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Megaeventos valem a pena?

25/06/2012

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Painel do Instituto Ethos, durante a Rio+20, avaliou os riscos e oportunidades decorrentes da realização de grandes eventos no país.

Sediar Copa do Mundo, Olimpíada e conferências internacionais como a recente Rio+20 coloca qualquer país no centro das atenções mundiais. Divulga seus atrativos turísticos, movimenta sua economia e determina obras e melhorias que podem tornar-se um bom legado para os anfitriões. Todas essas vantagens, contudo, podem significar altos riscos, a começar pela má gestão dos recursos e endividamento excessivo do país-sede, como ocorreu com a Grécia. Como administrar esse cenário? Como preparar o Brasil para a Copa de 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016 evitando os impactos negativos desses megaeventos?

Para dialogar sobre esse tema, o Instituto Ethos reuniu, durante a Rio+20, lideranças internacionais e autoridades e as convidou a delinear caminhos positivos possíveis. A iniciativa integra o seu projeto Jogos Limpos Dentro e Fora dos Estádios, que visa aproveitar os acontecimentos esportivos citados para ampliar a transparência dos investimentos governamentais, aumentar a integridade nas relações público-privadas e fortalecer o controle social.

Participaram do diálogo: Huguette Labelle, presidente da Transparência Internacional; Raquel Rolnik, professora da Universidade de São Paulo (USP) e relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o direito à moradia adequada; Georg Kell, diretor-executivo do Pacto Global da ONU; Jorge Bittar, secretário da Habitação da cidade do Rio de Janeiro; e Wagner Giovanini, diretor de Compliance da Siemens – área que assegura uma atuação ética e responsável nos seus negócios.

Kell abriu o debate avaliando que megaeventos esportivos têm um histórico grave de abusos financeiros, desvios de recursos, favoritismos e propinas. “A corrupção é uma força corrosiva no mundo. Tira dos pobres e dá a quem já tem muito”, alerta. Assim, se o Brasil conseguir executar um processo transparente, com controle efetivo da sociedade civil, e der um melhor exemplo na Copa e na Olimpíada, isto será um sinal marcante para o mundo. “Esta conduta poderá se alastrar”, prevê Kell.

Huguette Labelle concorda: “Se todo passo (no uso dos recursos) estiver público e fácil de ser entendido, é possível combater a corrupção”. Para a presidente da Transparência Internacional, a chave está em acompanhar de perto como são tomadas as decisões e realizadas as escolhas. Essa capacidade de monitorar é essencial na prevenção de perdas e desperdícios. “Poder punir os desvios é importante, mas prevenir é melhor. Olhem o caso da Grécia. O país entrou em grave crise pela dívida adquirida durante a Olimpíada de 2004 e a investigação de onde foram gastos realmente os recursos poderá levar anos.” Para Labelle, um dos maiores riscos da falta de transparência e de ética está em desiludir os jovens.

Wagner Giovanini lembra que, embora o histórico do Brasil seja ruim em relação à idoneidade no uso de verbas públicas, as coisas estão melhorando. “Segundo dados da Controladoria-Geral da União, de2006 a2012 ocorreram no país 17 mil prisões por crime de colarinho-branco”, informa o diretor da Siemens, que, além de garantir a ética internamente entre os 400 mil funcionários da empresa, vem investindo significativamente em seu fortalecimento em todas as instâncias sociais e colabora com cerca de U$ 100 milhões anuais para projetos independentes anticorrupção, no mundo todo.

Raquel Rolnik salientou que o Instituto Ethos está marcando uma mudança importante na cultura das empresas no país e na relação público-privada. No entanto, lembrou que, além do mau uso das verbas ligadas aos megaeventos, há muitos outros riscos. “Mesmo se tudo for feito com total correção, ainda assim haverá consequências, como a valorização do uso do solo nos locais que sediam os eventos, o que dificulta ainda mais o acesso a moradias dignas pela camada de menor remuneração”, declarou, acrescentando que mais grave ainda são as remoções forçadas, sem levar em conta as necessidades reais dos atingidos. “Os jogos podem não ser ‘limpos’ em várias dimensões e para combater isso é preciso uma coalizão muito ampla.”

O secretário Jorge Bittar reconheceu a necessidade de mais mecanismos de controle e relatou os esforços da cidade do Rio de Janeiro para estar preparada para os eventos previstos. Falou das melhorias no transporte público, das indenizações para as famílias removidas das áreas de obras para infraestrutura, que atualmente variam de R$ 40 mil a R$ 80 mil,  do programa Morar Carioca e dos projetos para urbanizar todas as favelas da cidade até 2020, também ligados às melhorias de infraestrutura para sediar os grandes eventos. Sobre os riscos de o município ficar com construções muito grandes, esclareceu que “estamos atentos para evitar equipamentos que depois fiquem ociosos, só gerando custos. Buscamos soluções que sejam desmontáveis e provisórias”.

Raquel Rolnik salientou que, para entender a realidade com a qual se está lidando, é preciso ir às comunidades, visitá-las. “Há muitos técnicos comprometidos, querendo mudar a situação de pobreza e de vulnerabilidade. Mas o planejamento não dá conta, por exemplo, de famílias numerosas, lideradas por uma mulher. O mercado a discrimina e não lhe facilita o acesso a um imóvel, pela indenização oferecida. O carroceiro também perde seu meio de vida, se removido para apartamento. Onde ele deixará seu equipamento de trabalho, nesse caso?” indagou. Ela lembrou a existência dos Comitês Populares da Copa e concluiu: “Só cidadãos indignados vão empurrar o poder público e as empresas em outra direção”.

A importância de um planejamento eficaz foi ressaltada tanto pelos integrantes da mesa como por intervenções do público presente. O agravante de se deixar para o último minuto e da pressa também foi apontado. “É essencial uma profunda reflexão sobre o que queremos de fato. E, sobretudo, ser conseqüente e não fazer nada sem pensar”, disse Francisco Sebok, um dos ouvintes do debate, que atua na área de eventos esportivos.

Por Neuza Arbocz, para o Instituto Ethos

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