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Especialistas, jovens e empresários apresentam propostas frente a crise climática

03/10/2019

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Desmatamento e adaptação climática foram pauta

Frente a atual conjuntura, o painel sobre desmatamento foi um dos pontos altos na Conferência Ethos 360º em São Paulo, realizada nos dias 3 e 4 de setembro, no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera. Mas, como são muitos os desafios para a sustentabilidade do planeta, vários outros diálogos foram promovidos a fim de avaliar e, sobretudo, endereçar possíveis soluções para a agenda de meio ambiente.

O compartilhamento de boas práticas, que já vêm sendo adotadas pelo setor corporativo, e a indução para a criação de políticas públicas foram algumas das questões presentes em cada debate.

Desmatamento

O que será preciso para o Brasil combater o desmatamento ilegal até 2030? Este foi o nome do painel que provocou reflexões em: Alfredo Sirkis, diretor-executivo do Centro Brasil no Clima (CBC); Cláudio Almeida, coordenador do Programa Amazônia do INPE; e, Victor Salviati, coordenador de projetos especiais da Fundação Amazonas Sustentável.

Apesar do fim do desmatamento ilegal ser um dos pontos da NDC brasileira, a extinção dessa prática até 2030 é uma meta complexa. “Com todo o incitamento, corremos o risco de ultrapassar 10 mil quilômetros quadrados de desmatamento esse ano”, avalia Sirkis, que apoiou sua fala no fato de que “antes do governo Bolsonaro já tínhamos metade do efetivo para uma fiscalização como esta deve ser realizada”. Ou seja, para o diretor-executivo do CBC, um dos fatores que têm contribuído para a realidade enfrentada no país é a atual política do presidente da República que, dentre outras ações, diminui o número de agentes fiscalizadores.

O coordenador do Programa Amazônia do INPE concordou com Sirkis: “controlar o desmatamento demanda fiscalização. E a fiscalização, por sua vez, demanda monitoramento”. Almeida defendeu o uso da tecnologia para auxiliar nesse processo. “O monitoramento e o aparato tecnológico são mais do que suficientes para que a fiscalização funcione. O conjunto de ferramentas e softwares livres que pertencem ao Estado devem ser utilizados nesse sentido e principalmente para dar transparência, ao disponibilizar todos os dados publicamente, o que é uma política do INPE”, defendeu o coordenador.

Devido as dúvidas suscitadas por Bolsonaro quanto aos dados fornecidos pelo INPE, Almeida explicou: “é impossível manipular esses dados, todo o trabalho é publicado na página do INPE e é justamente essa transparência que dá solidez ao sistema e transmite confiança dentro e fora do país”.

Já Salviati, se preocupou em listar propostas de solução ao problema do desmatamento no Brasil. “Uma forma de evitar o desmatamento é por meio do empoderamento das comunidades. O governo precisa apoiar e incentivar a produção de baixo carbono e contribuir com políticas públicas para isso”, enfatizou o coordenador de projetos especiais da Fundação Amazonas Sustentável.

Engajamento dos jovens na luta pelo clima

Dando o pontapé inicial na agenda de clima, um dos destaques foi o painel A primeira geração sem esperança: jovens mais engajados, lutando contra o superaquecimento global e mais próximos dos povos da floresta.

Greta Thunberg é, sem sombra de dúvidas, o nome mais emblemático da luta jovem contra o aquecimento global. Mas, aqui no Brasil também temos representantes engajados e participativos nessa agenda.

Hamangaí Pataxó, estudante e liderança indígena, desde muito cedo atua com o empoderamento das mulheres indígenas e incentiva a juventude a ter voz e a defender a natureza. “Os jovens indígenas têm um papel importante e fundamental dentro da luta coletiva, que é defender nosso território e nossa forma de viver. Entendemos que a floresta e os elementos fundamentais para nossa existência, nos cura. É preciso fazer uma reconexão com a mãe terra e a juventude tem esse compromisso a respeito de seguir e continuar a luta de nossos antepassados”, disse Hamangaí.

Iago Hairon, coordenador do Engajamundo observou que “o jovem, a partir da percepção da mudança da sua realidade e da sua potência para transformação, será um replicador de boas práticas”. O coordenador do Engajamundo destacou ainda que “as pessoas que menos impactam o meio ambiente, são as mais prejudicadas”, analisando a questão do clima, quanto a transversalidade com direitos humanos.

O diretor executivo do Plant-for-the-Planet Brasil, Luciano Frontelle, trouxe a informação de que “50 milhões de árvores poderiam ser plantadas no Brasil sem competir de forma alguma com a agropecuária” e analisa que a metodologia de trabalhar com crianças “para ensinar sobre a crise climática de forma que se tornem embaixadores do clima” são ações propositivas e, para tanto, propôs o mapeamento de organizações locais envolvidas com escolas.

A mediadora do diálogo, Marina Esteves, estagiária de Práticas Empresariais e Políticas Públicas do Instituto Ethos apresentou uma inquietação quanto a situação: “sempre me pergunto como vamos viver daqui 40 anos, ainda nos relacionaremos dessa forma predatória com o planeta?” e, Hamangaí compartilhou o entendimento para a solução: “a gente só cresce coletivamente, precisamos aprender e a lutar de forma coletiva. As causas indígenas precisam do apoio e da força de todos. O governo brasileiro faz de tudo para exterminar nosso povo, então defender os povos originários do Brasil é defender a vida”.

Compromisso das empresas com o clima

Guilherme Corrêa Abreu, gerente geral de sustentabilidade da Arcelor Mittal; Pedro Rodrigo Scorza, assessor técnico para Combustíveis Renováveis da GOL Linhas Aéreas; Isabela Aroeira Almeida, líder de squad e de finanças climáticas do Itaú-Unibanco; e, Monique Gonçalves, gerente de Estratégia e Planejamento da Shell foram os painelistas do diálogo: Compromisso das empresas com a descarbonização da economia brasileira II.

O setor de aço, responsável por cerca de 7% de emissões mundiais de CO2, é a área de atuação da Arcelor Mittal, mas o gerente geral de sustentabilidade da empresa explicou que “não há como o setor do aço ficar sem se atentar a esse assunto”. “A Arcelor trabalha com um horizonte de longo prazo e é a primeira siderúrgica do mundo que produz um relatório específico sobre emissão de GEE (Gases de Efeito Estufa)”, contou Guilherme, além de destacar que o diferencial da empresa no Brasil é a “utilização de carvão vegetal sustentável”.

Outro representante de empresa que também apresentou preocupação com relação a mitigar danos ao meio ambiente foi a GOL Linhas Aéreas. “O que nos resta como indústria? Continuar consumindo querosene de aviação, mas sem que seja de origem fóssil, optando por fontes renováveis”, disse o assessor técnico para Combustíveis Renováveis da GOL Linhas Aéreas.

“O setor financeiro tem um grande desafio em olhar para a mudança climática, pois atua com empresas de todos os segmentos e de forma a manter os negócios resilientes, num cenário no qual temos de lidar com a cobrança dos investidores e dos stakeholders que já veem a mudança climática como um risco aos negócios”, contou a líder de squad e de finanças climáticas do Itaú-Unibanco, além de explicar sobre a plataforma de compromisso com o clima em parceria com a Natura, que através de benefícios sociais, fomenta a “compensação das emissões do banco e de alguns clientes”. “Um dos nossos compromissos é destinar 100 bilhões de reais para setores de impacto positivo, que consideram a mudança do clima e sustentabilidade social como um todo, até 2025”, revelou Isabela.

De acordo com a gerente de Estratégia e Planejamento da Shell, a empresa, como grande apoiadora do Acordo de Paris, tem investido em tecnologia para geração de energia limpa. “O investimento é em torno de 3 bilhões de dólares por ano em novas energias”, revelou Monique, que acredita que conseguiremos alcançar as metas do Acordo de Paris e ficar abaixo dos 2°C se “fizermos a transição do mundo fóssil para o elétrico”.

Adaptação Climática no setor privado 

A Waycarbon ofereceu o painel: Como o setor privado coloca em prática a adaptação climática?, no qual, Moisés Basilio, gerente de Sustentabilidade da EcoRodovias e Adriana Castro de Andrade Mello, especialista global em Mudança do Clima da Braskem,  compartilharam reflexões.

“​Os efeitos das mudanças climáticas estão aí e se estamos sentindo o efeito hoje, como será no futuro?”, foi com este questionamento que o gerente de Sustentabilidade da EcoRodovias iniciou suas observações. “O efeito do risco climático é fundamental para nós em dois aspectos: tempo e impacto. Sempre que vamos pensar num cenário futuro para a empresa, avaliamos também a questão climática para esse futuro. Estamos caminhando para um novo modelo de negócio no Brasil, onde a variável é considerada”, avaliou Moisés Basilio.

Adriana Castro explicou sobre as análises que têm sido realizadas pela Braskem. “​A Braskem é altamente dependente dos recursos naturais e desde 2014 percebemos que o clima é uma questão de perenidade para o nosso negócio. Conseguimos tangibilizar as perdas financeiras e a alta liderança, desde então, vem nos apoiando, inclusive para o desenvolvimento de um plano de adaptação. Nosso plano contempla 150 ações e o risco de escassez hídrica é o principal para nós”, contou a especialista global em Mudança do Clima da Braskem, que ainda lançou olhar sobre as parcerias público-privadas, como “o que está faltando para alavancar a agenda da adaptação climática no Brasil”.

Por: Rejane Romano, do Instituto Ethos

Fotos: Clovis Fabiano, Mauricio Burim e Thiago Lopes

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