact cresceu, passando a congregar oito mil empresas transnacionais, e a sustentabilidade tornou-se um tema solidamente estabelecido na agenda dos líderes empresariais e contribuiu para a transformação dos desafios globais. Por isso, o Global Compact avalia que há razões para otimismo. Todavia, o Global Compact alerta que também há motivos para precaução: em mais de 200 entrevistas pessoais conduzidas desde 2007, e em outras duas mil feitas por meio de internet, os CEOs consideraram que a economia global não está no caminho de suprir as necessidades da crescente população humana dentro do limites do planeta.

Nas entrevistas feitas para a pesquisa deste ano, os CEOs foram ainda mais pessimistas: sob o ponto de vista do que está aí, os negócios coletivamente podem já ter “batido no teto” do que pode ser feito em termos de sustentabilidade. Sem uma transformação estrutural nos mercados e nos sistemas, as empresas podem não ter condições de abrir caminho para a economia sustentável.

 

Resultados de 2013
Veja alguns resultado da pesquisa com os mil CEOs entrevistados:

  • 68% não acreditam que a economia esteja caminhando para suprir as necessidades de uma população crescente, dentro dos limites de um planeta com recursos escassos e finitos;
  • 67% consideram que as empresas não fazem o suficiente para gerar sustentabilidade;
  • 83% acreditam que governos e regulações serão fatores críticos para os negócios;
  • 38% consideram que podem quantificar de maneira precisa o valor das suas iniciativas em sustentabilidade; e
  • 37% veem a falta de um “link” entre sustentabilidade e valor do negócio como uma barreira para acelerar o progresso.

 

Como enfrentar o desafio?
Diante desses resultados, os consultores perguntaram aos CEOs quais poderiam ser as ações adotadas pelas empresas para reagir a esse cenário de quase pessimismo e retomar a proatividade e o protagonismo das empresas no surgimento da nova economia. De todas as sugestões ouvidas, foi possível desenhar uma agenda de ações que o Global Compact e a Accenture chamaram de “Sete passos para a sustentabilidade e o sucesso”.

 

Os sete passos são os seguintes:

1 – Realismo e contexto: é preciso entender a escala do desafio e a oportunidade que ele traz. Se continuarmos como essa trajetória de “business as usual”, em 2050 vamos precisar de 2,3 planetas Terra para dar conta de uma população de 9 bilhões de habitantes. Já em 2030, uma defasagem de 40% entre o que a humanidade precisa consumir de água e o que estará disponível para consumo. Será preciso reduzir 11% em intensidade de energia em cada dólar posto na produção econômica mundial, todo ano, em qualquer lugar, até 2050, para se chegar aos 450 partes por milhão de carbono, estabelecida em 2007 pelo IPCC, para que a temperatura não cresça mais do que dois graus Celsius.

Para enfrentar esse cenário, os CEOs consideram importante agir para buscar soluções que interliguem os desafios de energia, água e alimentos, por meio de investimentos em tecnologia e infraestrutura global ou então por investimento que leve emprego e prosperidade para comunidades onde as empresas operam. Também veem importância em apoiar iniciativas que garantam trabalho decente, equidade de gênero, equilíbrio ambiental, respeito aos direitos humanos, paz entre países e regiões, iniciativas anticorrupção e pró-transparência.

 

2 – Crescimento e diferenciação: a sustentabilidade como vantagem e valor competitivo.

93% fos CEOs consideram a sustentabilidade uma chave para o sucesso dos negócios. Todavia, apenas 45% acreditam que o tema será muito importante no futuro. Em 2010, essa porcentagem era de 54%. Por que essa queda? Uma das explicações possíveis é que, este ano, os CEOs estão expressando sua frustração com o ritmo da mudança. Enquanto alguns aprofundaram seu compromisso com a sustentabilidade, outros tornaram-se céticos com relação ao tema: duvidam de que ele possa dar resposta a todos os desafios globais que precisam enfrentar num mercado cheio de incertezas e num cenário de cada vez mais pressão por resultados imediatos.

No entanto, esses resultados podem aparecer. A pesquisa cita o exemplo do Minha Casa, Minha Vida e a Caixa Econômica Federal, que, para diminuir o déficit habitacional da população de baixa renda, vem aplicando bilhões de reais na construção de casas populares, na contramão do movimento financeiro global, e com sucesso.

3 – Valor e performance: para os CEOS, não basta medir impactos ambientais (emissões, por exemplo) e gerenciá-los (mitigando-as). É preciso quantificar o valor das iniciativas de sustentabilidade e de modelos de negócios mais sustentáveis para a companhia, bem como acompanhar o impacto deles (iniciativas e modelos) nas comunidades onde operam, para se ter ideia de performance e de valor da sustentabilidade.

4 – Tecnologia e Inovação: As empresas líderes que querem de fato tornar-se mais sustentáveis estão investindo em inovação e tecnologia. Recursos naturais escassos, restrições ambientais e crescentes pressões sociais acabam estimulando a inovação. De investimento em energias renováveis a computação em nuvem e nova modelagem em securitização de ativos, tudo vem sendo repensado, levando em conta restrições socioambientais.

5 – Parcerias e colaboração: Nas pesquisas anteriores, os CEOs estavam mais confiantes na capacidade de os negócios resolveram os desafios globais. Em 2013, num contexto de pressões intensificadas e esforços agonizantes, os CEOs estão mais dispostos a aceitar o papel da colaboração e da parceria para a empresa atingir suas metas de sustentabilidade. Os CEOs acreditam que parcerias com governos, consumidores, ONGs e mesmo concorrentes podem maximizar os impactos positivos.

6 – Engajamento e diálogo: A liderança está cada vez mais consciente da necessidade de construir um diálogo construtivo e de mão dupla com consumidores, comunidades e outros públicos impactados pelas atividades das empresas.

7 – Advocacy e liderança: Os CEOs das empresas líderes em sustentabilidade têm certeza de que seus esforços não serão suficientes para pôr a economia global nos eixos, mas acreditam fortemente que as empresas devem liderar esse processo de construção de uma economia sustentável. Sozinhos, não serão bem-sucedidos. Mas, podem ter um papel importante numa solução colaborativa com governos e outros stakeolders. Por isso, o compromisso público dos CEOs em favor da sustentabilidade será integral para garantir progressos de fato no tema.

* Paulo Itacarambi é vice-presidente do Instituto Ethos e diretor do Uniethos.

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