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O bom exemplo de uma indústria cimenteira

06/02/2013

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Um case positivo e pioneiro de controle de emissões de GEE nesse setor é do Brasil e vem da empresa InterCement, do Grupo Camargo Corrêa.

Por Jorge Abrahão*

A indústria cimenteira é uma das que mais poluem e contribuem para mudanças climáticas. E, neste momento que o Brasil está vivendo, de grandes obras destinadas à realização de megaeventos esportivos, é importante analisar como algumas empresas da construção civil estão lidando com as questões relativas à sustentabilidade.

Em 2011, o consumo de cimento no Brasil atingiu a marca histórica de cerca de 50 milhões de toneladas. Em 2012, com um crescimento de 8% no consumo, esse recorde foi batido,  chegando a 54 milhões de toneladas.

Esses números indicam que a construção civil no país está a todo vapor, gerando empregos e riquezas. Mas também apontam para os impactos que o setor e sua cadeia produtiva acarretam para o meio ambiente e para a sociedade, com reflexos também na economia.

Um dos insumos que mais causam impacto negativo é o cimento. Isso se deve ao fato de as cimenteiras fazerem uso intensivo de energia para processar calcário – a queima dele em altos-fornos é a base da produção de cimento e gera as emissões de carbono que poluem e comprometem o meio ambiente. O setor cimenteiro em geral responde por 5% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE) e por 18% das emissões da indústria.

No Brasil, de acordo com os dados do segundo Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa, o ramo representa 2% de todo o carbono emitido pelo país. E nos últimos 15 anos aumentaram em 30% as emissões de carbono desse setor.

A Política Nacional de Mudanças do Clima, que estabeleceu metas globais e setoriais que o Brasil precisa atingir até 2020, definiu uma redução de 5% das emissões para as cimenteiras. O setor precisará, portanto, realizar mudanças na direção da sustentabilidade para atender a essa meta, criando casos exemplares que podem ser reproduzidos por outras empresas.

Um exemplo positivo que temos no Brasil vem da empresa InterCement, do Grupo Camargo Corrêa, que adotou uma bem-sucedida prática de gestão de carbono.

No país, as vendas da empresa estão concentradas na região Sudeste, que responde por 48% do consumo nacional de cimento. Desde 2006, a empresa vem elevando sistematicamente sua participação de mercado na região e, em 2010, alcançou a marca de 14,4%, superando os 13,7% registrados em 2009. Em quatro anos, a participação de mercado da InterCement no Brasil cresceu 2,1 pontos percentuais. A companhia vem apresentando expansão média cerca de 60% maior do que a do mercado.

A InterCement começou a pensar em desenvolver ações pontuais para reduzir suas emissões ao observar as informações sobre a indústria cimenteira em relação às emissões de GEE. E a reflexão sobre esses dados resultou na análise e reestruturação do ciclo, por meio da metodologia PDCA (ou Plan, Do,Check e Act). A partir do diagnóstico apontado pela aplicação dessa metodologia, a empresa desenvolveu quatro grandes blocos de ação, com vistas a reduzir suas emissões:

– Plan – Realizar benchmarking, acompanhar a regulamentação e definir metas;

– Do – Executar o Roadmap Tecnológico (Plano Máster para Mitigação de GEE);

– Check – Inventariar e auditar as emissões de GEE; e

– Act – Avaliar resultados e estabelecer correções de rumo, se necessário.

Os primeiros passos para a implementação dessa prática foram a realização de capacitações sobre o tema da redução de carbono e o inventário de GEE, que serviu para medir a quantidade de CO2 emitida por todas as operações da empresa. Esse inventário foi auditado por uma entidade externa independente.

Em paralelo, foi realizado o benchmarking de tecnologias de redução de GEE, isto é, uma pesquisa qualitativa sobre marcos regulatórios disponíveis a respeito do tema, bem como os riscos e as oportunidades trazidas por ações de redução de carbono.

Em seguida, a empresa definiu as metas específicas de redução de emissões, ou seja, quilo de CO2 por tonelada de cimento produzida, e elaborou um Plano Máster de Mitigação de GEE para chegar lá.

Desafios

Durante essa fase de estudos e implementação do plano, a empresa enfrentou alguns desafios. O primeiro deles foi mostrar aos profissionais de todos os níveis hierárquicos da organização o contexto em que a indústria de cimento e, consequentemente, a InterCement estavam inseridas, ou seja, o fato de que pertencerem a um setor que está entre os maiores emissores de GEE do mundo.

Para essa conscientização, mais de 50 eventos de capacitação foram realizados pela empresa entre os anos 2009 e 2011, contemplando todas as operações e contando com a participação de grupos de 10 a 15 profissionais em cada evento.

O segundo desafio foi o de realizar rapidamente o processo para inventário das emissões de GEE, seguindo o protocolo internacional do setor de cimento. Essa atividade teve início em março de 2009 e, atualmente, todas as operações (cimento, concreto, agregados, ferrovias e preparação de combustível alternativo) estão mapeadas no inventário corporativo.

O terceiro grande desafio foi a elaboração de um Plano Corporativo de Mitigação que estivesse em sintonia com os objetivos estratégicos da InterCement. Para tal, a alta direção da empresa participou e criou o que denominou Roadmap de Mitigações, que  contempla seis direcionadores de mitigação para os quais está previsto inclusive o desenvolvimento de inovações tecnológicas:

– Eficiência energética;

– Matérias-primas alternativas;

– Combustíveis alternativos;

– Concreto sustentável;

– Redução de combustível na operação ferroviária; e

– Tecnologias inovadoras.

Atualmente a Gestão do Carbono na InterCement enfatiza principalmente a implementação e revisão do Roadmap Tecnológico, ainda com base na metodologia PDCA.

Com exceção da execução do primeiro inventário (cujo ano de referência era 2007), todas as ações, iniciativas e trabalhos estão sendo realizados com recursos internos da InterCement, envolvendo os profissionais das diversas operações e de diversos níveis.

Outro recurso fundamental não financeiro são as informações sobre as operações, como, por exemplo, o consumo de combustíveis, sem as quais seria impossível inventariar as emissões de GEE. Para isso, foi criada uma base de dados eletrônica na intranet da companhia, de modo a assegurar a rastreabilidade e facilidade para consolidar as informações.

A prática pode ser considerada inovadora por reunir diversos elementos de gerenciamento que estão sendo aplicados na mitigação de GEE e por essa ação de mitigar ter sido implementada como Gestão do Carbono, com conceito de ciclos de melhoria contínua, gestão de riscos e oportunidades, benchmarking, acompanhamento de marcos regulatórios desde o nível local até global e o Roadmap Corporativo para Mitigação de Emissões com seis frentes de trabalho relacionadas com as com as três dimensões da sustentabilidade.

As seis frentes de mitigação de GEE estão em linha com a redução do consumo de recursos naturais e de combustíveis fósseis, procurando a reutilização de resíduos inservíveis de outras indústrias no processo produtivo.

Resultados

O maior benefício de elaborar o Roadmap de Mitigações foi o de definir metas desafiadoras de longo prazo para as seis frentes de redução de emissões de CO2.

Com isso, definiram-se equipes de trabalhos multidisciplinares na empresa incumbidas de buscar soluções para a redução das emissões. Por exemplo, nas operações da Argentina, com objetivo de aumentar a participação de biomassas, substituindo combustíveis fósseis, foi iniciado um plantio experimental de sorgo em duas fábricas, que será utilizado em testes-piloto nos fornos.

Iniciativas similares estão em estudo nas fábricas do Brasil, desta vez utilizando o capim-elefante, e os resultados já são notáveis: a InterCement reduziu as emissões específicas de cimento de 544 para 532 kg de CO2 por tonelada. Este é um resultado expressivo se considerarmos que houve um aumento aproximado de 80% na produção de cimento no mesmo período.

Além dos benefícios ambientais, a empresa observou benefícios econômicos, como o aumento substancial no uso de combustíveis alternativos em substituição aos combustíveis fósseis tradicionais, muito utilizados nos fornos do Brasil, como o coque de petróleo. O índice de substituição, que em 2007 era de 4%, chegou a 10% em 2011. Com isso,  a empresa deixou de comprar cerca de 30 mil toneladas de coque, apenas em 2011, com impacto positivo significativo nos resultados da empresa.

As ações e os resultados obtidos pela InterCement são importantes exemplos de como a preocupação com seus impactos não acarreta prejuízos econômicos para a empresa, muito pelo contrário. Ao considerar o desenvolvimento sustentável, a empresa está abrindo novas perspectivas de obter lucro de maneira segura, ou seja, sem futuras preocupações em remediar os impactos de suas ações atuais.

* Jorge Abrahão é presidente do Instituto Ethos.

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