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Morre o bispo dos povos indígenas e da reforma agrária

06/05/2014

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Pioneiro nas denúncias contra trabalho escravo e na proteção de denunciantes e testemunhas, D. Tomás Balduíno faleceu nesta sexta (2/5).      

Por Neide Esterci*

Na sexta feira (3/5), aos 91 anos, morreu D. Tomás Balduíno, bispo emérito da Diocese de Goiás. Meu primeiro contato com ele foi em 1973, a caminho de São Felix do Araguaia (MT), para pesquisar conflitos de terra. Fui acolhida por sua equipe na casa paroquial da diocese, enquanto ele voava em seu teco-teco até São Félix, para consultar D. Pedro Casaldáliga sobre a oportunidade de me receber, em virtude das graves tensões entre a prelazia e as grandes fazendas que ali se instalavam.

De pai goiano e mãe paulista, D. Tomás trazia sempre a firmeza e a vivacidade do olhar no rosto moreno de feição sertaneja. Além de militante, era um ser curioso e aberto a indagações. Lembro também de sua excitação, quando passando por Londres, onde estávamos eu e José Ricardo Ramalho, em missão de estudos, o convidamos para um chope, no pub onde Marx descansava de leituras na Biblioteca Britânica.

Segundo a nota distribuída pela Comissão Pastoral da Terra, Dom Tomás nasceu em Posse (GO), em 1922, e teve por nome de batismo Paulo Balduíno de Sousa Décio. Ao tornar-se religioso dominicano é que recebeu o nome de Frei Tomás.

A partir daí, distinguiu-se na luta em defesa dos povos indígenas, sendo um dos criadores do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e também fundamental nas articulações para criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), outra entidade de relevo no campo político-social da segunda metade do século 20, no nosso país. As articulações para criação dessas duas entidades ocorreram nos duros anos da ditadura militar: a primeira em 1972 e a segunda em 1975.

D. Tomás teve vivência próxima a índios e camponeses da Amazônia desde quando, em 1957, foi nomeado superior da missão dos dominicanos da prelazia de Conceição do Araguaia (PA). A partir dessa função, foi desenvolvendo uma relação de parceria cada vez mais estreita com D. Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia.

De fato, em meados dos anos 1960, os governos militares puseram em prática as políticas de desenvolvimento para a região, com o financiamento de grandes empreendimentos agropecuários que avançavam sobre as terras indígenas e de pequenos produtores. D. Tomás e D. Pedro, com suas respectivas equipes, apoiavam-se mutuamente na defesa das populações locais ameaçadas – posseiros e as levas de trabalhadores, os peões, recrutados em regiões muitas vezes longínquas.

Com a perspectiva de tornar mais eficaz sua atuação com os indígenas, D. Tomás, formado em filosofia, fez também, na Universidade de Brasília (UnB), o curso de antropologia e linguística, concluído em 1965, e aprendeu a língua dos índios Xicrin, dos grupos Bacajá e Kayapó. Para deslocar-se através de tão grandes extensões regionais que envolviam, sobretudo, Pará, Mato Grosso e Goiás, foi aprender a pilotar e seus amigos italianos o presentearam com um teco-teco que facilitava suas idas e vindas e sua comunicação com os centros diocesanos e com as equipes da CPT e do CIMI.

Em 1999, D. Tomás deixou o bispado da Diocese de Goiás, onde atuou por 31 anos. Mas, sua militância prosseguiu em variadas frentes, em prol da liberdade e da justiça social.

Para saber mais sobre Dom Tomás Balduíno, clique aqui.

* Neide Esterci é professora do Departamento de Antropologia Cultural (IFCS) da UFRJ, e presidente do Instituto Socioambiental (ISA).

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