NOTÍCIAS

Direitos Humanos
Institucional
Gestao Responsavel
Integridade
Ambiental

ETHOS

Razão e sensibilidade (e bom senso)

11/07/2014

Compartilhar

Mais do que o apagão de 6 minutos que tirou a seleção da final da Copa do Mundo, o que o futebol brasileiro vive hoje é uma pane de muitas décadas.

Por Caio Magri e Cristina Spera*

Desde terça-feira (8/7), estamos vivendo num turbilhão de emoções, mas sem perder a racionalidade e o bom senso. Alguém comentou no Facebook que mais rápidos que os gols da Alemanha só os memes que a galera postava enquanto a seleção brasileira levava um baile no Mineirão. Eram de uma ironia doída, mas mostravam que a gente sabe rir da tragédia (alguns pelo menos), e esse é um bom sinal para a superação, pois mostra resiliência, esse conceito emprestado da física para explicar a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas, sem entrar em estresse ou surto psicológico.

Parece que foi o que faltou aos jogadores da nossa seleção, não é? Mas foi só isso, resiliência? Ou foi mesmo uma pane de seis minutos? Ou foi tudo isso junto?

Difícil responder. O fato é que todos os brasileiros já perceberam que há algo de podre no reino da bola nacional há algumas décadas. Quanto mais o futebol foi se tornando um negócio no país, mais foi se distanciando do seu público, o torcedor. Ele se afastou do time, que deixou de precisar dele, para correr em busca de patrocinador.

O torcedor também se afastou dos estádios, não tanto pelo preço dos ingressos, mas pela tibieza das equipes, cujos melhores jogadores mal apareciam num campeonato e já eram negociados ao exterior. Sem falar nas retrancas que tornaram o jogo feio e de poucos gols. Ganhar jogando bem deixou de ser o objetivo para não perder, mesmo jogando mal.

Isso se refletiu na formação dos jogadores que chegaram à seleção nos últimos tempos, principalmente do meio-campo pra frente. Já repararam que, nas três ou quatro últimas Copas, os destaques da Amarelinha têm sido zagueiros e laterais? Não fosse por Romário, Rivaldo e os dois Ronaldos, não teríamos ninguém no ataque como melhores das Copas. O comentário do ex-jogador Tostão, na Folha de S.Paulo de hoje (11/7), destaca justamente esse aspecto, que faz tempo que os técnicos deixaram de se preocupar em formar jogadores de meio-campo, como eram Falcão, Ademir, Gerson. Trauma de 82? Ou questão de dinheiro, porque o que “vende” mais rápido são atacantes velozes?

O fato é que o futebol brasileiro vive hoje uma pane de muitas décadas.

Gestão

O que acontece em campo reflete a maneira como os times, as federações e a própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF) dirigem o futebol. E essa gestão, por sua vez, está intrinsecamente ligada ao modo de financiamento dos times.

No Brasil, mais de 30% da receita dos clubes vêm dos direitos de imagem cedidos para a televisão. Os contratos de patrocínio dependem da visibilidade que a equipe terá na TV. E dessas receitas saem os salários dos jogadores, as verbas para manutenção das instalações, das equipes de base, dos funcionários e da equipe técnica, e para o pagamento dos impostos. A verba é complementada pela venda de camisas e outros objetos com a marca do clube, além de participação na renda dos jogos. Mas a conta nunca fecha, com raras exceções. Por isso, ao final de cada temporada, os jogadores que se destacam acabam indo para o exterior.

Esperava-se que, com a realização da Copa do Mundo no Brasil, haveria a possibilidade de se reverter, ao menos em parte, essa situação; mas não foi o que aconteceu e isso não se deveu à situação econômica do país. Faltou um projeto para o futebol brasileiro, do tipo daquele que comentamos aqui sobre a Costa Rica, que engajasse a comunidade, os torcedores, que reacendesse a “chama” e a vontade de ir ao estádio torcer pelo clube.

Para tanto, seria preciso mexer no modelo de financiamento, rever a questão da venda dos direitos de imagem e do formato do campeonato brasileiro, inclusive dos horários dos jogos, que começam muito tarde no meio da semana. O torcedor que tem de trabalhar no dia seguinte acompanha cada vez menos os jogos ao vivo; os estádios ficam entregues às torcidas organizadas, que veem a partida como uma “guerra” e o torcedor do outro time como um “inimigo” a ser abatido. Daí, as brigas que distanciam ainda mais as famílias e especialmente as crianças dos estádios.

O legado positivo mais relevante desta “Copa das Copas”, vista por estrangeiros, foi a hospitalidade e a alegria dos brasileiros. Será que não conseguimos manter essa mesma gentileza entre nós mesmos? Palmeirenses e corintianos? Flamenguistas e fluminenses? Não custa recordar que, até os anos 1980, as torcidas dos times não ficavam separadas nos estádios. Isso foi ocorrendo aos poucos, à medida que sumiam Ademires da Guia e proliferavam Chicões no meio-campo. Será que foi só coincidência?

Outros legados positivos mostram que o país – ou seja, os brasileiros, engenheiros, gestores públicos e privados, profissionais de todos os níveis – foi bastante competente para garantir os requisitos de infraestrutura funcionando em alto nível:

1.Os estádios e o bom acesso, em especial, o acesso ferroviário de São Paulo. A qualidade dos gramados. A iluminação – sem apagões.

2. As telecomunicações: internet e celular funcionaram bem – mais de 40 milhões de selfies e outras fotos transmitidas dos estádios durante os jogos até as semifinais para o mundo todo.

3. As transmissões e as belas imagens de alta definição de TV, com a tecnologia digital. Quase 40 câmeras, as transmissões mostraram todos os ângulos possíveis, com destaque para a beleza do superslow-motion. Os telões dos estádios foram um sucesso para centenas de espectadores, que viram sua cara e suas emoções ampliadas no estádio e transmitidas para o mundo. A tecnologia dos sensores no tira-teima dos gols garantia um pouco mais de precisão para as arbitragens.

4. A repercussão mundial foi positiva para o Brasil, durante toda a Copa, sem os riscos de manifestações violentas e agressões a torcedores pacíficos. A grande cobertura mundial deve ter contribuído para melhorar a imagem do país no mundo.

5. Desmantelamento do esquema de venda ilegal de ingressos que existia desde 2006.

Envolvimento com a seleção

A população brasileira se identificou com a seleção, mesmo derrotada, e esse sentimento precisa ser preservado. Como?

Os próprios jogadores precisam fazer um esforço para não confundir a emoção com todos os interesses comerciais que os cercam. E isso não é tão fácil, num esporte que cada vez mais é sinônimo de dinheiro. Mas algum jogador da seleção, quem sabe o capitão Thiago Silva, quem sabe Neymar, poderia informar-se sobre as demandas do Bom Senso F.C. e ajudar a divulgá-las para melhorar a vida dos seus colegas de profissão que trabalham aqui no Brasil.

O Bom Senso F.C. é um movimento criado em 2013 por jogadores de grandes clubes que cobra melhores condições de jogo e de trabalho para o futebol brasileiro. O slogan do movimento é: “Bom Senso F.C. – por um futebol melhor para quem joga, para quem torce, para quem transmite, para quem patrocina, para quem apita”. E também para quem dirige, para quem pesquisa o tema, enfim, para toa a sociedade.

Rogério Ceni, Alex e Paulo André estão entre os participantes desse movimento, que já foi recebido pela Presidência da República e que reivindica, entre outras coisas, um calendário mais equilibrado para o futebol nacional. A maioria dos times joga apenas 17 partidas por ano, deixando os jogadores desempregados o resto do tempo. Enquanto isso, os times da “elite” chegam a jogar até 85 partidas na temporada, provocando desgaste nos jogadores. O calendário precisa ser mais inclusivo, democrático e racional, para garantir também a sobrevivência dos times do interior, de onde saem os craques.

O Bom Senso pede também Fair Play Financeiro, um sistema de controle das finanças que obriga os clubes a gastar apenas o que arrecadam. O objetivo é simples e visa garantir a sustentabilidade das instituições esportivas e o desenvolvimento saudável do mercado. E o mercado, por sua vez, para “jogar limpo”, tratará de regular e provavelmente reduzir o salário dos craques para se adequar às novas regras, como o pagamento em dia dos salários dos atletas e funcionários, impostos, serviços e todas as outras obrigações.

Revolução alemã

Quando a Alemanha disputou o título em 2002, contra o Brasil, o próprio Beckenbauer veio a público dizer que, exceção feita ao goleiro Oliver Kahn, o resto do time estava abaixo da crítica. Essa era a realidade do futebol do país, na época.

Em 2006, a Copa seria em terras germânicas e o povo queria fazer um bom papel dentro e fora do campo. Por isso, iniciou uma “revolução” no futebol, que abrangeu não só a forma de jogar, mas de administrar o esporte. Foi criada a Federação dos Treinadores, que regula a atividade, impondo regras para a contratação e a demissão, base e teto de salários, bem como capacitação. A Bundesliga (equivalente à CBF) obrigou os clubes a investir nas categorias de base como condição para participar dos campeonatos da primeira e da segunda divisão. A própria federação criou centros de treinamento regionais para lapidar talentos. A filosofia de jogo também mudou, valorizando o meio-campo criativo, e é mantida desde as seleções de base até a principal.

Outra coisa é a equipe que ajuda a seleção principal. Havia 53 olheiros estudando a seleção brasileira. Neymar, por exemplo, tinha estudos estatísticos desde quando era infantil no Santos. Pode ser que seja exagero e que tudo isso seja destruído por um passe de um certo Messi, formado num time igualmente bem planejado, o Barcelona. Mas que joga por uma seleção que, como a brasileira, não tem lá muita excelência em planejamento e transparência (e isso não é inveja de brasileño).

* Caio Magri é diretor de Operações, Práticas Empresariais e Políticas Públicas e Cristina Spera é assessora de Imprensa do Instituto Ethos.

Crédito da foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

CONTATO

  • endereçoRua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 445 - Pinheiros
  • endereço05415-030 São Paulo - SP
  • endereço* Para correspondências. Estamos 100% em trabalho remoto
  • telefone(55 11) 3897-2400
  • email[email protected]
  • horárioDe segunda a quinta - das 9h às 17h, sexta das 9h às 15h
  • imprensa(55 11) 3897-2416 / [email protected]
  • trabalhe conoscoTrabalhe Conosco

© 2016-2020 Instituto Ethos - Todos os direitos reservados.