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Os negócios que vêm do lixo

01/07/2014

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A coleta seletiva e a reciclagem patinam e não vão dar certo enquanto não existirem cadeias de negócios baseadas em matérias-primas recicladas.

Por Dal Marcondes*

A urbanista Raquel Rolnik publicou recentemente um artigo mostrando o que acontece com a coleta seletiva e a reciclagem na cidade de São Paulo, a mais populosa do país e a que mais gera resíduos, de todas as classes, recicláveis ou não. Ela aponta que a cidade tem 46% de domicílios servidos por coleta seletiva e, no entanto, apenas 2% dos resíduos são de fato reciclados. Essa é uma realidade que em maior ou menor grau se espraia por todas as cidades brasileiras, apesar de coleta seletiva e reciclagem estarem previstas na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), de dezembro de 2010 (depois de 20 anos dormitando no Congresso), e que tem 2014 como prazo para a eliminação completa dos lixões e implantação de aterros sanitários em todo o país.

Minha opinião é de que nada disso vai dar certo se não houver, também, um esforço consistente para a geração de novos produtos e negócios com base em matérias-primas obtidas a partir da separação dos resíduos coletados, seja em residências ou em empresas – negócios capazes de gerar produtos inovadores, empregos e renda a partir do uso de materiais que podem ser obtidos da mineração dos resíduos gerados pela atividade humana.

O primeiro desafio que se impõe é a necessidade de que esses negócios sejam espalhados por todo o país, uma vez que transportar resíduos por longas distâncias pode tornar o custo da operação incompatível com qualquer negócio. Então, será preciso envolver não apenas cooperativas de recicladores em todo o país (capazes de coletar, separar e dar destinação adequada a cada classe de resíduo), mas também fomentar o empreendedorismo para a formação de milhares de empresas que utilizem esses materiais para a produção de uma miríade de produtos que satisfaçam as mais diversas necessidades da sociedade.

Mas isso não acontecerá de forma espontânea. Será preciso um planejamento e um esforço coordenado de empresas, governos, universidades, institutos de pesquisa e organismos financeiros capazes de produzir inovações, design e modelos de negócios viáveis e espalhá-los por todo o Brasil. Dessa forma, não apenas as principais questões relativas aos resíduos poderão ser encaminhadas, como também haverá muito mais oportunidades de negócios e empregos à disposição da sociedade.

Já existem iniciativas na direção de transformar lixo em matéria-prima para produtos de bom valor econômico e alto benefício social. Um exemplo interessante é o desenvolvimento de produtos a partir da reciclagem de embalagens longa-vida. Hoje já existem no mercado telhas e vários tipos de painéis feitos a partir da reciclagem desse material, com grande vantagem em relação a materiais tradicionais no mercado. Para se chegar a esse formato de produto e negócio, a Tetra Pak, maior empresa global de embalagens longa-vida, apostou no desenvolvimento de tecnologias e no apoio às cooperativas de catadores e a produtores de telhas e placas. “O resultado foi a criação de um mercado novo, algo que não existia antes e no qual a demanda é ainda bem maior do que a capacidade de oferta”, explica Fernando Von Zuben, diretor de Meio Ambiente da empresa.

A inovação, nesse caso, não veio apenas porque a empresa é boazinha, mas também porque ela deve ser responsável pelos resíduos que coloca no mercado. Centenas de pequenas empresas estão sendo criadas em todo o Brasil para o aproveitamento dessa matéria-prima, com bons resultados nos negócios.

Outros materiais têm maior valor e, por isso, são mais demandados. É o caso das latas de alumínio, das quais o Brasil detém recordes de reciclagem. Vidros e garrafas PET estão entrando nessa linha de materiais com valor comercial, mas ainda em escala insuficiente para cumprir as metas da PNRS.

A chave para a solução dos resíduos está basicamente em dois vetores: a redução na produção de resíduos e a inovação na geração de novos produtos e negócios a partir dos resíduos coletados. Sem isso a coleta seletiva simplesmente vai fazer com que as prefeituras tenham de manter imensos depósitos de materiais recicláveis que não serão reciclados por falta de uma cadeia de negócios que os utilize.

Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde e especialista em meio ambiente e desenvolvimento sustentável.

Artigo publicado originalmente no portal da Envolverde.

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