ETHOS MEIO AMBIENTE

Especialistas avaliaram soluções ecossistêmicas na Conferência Ethos em SP


07/10/2019

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PSA, ecossistema agroalimentar e economia circular foram temas de painéis do evento

“Soluções baseadas na natureza”, esta foi uma das análises observadas no painel A viabilização dos pagamentos por serviços ambientais, realizado na Conferência Ethos 360º em São Paulo, nos dias 3 e 4 de setembro, no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera.

Coube a Juliana Baladelli Ribeiro, analista de soluções baseadas na natureza da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza​, abordar esse assunto, visto que a organização onde atua tem a missão voltada para a conservação da biodiversidade. “Nos dedicamos a pensar soluções para que tenhamos mais áreas da natureza protegida e serviços ecossistêmicos para resolver problemas da sociedade, a partir de soluções baseadas na natureza”, explicou Juliana.

A Fundação não atua na execução do projeto, mas sim na articulação, através de suporte técnico, disponibilizando um modelo de governança no qual consideram o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). Para a analista de soluções baseadas na natureza, o PSA “melhora a gestão das propriedades”. Milene Almeida, coordenadora de Relacionamento do Instituto Ethos, que moderou o painel, explicou que o PSA “integra o código florestal, mas ainda não foi regulamentado”.

David Canassa, diretor das Reservas Votorantim​, pontuou sua fala sob a análise de que a “natureza pode gerar receita” e que “a floresta em pé se paga”. Para tanto, compartilhou um exemplo vivenciado pela Votorantim. “Decidimos apostar no desenvolvimento do Vale do Ribeira (Legado das Águas), transformando-o em um destino turístico. Para isso, realizamos um trabalho sistêmico com as prefeituras, em que nós atuamos quanto ao aporte tecnológico e apoiando na criação de conselhos e leis”, explicou David.

“Não se fala em sustentabilidade sem falar sobre sociedade, meio ambiente e economia, não há como separar essas questões”, disse Marcelo Langer, professor e pesquisador da Universidade Federal do Paraná e consultor para o ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade) no projeto de valoração dos serviços ecossistêmicos​.

Marcelo elencou sugestões de encaminhamentos para essa questão: “Precisamos estabelecer indicadores, com mecanismos baseados em uma estrutura, que considere a definição de cada um dos atores no processo. A partir disso, estabelecer meios de compensação construídos com diálogo e com representatividade de agentes da sociedade. E ainda, o estabelecimento de metodologia de avaliação de processos”.

Se num dos diálogos a abordagem foi quanto a soluções geradas pela natureza, com certeza há convergência com o painel Caminhos para o ecossistema agroalimentar brasileiro, que contou com as participações de Denise Chaer, empreendedora social e diretora do Novos Urbanos; Gabriela Kapim, nutricionista e apresentadora dos programas “Socorro! Meus Filhos comem Mal” e “Socorro! Meus pais comem mal”, do canal de televisão GNT​; Arnaldo Brito, representante da Contag; Katielle Haffner, gerente sênior de sustentabilidade e categoria na Coca-Cola​; e Luís Fernando Guedes Pinto, gerente de certificação agrícola do Imaflora.

Denise falou sobre o Laboratório de Inovação Social para Alimentação, Nutrição e Desenvolvimento, organizado em 2018 pelo Novos Urbanos em parceira com o Imaflora e o Geolab Esalq/USP. “Uma experiência para colocar atores divergentes para trazer tração de uma convergência de ação no sistema agroalimentar brasileiro. Reunimos mais de 100 instituições divergentes para conversar”, contou.

Kapim observou a forma como nos relacionamos com a nossa comida. “Quanto mais a gente descascar e menos desembalar, menos estaremos poluindo o nosso corpo e o nosso planeta. É uma relação íntima e sutil, a diferença entre o micro sistema (nós e nosso corpo) e o grande sistema (a indústria, o meio ambiente)”, avaliou.

Sobre o “descascar” dos alimentos, foi a ponderação de Arnaldo Brito, que falou sobre agricultura familiar, que, segundo ele, produz “70% do que vai para a alimentação da população (…) Eles são os guardiões do meio rural, pois preservam o meio ambiente e produzem um alimento saudável. As pessoas do meio urbano precisam se preocupar e apoiar as pessoas que estão atuando na agricultura familiar”, ressaltou.

A maior compradora de frutas da América Latina, a Coca-Cola, apresentou mudanças as quais a empresa tem se dedicado. “Fizemos uma parceria com o Imaflora e, pela demanda do consumidor final, todo o guaraná é comprado 100% da Amazônia. Além disso, estamos tentando gerar uma compra que faça sentido para o consumidor, tirando o açúcar, fazendo produtos mais naturais para mudar esse ecossistema. Porque a sustentabilidade não está mais a margem dos negócios, o consumidor enxerga o que a gente faz e como a gente faz. Então é preciso uma escuta ativa para entender o ponto de vista do outro, com ampliação da visão de mundo e dos impactos que causamos”, revelou Katielle Haffner.

“Passamos também a nos preocupar com ‘o quê’ estava sendo produzido, além do ‘como’. Expandir o olhar para além da agricultura, nos voltando a observar o alimento, a nutrição e a saúde. O trabalho com o Novos Urbanos se calca na forma como estamos pensando em como colocar o alimento em um lugar mais central”, contou Luís Fernando.

Uma análise que tem ressonância nas palavras da gerente sênior de sustentabilidade e categoria na Coca-Cola: “quanto mais a gente conhece, mais a gente pode fazer melhores escolhas. Estamos mapeando os processos de resíduos e entendendo a economia circular para atuar cada vez mais, de forma mais consciente”.

Se o assunto é economia circular, o painel Economia Circular do Plástico – Desafios, Ações e Parcerias, viabilizado pela Braskem, teve o objetivo de abordar como as empresas têm investido e os governos estimulado cada vez mais projetos que ajudem no desenvolvimento de iniciativas que reduzam a geração de resíduos. Além disso, o debate falou sobre formas de estimular a reciclagem e o reaproveitamento de materiais, incentivar o design de produtos que possam ser completamente reinseridos no sistema após consumo, e abordou o estímulo ao consumo consciente, de forma a não somente reduzir impactos negativos sobre o meio ambiente, mas também que gerar impactos sociais positivos.

Richard Lee, head de Sustentabilidade da Cervejaria Ambev​, observou que “nem sempre é preciso inventar coisas novas, mas sim achar maneiras novas de utilizar coisas que já temos e assim ser mais sustentáveis (…) Para superar os desafios desse contexto nos rodeamos de parceiros, ideias e tecnologias. Criamos a Aceleradora 100+, da Ambev, para nos ajudar e ajudar a todos da indústria que compartilham de endereçar soluções para esse mesmo problema”. Outro projeto também foi apresentado, o Reciclar pelo Brasil em parceria com a Coca-Cola Brasil, tem como foco a coleta regular dos resíduos para reciclagem.

“O papel do consumidor é determinante para atingirmos uma economia circular, tanto quanto o papel da indústria. A demanda está mudando, percebemos que neste amadurecimento ainda existe descompasso entre o que se declara e o que se faz. Isso fica claro quando o consumidor é colocado frente a frente com as consequências das demandas dele (…) A indústria precisa ser rápida para oferecer soluções sustentáveis e que não repassem a conta para o consumidor. E, ao mesmo tempo, o consumidor precisa estar disposto a transitar para uma economia mais circular. É necessário ceder um pouco dos dois lados”, avaliou Lee.

Keyvan Macedo, gerente sênior de Sustentabilidade da Natura​, contou sobre a experiência com o refil dos produtos e se dedicou a explanar sobre “repensar o uso do plástico de forma a entender que o problema não é a embalagem plástica, mas desperdiçar a embalagem no meio ambiente” e no desafio que a empresa enfrenta para “engajar as consultoras para que elas engajem os consumidores finais”. “Há um leque gigantesco de oportunidades com as novas tecnologias digitais para fazer essa conexão”, disse Macedo.

“Ninguém vai resolver um problema que não conhece, então faz parte do nosso papel contar para as empresas quais os meios e como resolvemos esses problemas”, contou Bruno Igel, CEO da Wise​.

Por: Rejane Romano, do Instituto Ethos

Fotos: Clovis Fabiano, Mauricio Burim e Thiago Lopes

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