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Dois pelo preço de um

30/04/2014

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Investimentos em florestas podem mitigar as mudanças climáticas e promover crescimento verde sustentável e bem-estar para as pessoas.     

Por Achim Steiner e Kuntoro Mangkusubroto*

O planeta está enfrentando uma pressão sem precedentes de questões como mudanças climáticas, poluição e destruição de habitats, mas o combate a esses desafios não precisa ser às custas do crescimento econômico. Na verdade, um crescente número de evidências mostra que conservar o meio ambiente pode dar suporte ao crescimento sustentável e ao bem-estar humano em longo prazo, e nações como a Indonésia estão a caminho de demonstrar isso em termos práticos.

Considere-se o caso das florestas. O recente relatório Criando Capital Natural: Como o REDD Pode Dar Suporte a uma Economia Verde, do Painel Internacional de Recursos (IRP), informa que 33 das 150 maiores cidades do mundo tiram sua água doce de áreas de florestas protegidas e cita um estudo de caso específico no norte da Tanzânia, onde a restauração de 2 milhões de hectares de florestas dobrou a renda familiar.

Um estudo anterior do relatório Economia de Ecossistemas e da Biodiversidade (TEEB) quantificou o número mais especificamente: serviços ecossistêmicos de florestas tropicais têm um valor estimado de US$ 6.120 por hectare a cada ano para economias locais e nacionais.

Esses são apenas alguns poucos exemplos do modo pelo qual o capital natural – como o valor dos serviços naturais para a humanidade é conhecido – impulsiona o crescimento econômico e a prosperidade humana em muitas nações. Contudo, apesar de a conservação estar cada vez mais fortalecida para a macroeconomia, o total de perda florestal ainda atinge cerca de 13 milhões de hectares anualmente.

Uma forma inteligente e eficiente de atender ao mercado e combater essa falha política é criar uma abordagem de economia verde para a iniciativa de Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação Florestal em Países em Desenvolvimento (REDD).

O REDD é uma ferramenta adotada pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas para cortar as emissões de gases do efeito estufa pelo pagamento por ações que reduzam a perda florestal. O REDD+ é uma abordagem ampliada, que inclui o cuidado com a biodiversidade relacionada às florestas, manejo sustentável e melhoria dos estoques de carbono florestal.

O relatório do IRP, apoiado pelo Programa de REDD da ONU, descreve como um investimento de US$ 30 bilhões por ano em REDD+ poderia oferecer uma barganha de dois pelo preço de um: não apenas cumprir a função central da iniciativa de cortar emissões e mitigar as mudanças climáticas, mas acelerar uma transição global para um crescimento econômico sustentável.

Nações em desenvolvimento já estão demonstrando como essa abordagem integrada pode funcionar. A Indonésia, que tem mostrado um comprometimento firme com o crescimento verde e o REDD+, estabeleceu uma meta de reduzir as emissões por meio de esforços nacionais em 26%, e em 41% com apoio internacional, até 2020.

Ao contrário de muitas outras economias emergentes, a maioria das emissões de gases do efeito estufa na Indonésia é causada pelo desmatamento, a queima e degradação de turfeiras e outras mudanças no uso da terra; então os programas de REDD+ podem ser responsáveis por uma fatia significativa dos cortes necessários.

Por outro lado, a Indonésia precisa avançar agressivamente na melhoria do padrão de vida de sua população: cerca de 32 milhões de habitantes do país vivem abaixo da linha de pobreza, de acordo com dados do Banco Mundial.

Investimentos em REDD+ podem combater os desafios de uma vez só, já que milhões de pobres da Indonésia são dependentes dos serviços ecossistêmicos das florestas. Por exemplo, um estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) revelou que pagamentos de REDD+ na Indonésia no valor de 2,5% do PIB, de 2011 a 2030, trariam um crescimento do PIB maior do que se nada fosse feito, uma redução na pobreza rural e um aumento de 25% na renda de produtos não madeireiros, além de dobrar o valor do ecoturismo.

A Indonésia já começou a agir: como parte de sua estratégia de crescimento verde, o governo impôs uma moratória temporária em novas licenças para desmatamento de florestas e turfeiras primárias para reduzir as pressões sobre os ecossistemas, contribuindo diretamente com o REDD+.

Um estudo de 2012 do Pnuma e do Serviço Florestal do Quênia mostrou que o desmatamento perto de torres de água em nações do leste africano privou a economia de US$ 68 milhões em 2010 devido a danos em setores como a agricultura. O relatório incentivou esforços para criar uma estimativa dos recursos florestais nacionais que se encaixam nas atividades de REDD+ no Quênia e ajudam a proteger os meios de vida relacionados às florestas.

Esses exemplos de países e essas pesquisas mais amplas mostram que integrar o REDD+ ao planejamento econômico pode trazer benefícios à economia verde, como aumentar a eficiência de recursos de outros setores, levando a investimentos na economia verde, e aumentar a renda por meio do desenvolvimento de indústrias verdes, produção agrícola e ecoturismo.

Apesar do crescente impulso e apoio para o REDD+ apresentado por governos e doadores em 2013, o financiamento para a iniciativa é de apenas US$ 6,27 bilhões. Os US$ 30 bilhões necessários por ano parecem um grande compromisso em comparação com isso, mas, colocando em perspectiva, a indústria dos combustíveis fósseis recebeu subsídios de impostos diretos de US$ 480 bilhões em 2011.

Governos, agências internacionais e o setor privado precisam aproveitar essa oportunidade para apoiar investimentos de REDD+ que mantenham e melhorem o capital natural e tornem essa essência do crescimento verde e do bem-estar humano ainda mais forte.

* Achim Steiner é diretor-executivo do Pnuma; Kuntoro Mangkusubroto é presidente da Comissão Nacional da Agenda de Desenvolvimento Pós-2015 da República da Indonésia.

Artigo publicado originalmente pela Agência Reuters e retirado do site CarbonoBrasil, com tradução de Jéssica Lipinski. Para acessar o texto original (em inglês), clique aqui.

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Este texto faz parte da série de artigos de especialistas promovida pelo Instituto Ethos com o objetivo de subsidiar e estimular as boas práticas de gestão.

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Marcas globais avançam na gestão de resíduos sólidos, de Ricardo Abramovay;
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