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CONFERÊNCIA ETHOS

Falas potentes marcam quarto dia da Conferência Ethos

Playlist do evento é opção para quem perdeu os diálogos ao vivo

24/07/2020

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Cada atividade da Conferência Ethos é focada em observar uma temática em específico, mas ao acompanhar todas as lives do dia é perceptível como os assuntos conversam um com o outro. Confira abaixo os destaques do quarto dia do evento e se quiser assistir acesse a playlist no canal do Ethos no Youtube. 

15h – Mudanças climáticas e a questão racial 

Dando continuidade a atividade que teve início no terceiro dia da Conferência Ethos, Flavia Resende, coordenadora de Projetos de Meio Ambiente do Instituto Ethos, voltou a ouvir ativistas ambientais internacionais sobre como a questão racial e as mudanças climáticas se encontram na dinâmica das sociedades. “Começaremos com as reflexões sobre as experiências dos povos indígenas e africanos e os conceitos básicos em que se correlacionam os movimentos antirracista e climático”, disse Flávia ao iniciar o bate-papo.

Deon Shekuza, jovem defensor do desenvolvimento sustentável, delegado oficial da Juventude Namíbia na UNFCCC, contou sobre a realidade de seu país. “Lidamos com um país muito seco, onde 30% é desertificado. Em paralelo a isso, somos uma das democracias mais jovens de nosso continente e, infelizmente, trazemos parte do legado do apartheid e de destruição de nossas riquezas naturais. Somos o top 5 dos países mais desiguais do mundo”, explicou.

Em meio as mazelas que Deon detalhou, ele fez a seguinte reflexão: “se não consertarmos os problemas mais básicos, como vamos falar de mudança climática e dos tratados, como o Acordo de Paris?”. Situação vivenciada em outros países do continente africano, como o Sudão. “Eu vejo que o continente africano está num momento muito difícil. Muitas das fomes acontecem na África, com as maiores taxas de má nutrição e mortalidade infantil. Inclusive, a Covid-19 trouxe uma face muita feia para as pessoas que estão para trás no uso de tecnologias”, analisou Nisreen Elsain, ativista ambiental e climática, coordenadora geral de Juventude e Meio Ambiente – Sudão (SIM).

“Essas ‘raças em desvantagem’ são as que mais olham para a mudança climática, pois para nós é algo espiritual, temos uma relação com a natureza”, destacou Deon, que teve sua fala reverberada por Mphatheleni Makaulul, ativista sul-africana criada na tribo VhaVenda e que faz parte da Rede da Biodiversidade Africana e da Fundação Gaia: “não podemos ter bem-estar sem reconhecer os mais velhos e estando desconectados da natureza”, ponderou.

Mphatheleni falou ainda sobre a situação das mulheres em sua cultura. “Aqui todos os processos passam pelas mulheres, desde o tratamento dos grãos, mas mesmo assim desconectaram o papel da mulher e da sua espiritualidade na África. Isso causa uma dor existencial”. A fala de Mphatheleni foi reiterada por Nisreen: “tenho certeza que serão as mulheres que irão liderar para alcançarmos esse zero de emissão. Juntas somos mais fortes do que individualmente e conseguiremos fazer muito”.

17h20 – Recuperação verde e desenvolvimento regional: os desafios para superar as desigualdades, a pobreza e a mudança climática na América Latina 

Antes mesmo de falar sobre o pós-pandemia e a recuperação verde que queremos ter, Rodrigo Echecopar, líder do movimento Nossa América Verde, analisou o atual cenário. “Estamos simultaneamente em 3 crises, a mais evidente é a sanitária, econômica e social, que está em pleno desenvolvimento na América Latina. A segunda crise é a crise da emergência climática e a terceira é a crise do neoliberalismo”, explicou. Para ele, a solução é “construir mecanismos de financiamento justo e políticas que têm como fim a melhoria na vida das pessoas”.

Eric Parrado, economista-chefe e gerente geral do Departamento de Pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), observou que “muitas crises paralelas que estamos vivendo também podem ser resolvidas enquanto enfrentamos o grande problema da pandemia” e completou: “A pandemia piorou as coisas e o que vimos foi que o impacto de perdas de emprego é muito desigual. Muitos dizem que o vírus é democrático e que todos estamos expostos, mas não é bem assim, os mais vulneráveis sofrem mais”.

Quanto a recuperação verde, ambos convidados da atividade fizeram importantes ponderações. “A perspectiva de uma recuperação verde nos ajuda a construir um debate econômico mais amplo. A emergência climática é um desafio que nos obriga a fazer perguntas mais profundas sobre nossos modelos de desenvolvimento”, constatou Rodrigo. E, Eric disse: “precisamos de um desenvolvimento sustentável de verdade, que vá além das palavras. O mais irônico de tudo isso é que sabemos o que temos que fazer, mas não fazemos”.

18h20 – Sistema de Integridade – como as compras emergenciais descentralizadas enfatizam sua fragilidade?

Paula Oda, coordenadora de Projetos de Integridade do Instituto Ethos, moderou o painel e como consideração inicial explicou que “desde março tem ocorrido uma progressiva flexibilização na lei 13.979/2020, com o sentido de garantir agilidade no combate a pandemia e sabemos que nesse momento boa parte dos equipamentos de saúde estão sob o poder público e as compras são feitas em grandes volumes, o que nos faz retomar discussões sobre modelos eficientes e intensificação de denúncias de desvios”.

Guilherme France, coordenador de pesquisa do Centro de Conhecimento Anticorrupção, iniciou a atividade falando sobre como a organização em que atua, a Transparência Internacional, devido a um longo histórico em situações em que as contratações emergenciais são necessárias, observou a questão das compras emergenciais durante a pandemia. “Logo que a pandemia se instaurou observamos que aqui no Brasil seria um desafio. Um grande montante de recursos com restrições de controle, desde o princípio ficou claro que seria um momento de vulnerabilidade, inédito no país”.

O coordenador de pesquisa do Centro de Conhecimento Anticorrupção falou ainda sobre as dificuldades enfrentadas. “À parte das eventuais lacunas e problemas que já tínhamos, vemos que a formulação das Medidas Provisórias dificulta o acompanhamento e o atendimento do atual cenário. É como se tivéssemos uma nova lei por mês”, e fez uma crítica à atuação da União: “se a função das contratações estivesse centralizada na União, poderíamos ter tido uma série de avanços que poderiam prevenir uma série de investigações. Houve uma perde de oportunidade.

O que aconteceu foi o oposto, a União assumiu um papel daquilo que não deveria ser feito, um péssimo exemplo”, afirmou.

Eduardo Gussem, procurador-geral de Justiça – MPRJ, também observou com preocupação o atual momento. “Vivemos uma pandemia administrativa, dentro de uma pandemia sanitária, em que as leis não são observadas e as regras não são seguidas. Decisões díspares nos levam a questões jurídicas, ou seja, o remédio está matando o paciente”, disse.

Para ele, há “muita falta de vontade”: “Tanto as estruturas de controle e a sociedade estão engajadas, mas não vejo legislarem e atuarem nesse sentido. Cada um quer ver seu colégio eleitoral e se perpetuar nos cargos”, apontou Gussem.

E Guilherme finalizou falando sobre o Sistema de Integridade Nacional, proposto pelo Ethos. “O Sistema de Integridade do Ethos fala sobre isso: o papel da população no enfrentamento da pandemia deveria ter uma atenção e uma capacidade de controle social maior. O Ethos diz que é preciso um maior controle social por parte da população. É o que devemos incentivar e essa deve ser uma herança positiva”.

19h30 – O paradoxo diversidade-inovação e a representatividade de negros e negras na ciência e tecnologia

Falas potentes deram voz a uma realidade cruel: o racismo na ciência e tecnologia. Guimes Rodrigues Filho, doutor em Química pela UFScar e professor titular da UFU e Lis Ingrid Custodio, professora do Departamento de Informática e Ciência de Computação da UERJ, compartilharam vivências a respeito do tema.

Luiz Gabriel Franco, estagiário de Práticas Empresariais e Políticas Públicas do Instituto Ethos, explicou sobre a relevância do diálogo. “O tema desse painel é muito importante para o Ethos e é uma necessidade abordar esse assunto de uma perspectiva cada vez maior”, explicou.

“Somos maioria da população, mas onde estamos? A população negra ainda está distribuída, na sua maior parte, nos cursos de humanas. Estamos na universidade, mas ainda existe um caminho a ser percorrido e muitas barreiras a serem transpostas”, constatou Lis, e continuou: “há necessidade de referências para não termos um apagamento da nossa história. Gerações inteiras crescem sem referência. As barreiras são transpostas se houver uma reestruturação na sociedade e de como a ciência é ensinada para as nossas crianças. O racismo está estruturado na nossa sociedade em todas as discussões. Não existe discussão em que a questão racial não deva ter o devido cuidado”, explicou.

Guimes abordou quando essa situação, ainda não superada, teve início. “A Lei Áurea acabou com a escravização, mas não trouxe políticas públicas para a inclusão dessa população. Então, essas características que vêm da época do Império e passam pela República Velha não desapareceram, elas permanecem no século 20 e 21. O racismo está enraizado, ele é estrutural e perpetua a marginalização da população negra no Brasil”, ponderou.

Como forma de reverter esse cenário, Guimes aponta que “nossa sociedade racista precisa passar por uma mudança radical e, enquanto isso não acontece, precisamos fortalecer e ampliar as políticas de ação afirmativa, precisamos chamar a responsabilidade do setor público e também do setor privado”.

Lis concordou e complementou: “acredito que temos um longo caminho pela frente para conscientizar as pessoas. Esse assunto não deve ser discutido apenas por nós, negros. Isso é um equívoco que precisa ser tratado de forma clara, precisa ser reconhecido e discutido e precisamos ter políticas nessa direção”, finalizou.

Por: Rejane Romano, do Instituto Ethos

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