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Cientistas alertam para iminência de desastres climáticos

29/08/2012

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Evento na Fapesp discute avanços da Rio+20 e ressalta que a mudança de paradigmas é urgente e essencial para evitarmos catástrofes ambientais

“O planeta é a fronteira e a economia tem de se adequar a esses limites. Infelizmente, o que vigora hoje é a visão oposta. A Terra está próxima de um colapso ambiental inédito. Os governos não escutam e, na Rio+20, transferiram as decisões do que precisa ser feito para as convenções do clima e da biodiversidade”. A declaração é do hidrólogo e cientista Johan Rockström, diretor-executivo do Instituto Ambiental de Estocolmo, na Suécia, e pesquisador do Centro de Resiliência, que fica na mesma cidade.

Rockström fez a palestra de abertura, por videoconferência, do workshop O Futuro Que Não Queremos – uma Reflexão sobre a Rio+20”, organizado na última quinta-feira (23/8) pelo professor e pesquisador Carlos Joly, na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), na capital paulista. O encontro, uma avaliação dos resultados da Rio+20, a conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) realizada em junho, no Rio de Janeiro, reuniu cientistas, gestores públicos e representantes de ONGs e da indústria.

Especialista em sustentabilidade global e recursos hídricos, Rockström liderou o grupo de 28 cientistas que publicou um estudo na revista Nature, em 2009, sobre o qual falou na videoconferência. A Safe Operating Space for Humanity (Um Espaço Operacional Seguro para a Humanidade) tornou-se referência nas pesquisas sobre clima e aquecimento global ao identificar e mensurar os limites planetários. Segundo o estudo, é imprescindível ajudar a prevenir as ações humanas que vêm causando mudanças climáticas.

A pedido do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, Rockström coordenou um grupo de laureados com o Prêmio Nobel que produziu uma carta com recomendações sobre sustentabilidade global para dar subsídios às decisões da Rio+20. No entanto, dois dos conceitos-chave da carta dos cientistas – o empoderamento das mulheres e o próprio reconhecimento dos limites planetários – não foram incluídos na declaração final da conferência, O Futuro que Queremos.

Na opinião de Rockström, uma das tarefas mais urgentes para evitar catástrofes futuras é diminuir drasticamente a emissão dos gases de efeito estufa (GEE). “Essa curva precisa começar a abaixar em 2015. Isso será possível combinando um preço global do carbono de pelo menos US$ 50 a tonelada a uma medida decrescente de emissão para todos os países”, diz.

O cientista alerta que não podemos adiar por mais tempo essa decisão, se quisermos manter o aumento da temperatura no nível máximo considerado seguro pela ciência: 2 graus. “Se não acertarmos agora, será tarde demais. A Rio+30 não vai resolver. Se adiarmos para 2020, o ritmo da redução terá de ser de 7% a 8% por ano – meta pouco viável de ser atingida por 200 países no mundo. Claro que o planeta vai sobreviver ao aquecimento global. Mas e seus habitantes?”, alerta.

Efeitos colaterais

Outro participante do workshop, Paulo Artaxo, cientista das áreas de física e geociências do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), estima que o equacionamento das questões climáticas levará pelo menos uma década para ser iniciado. Um dos maiores especialistas em clima no Brasil e membro do IPCC, painel das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, Artaxo afirmou que é até ingênuo imaginar que a Rio+20 pudesse resolver um problema dessa complexidade. “A tarefa é maior do que todo o sistema de produção que roda a economia e a política do planeta”, dimensionou.

Ele foi irônico ao comentar O Futuro que Queremos, documento final da conferência da ONU no Rio de Janeiro: “Li mais de uma vez as 53 páginas. Dos 283 tópicos, apenas três falam de clima”. Por isso, o cientista acredita que só a força dos efeitos colaterais das mudanças climáticas será capaz de apressar o passo das mudanças. O chamado turning point (ponto de inflexão), na opinião dele, começa a se configurar na forma de desastres ambientais bastante palpáveis.

“As altas temperaturas deste verão no Hemisfério Norte provocaram as maiores secas dos últimos 100 anos nos Estados Unidos, onde houve quebra das safras de milho e de outras culturas e incêndios descontrolados queimaram casas no Colorado, no Oregon e na Califórnia”, relatou. A seca afetou 14 Estados americanos e, na Europa, causou queimadas em florestas e outros estragos.

No Brasil, segundo o professor, a temperatura já aumentou 1,5 grau nas últimas décadas e, em todo o mundo, catástrofes relacionados a eventos naturais vêm crescendo em ritmo acelerado. “As perdas associadas a esse tipo de ocorrência, cuja freqüência aumentou de quatro a cinco vezes, atingem a casa dos bilhões de dólares”, diz Artaxo.

Desigualdade em emissões

O pesquisador Ricardo Abramovay, professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), da USP, detectou três avanços na Rio+20: a formação de uma comissão de alto nível, composta por 30 personalidade “notáveis”, com a incumbência de elaborar objetivos de desenvolvimento sustentável; o maior consenso em relação à necessidade de revisar os critérios que fundamentam o produto interno bruto (PIB); e maior preocupação sobre a questão dos oceanos.

Disse, no entanto, que, se continuarmos com o nível de desigualdade no uso de recursos naturais, não conseguiremos acabar com a pobreza – o maior desafio da sociedade contemporânea. Abramovay argumenta exibindo dados estatísticos: “São 2,5 bilhões de pessoas sem saneamento básico, 2,7 bilhões que dependem de esterco, lenha e palha para cozinhar, se aquecer e ter um pouco de luz à noite, 1 bilhão que não preenchem suas necessidades calóricas diárias e 2,4 bilhões que vivem com o correspondente a menos de US$ 2 por dia”.

Uma das principais desigualdades a serem combatidas, no entender do professor, é a no nível de emissões de GEE per capita. Para passar das 50 gigatoneladas (Gt) anuais de GEE que emitimos atualmente para 20 Gt em 2050, teremos de reduzir a atual média per capita de 7 toneladas para 2 toneladas ao ano.

Abramovay esclarece, no entanto, que a atual média mundial de 7 toneladas anuais per capita escamoteia que a produção e o consumo norte-americanos correspondem à emissão de mais de 20 toneladas per capita por ano– enquanto na China elas ficam em torno de 6 toneladas per capita e, na Índia, não chegam a 2 toneladas per capita. O professor argumenta que, por maior que seja o avanço em ecoeficiência, não é realista imaginar que alcançaremos esse patamar, permitindo que os norte-americanos, por exemplo, continuem com seu padrão de vida altamente intensivo em emissões de GEE. “O uso produtivo e o consumo privado dos recursos ecossistêmicos tornam-se, cada vez mais, uma questão pública, tendo em vista o próprio horizonte de escassez desses recursos, indispensáveis à vida social”, disse.

Segundo Abramovay, a ideia de cada um fazer a sua parte não tem dado certo. Por isso, chegou a hora de questionar as finalidades da economia: “Como produzir? Para quem se produz? Para a base da pirâmide? Para quê se produz? Para atender a necessidades reais da sociedade? Num mundo de 3 bilhões de habitantes, em que os recursos pareciam infinitos, era possível argumentar que tanto as empresas como os indivíduos eram soberanos sobre a maneira como usavam seus recursos, desde que o fizessem dentro da lei. Esse raciocínio perde legitimidade num mundo de 7 bilhões para 10 bilhões de habitantes, marcado por tantas desigualdades”.

Ao longo do workshop, os palestrantes deixaram claro que, sem o esforço conjunto de todo o arco de segmentos que compõem a sociedade – empresas, cientistas, organizações sociais, setor público e setor privado –, a busca pelo desenvolvimento sustentável não terá sucesso. No entanto, se na Rio+20 a temática da economia verde não avançou o quanto se esperava, a conferência serviu para aproximar olhares divergentes.

O engenheiro Rubens Born, diretor do Vitae Civilis e um dos mais reconhecidos ativistas ambientais do país, resumiu bem o espírito que deve permear essa busca: “É preciso superar a fragmentação – inclusive no interior dos movimentos socioambientais – em favor da capacidade de dialogar. É preciso resgatar a ética para cuidar do planeta e avançar na ética da vida”.

Por Denise Ribeiro, para o Instituto Ethos

Legenda da Foto: Ricardo Abramovay, no workshop da Fapesp
Crédito: Eduardo César/Fapesp

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