ETHOS DIREITOS HUMANOS

GT de Direitos Humanos dialoga sobre escopo da diversidade nas empresas


04/10/2019

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Políticas internas para inclusão de egressos, pessoas em situação de rua e refugiados foi tema do encontro

No último dia 19 de setembro, o Grupo de Trabalho Empresas e Direitos Humanos se reuniu para dialogar e trocar experiências sobre o que a coordenadora de Práticas Empresariais e Políticas Públicas do Instituto Ethos, Sheila de Carvalho, chamou de “temas pesados”, mas com “pontos em comum”.

Há tempos a discussão sobre diversidade adentrou as empresas de forma que investir nessa agenda hoje se tornou uma ação estratégica para ampliar o potencial da organização, inclusive quanto a ganhos financeiros. Mas, dado o movimento da sociedade, há temas a serem incorporados que vão além de gênero, raça e LGBTI+.

Egressos, pessoas em situação de rua e refugiados são agendas que requerem atenção. E, as empresas participantes do encontro puderam compartilhar dúvidas e boas-práticas que vêm sendo dotadas.

Egressos

“A população carcerária atualmente é de 1 milhão de pessoas. Questões como o preconceito e o estigma não podem tapar os olhos quanto a percepção do potencial daquelas que passaram pelo sistema prisional. Sobretudo em acreditar que só podem exercer determinadas funções”, explicou Sheila.

Vídeos apresentando exemplos de iniciativas que já trabalham com egressos foram exibidos e a troca entre os presentes considerou as implicações para a atuação com egressos, como, por exemplo, o preconceito por parte da sociedade e o desconforto ao lidar com egressos.

“A empresa tem que, de fato, saber o quanto está disposta a investir em diversidade, de forma a viabilizar uma cultura de acolhimento”, disse um dos participantes da reunião.

Dúvidas surgiram com relação a “rotulação” do egresso. “Pode ser prejudicial especificar no processo seletivo. Para que divulgar essa informação?”, foi questionado.

O ponto de convergência se deu quanto ao entendimento de que política de inclusão da empresa tem que abarcar questões como raça, gênero e etc, além de conceber que o egresso já pagou a dívida com a sociedade. “Ao trilhar esse caminho a empresa não deve pautar ações nesse tema a partir de tentativas que podem ou não ter êxito, mas sim entender a necessidade de seguir com a agenda”, ponderou a representante de uma empresa.

A representante da Natura trouxe o exemplo do projeto “Crer para Ver”, que apoia pessoas em situação de cárcere que fazem colares para utilização nos catálogos da empresa.

“Há 20 anos o Ethos já olhava para esse problema e na atual conjuntura revisita essa agenda frente a necessidade de repensar essa questão. Uma das razões para investir em políticas como essa é minimizar o ciclo de violência no qual estamos inseridos”, conclui a coordenadora do Ethos.

Leia a entrevista publicada no site Ethos sobre a questão.

Pessoas em situação de rua

O grupo dialogou a respeito de como qualificar o debate, considerando que, neste caso, o apoio psicossocial pode ser necessário. “O acolhimento é a chave para quem lida com pessoas em situação de vulnerabilidade: o que inclui uma escuta cuidadosa. Além de especificidades que envolvem essas pessoas. Um desafio para o RH, por exemplo, é apoiar até mesmo quem está fora do sistema bancário para recebimento na empresa”, apontou uma das participantes.

“Quando falamos de pessoas em situação de rua, estamos falando de dependentes químicos, de pessoas com problemas psiquiátricos, que não têm onde morar. Para as empresas atenderem a tamanhas particularidades e necessidades é algo muito complexo, que requer união com o Estado, a fim de entender o que cada um pode fazer, para não ficar apenas no campo da caridade. Há muita gente adotando práticas isoladas, contando apenas com parcerias junto a ONGs, mas é preciso unir mais forças”, disse outra.

A conclusão do GT é que sem uma rede de apoio, iniciativas nesse sentido não dão certo. “A relevância de rede de acolhimento com a participação de vários atores é o caminho, principalmente nessa agenda com tanta interseccionalidade”, ressaltou Sheila. Nesse sentido, um censo para a população de rua será produzido ainda esse ano, incorporando cruzamentos inclusive com relação a outras agendas, como egressos que se tornaram população de rua e pessoas LGBTI+.

Foi compartilhado que a OAB está fazendo o link entre empresas que querem contratar e organizações que têm contato com essa população. O Programa Redenção, no qual pessoas que estão em tratamento no CAPES são encaminhadas ao trabalho como, por exemplo, em museus, foi apresentado e a capacitação para que estas pessoas não estejam fadadas ao subemprego integrou a discussão, pois 40% da população de rua não concluiu o ensino fundamental, de forma que a evasão escolar também precisa ser observada.

“Olhar a empregabilidade para pessoas em situação de rua significa reavaliar o sistema de empregabilidade. Pois, na ordem atual se trabalha para depois receber, mas como essa pessoa vai ficar um mês inteiro sem ter, por exemplo, como se alimentar? Ou mesmo entender que algumas destas pessoas estão inseridas em abrigos, o que interfere até na carga horária de trabalho, pois há um horário específico para adentrar ao abrigo”, avaliou a coordenadora do Ethos.

Refugiados

Entendendo que as empresas precisam se conscientizar para chegar a este público e que o recrutamento das companhias precisa ter um olhar diferenciado. A coordenadora do Ethos divulgou que o Instituto vem trabalhando em um projeto, com duração de dois anos, preparando e empoderando empresas para atuar nessa agenda, inicialmente tendo como foco os venezuelanos.

Nessa temática, assim como nas outras, há especificidades a serem consideradas para que a empresa implemente uma política de contratação e inclusão. “Temos que observar que há pessoas que precisam de apoio até para ir as entrevistas de emprego”, relatou um participante.

Preconceito de classe e étnico racial também são questões a serem observadas nesse tema, além de características xenofóbicas quanto a disputa das vagas, impondo que os brasileiros tenham que ter privilégios em relação aos refugiados.

O assunto também havia sido abordado na Conferência Ethos 360º de São Paulo, em 2016.

Por: Rejane Romano, do Instituto Ethos

Foto: Pexels

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