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CONFERÊNCIA ETHOS

“Vão acontecer novas pandemias, com certeza”

Reflexões do terceiro dia Conferência Ethos pautaram desafios e aprendizados com a pandemia de coronavírus

17/07/2020

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As cientistas, Ester Sabino e Cristiana Toscano, afirmaram ontem, durante atividade do terceiro dia da Conferência Ethos 2020, que “terão outras epidemias, com certeza”. Um pressuposto que permeou todos os diálogos ocorridos nas cinco lives desta quinta-feira.

Entenda como, em diferentes perspectivas, a sociedade pode, a partir dos aprendizados com a pandemia de coronavírus, se preparar para mitigar riscos e atenuar impactos.

Conversa com Vanessa Nakate – mudanças climáticas e o futuro da África 

Vanessa Nakate, jovem ativista da justiça climática de Uganda; Paloma Costa, jovem ativista climática, coordenadora do Grupo de Trabalho de Clima do Engajamundo e assessora jurídica no Instituto Socioambiental (ISA); e, Marina Esteves, estagiária de Práticas Empresariais e Políticas Públicas do Instituto Ethos, com atuação voltada a agenda ambiental, foras as três jovens que analisaram como a mudança climática já está afetando e poderá interferir ainda mais nas futuras gerações.

Num diálogo que também integra a programação da Conferência Brasileira de Mudança do Clima (CBMC), foi perceptível muita consciência e propriedade nos apontamentos. “No que diz respeito a crise climática na pandemia, temos que entender que ela não está em quarentena. Mesmo durante a pandemia, as pessoas foram afetadas, por enchentes, por causa dos rios que aumentaram seu nível de água”, observou Nakate.

Sobre essa questão, a jovem de Uganda pontuou que quem mais sofre os impactos da mudança do clima são “as pessoas de cor”, como negros e indígenas. E, enfatizou que “a África é o menor emissor de carbono, mas o mais afetado”. Marina concordou e acrescentou que “Brasil e Estados Unidos, são, ambos, grandes emissores que negavam a crise climática e que também negaram a pandemia”.

Paloma contou a respeito de como tem sido esse momento de pandemia para ela. “Muito me alegra o compartilhamento com meus amigos de outras nações, que me contam da sabedoria de seus ancestrais. E também, a reflexão sobre a nossa forma de consumir, pensando: eu preciso de tantos sapatos?”, explicou e complementou: “Eu acredito que há um futuro por vir, no qual essa pandemia nos ensinou muito, como um momento de passagem, daquilo que aprendemos com quem nos antecedeu para que possamos assumir e florescer para um novo mundo”.

Nakate observou que “a pandemia nos mostra como uma crise pode ser, como poderemos ficar com a crise climática, uma chamada para os líderes que tanto ignoram a crise climática, mas tiveram que ser rápidos para entender essa crise do coronavírus, em que todos podem ser vítimas”. E, concluiu: “a pandemia nos mostrou como é possível ter ar limpo e como as pessoas podem se adaptar a novos modos de viver. Não podemos voltar para trás, temos que seguir para um futuro melhor, de vida para todos. Eu tenho esperança.”

Ciência – sairemos da pandemia com uma ciência reforçada?

Cristiana Toscano, única brasileira no comitê de vacinas contra a Covid-19 da OMS; Ester Sabino, que realizou importante papel no entendimento do DNA do coronavírus e Glauco Arbix, coordenador do Observatório da Inovação do Instituto de Estudos Avançados da USP, abordaram a importância da ciência no enfrentamento de pandemias.

O moderador, Caio Magri, diretor-presidente do Instituto Ethos, iniciou a conversa dando o tom do que iriam tratar. “Estamos aqui para entender se a ciência é capaz de trazer a esperança para a juventude e para o futuro de todos nós”, disse.

Ester explicou que no atual contexto, a comunidade quer saber mais sobre o que a ciência faz. “Para os cientistas, é uma oportunidade de ampliar o diálogo e facilitar o entendimento a respeito da ciência, porque agora, as pessoas vão estar mais abertas”. A professora do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da USP detalhou sobre como as epidemias acontecem: “os vírus pulam dos animais para os humanos, então a alteração do meio ambiente e o aumento da população humana vão facilitar que outras epidemias e pandemias aconteçam”.

Cristiana pontuou sobre a valorização das entidades oficiais de controle a atuação contra pandemias. “O que me preocupa nesse novo contexto geopolítico global é que o papel e o empoderamento de instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS), que são supranacionais, para detectar e fazer a vigilância de problemas como esse, é fundamental, mas vemos que o que está acontecendo é o contrário. Há uma desvalorização em função de situações políticas e isso é muito preocupante”, constatou.

Em convergência, Glauco observou a certeza de que “se a ciência tivesse sido ouvida, esse número de mortos não teria a dimensão que teve”. E, finalizou dizendo que “temos que aprender a comunicar, expor e mostrar que o trabalho cooperativo e coletivo com multidisciplinaridade e interdisciplinaridade é chave para darmos conta dos problemas tão complexos que estão desabando sobre o mundo, como a pandemia e os impactos da mudança climática.”

O vetor diversidade na superação de crises 

Mesmo as empresas têm um importante papel no atual cenário. Foi o que apresentaram Lilian Rauld, Head de Diversidade & Inclusão na Sodexo On-Site, e Mafoane Odara, gerente do Instituto Avon, onde lidera iniciativas de enfrentamento às violências contra as mulheres e meninas.

“Neste momento de pandemia, percebemos que é preciso que as empresas reforcem suas práticas de diversidade e inclusão”, destacou Ana Lucia Melo, diretora-adjunta do Instituto Ethos. Nesse sentido, Lilian explicou que “numa crise sem precedentes, temos que nos unir” e contou sobre uma das primeiras medidas da Sodexo On-Site que foi afastar os funcionários do grupo de risco e pessoas com deficiência. “Isso porque sabemos que as pessoas com deficiência requerem mais cuidado, por isso afastamos”, explicou.

Sobre os aprendizados, a Head de Diversidade observou que sendo uma empresa de negócios, estão aprendendo com esse “novo normal”. “Temos que nos adaptar a essa situação, até mesmo quanto aos protocolos de higiene, temos restaurantes como nossos clientes e há medidas de distanciamento. Estou crente de que sairemos disso com muitos aprendizados para contar as futuras gerações.”

Mafoane destacou que “tudo que estamos vivendo já acontecia antes da pandemia e que agora o que nos cabe é avaliar como podemos agilizar a adoção de medidas nas empresas”. A gerente concluiu sua fala dizendo que: “um exercício importante a ser feito é entender que para transformar as empresas e a sociedade devemos ter um projeto para todos os grupos, com processos de continuidade, que deverão se sustentar a longo prazo e entender que cada um de nós tem uma responsabilidade importante nesse caminho de construção de protocolos, mais transparentes e mais desafiadores.”

Mudanças climáticas e a questão racial  

Flavia Resende, coordenadora de Projetos de Meio Ambiente do Instituto Ethos abriu a atividade explicando que o objetivo seria “promover uma reflexão a respeito das correlações entre o movimento climático e o movimento antirracista”. O que foi seguido à risca pelas convidadas: Elizabeth Yeampierre, líder de justiça ambiental e climática e co-presidente da Climate Justice Allianc,e e Melania Canales Poma, líder da aldeia quechua dos Rukanas e presidente da Organização Nacional das Mulheres Indígenas Andinas e Amazônicas do Peru (ONAMIAP).

Ambas centralizaram suas falas em apontar que o cerne da questão se concentra na forma como quem tem o poder nas mãos desfavorece as populações indígenas e africanas. “Sempre houve unidade entre os indígenas e as pessoas de descendência africana nos EUA, lutando pela sobrevivência e sendo impactados em comunidades que tem problemas econômicos. A luta agora está combinada, estamos unidos, destacou Elizabeth, corroborada por Melania que disse: “os governos estão violentando os nossos povos, uma violência desde o Estado contra as mulheres e os povos indígenas, os etnocídios.”

Ao final, pontuaram sobre as preocupações com o futuro. “Uma das coisas que sempre exigimos é que as empresas não contaminem e não destruam a mãe terra e nós mesmos. Essa é uma casa de todos e todas, não podemos pensar só na ganância, precisamos pensar nas futuras gerações que vão precisar da saúde e vão precisar que mãe terra esteja aí, com a biodiversidade que foi oferecida a nós, pensemos neles”, constatou Melania.

Já Elizabeth, pontuou que “precisamos criar economias locais e sustentáveis”. Segundo ela: “o capitalismo está matando o planeta, literalmente, e grandes negócios têm que repensar suas estratégias porque também não sobreviverão por muito tempo.”

O avanço do debate sobre renda básica e a guinada do bem-estar 

Encerrar o dia dando continuidade a um diálogo que vem sendo abordado desde o primeiro dia da Conferência Ethos, a renda, seja emergencial ou universal, arrematou o tema que esteve presente em todas as outras lives desta quinta-feira, como salientou a moderadora da conversa, Elisa de Araújo, assessora de advocacy nacional da Conectas Direitos Humanos e militante da Coalizão Negra por Direitos e do Movimento Mulheres Negras Decidem. “Foi preciso uma crise com a pandemia causada pelo coronavírus, em que as pessoas não podiam sair de casa para trabalhar, para darmos esse importante passo para consolidação da renda básica”, constatou.

Leandro Teodoro Ferreira, presidente da Rede Brasileira de Renda Básica e José Antônio Moroni, membro do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), analisaram o debate que está em alta, mas que apresenta diferentes concepções quanto a forma que a renda básica permanente deve ser implantada.

Leandro contou sobre como a pandemia foi o pontapé inicial para implantação da Renda Básica Emergencial. “Ficou evidente que, com as pessoas no isolamento, o emprego e a renda seriam afetados, no mundo todo foram levantadas alternativas para isso, como as medidas de proteção ao emprego, que também são necessárias. Mas, também os subsídios de renda, porque a economia do Brasil tem uma estrutura muito informal e era preciso uma mobilização para garantir uma proposta de Renda Básica Emergencial”, disse.

Enquanto para Leandro a “proposta de continuidade e aprofundamento da renda básica, no pós-pandemia, vai levar em conta um viés redistributivo de renda no Brasil”, Moroni explicou sobre outros modelos que são pensados para a implantação do benefício: “O que difere nossa proposta daquela que o Paulo Guedes (ministro da Economia) fala de forma genérica, que é uma característica desse governo, é que ele quer que o pobre financie a renda básica, e nós não queremos isso! Queremos que os ricos financiem a renda básica”, explicou.

Para Moroni, “a renda básica tem a ver com a criação de uma renda permanente, que se insere dentro do arcabouço os direitos humanos e de seguridade social”. E, Elisa pontuou que a participação da sociedade civil na elaboração de políticas públicas é indispensável. “Só é democrático, se assim for”, disse ela.

Por: Rejane Romano, do Instituto Ethos

Foto: Unsplash

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