Crise climática, perda de biodiversidade e desigualdades sociais: desafios interdependentes para o desenvolvimento
Uma das grandes lições deixadas por Charles Darwin em A Origem das Espécies é a de que a vida na Terra não constitui uma coleção de seres isolados, mas um conjunto de formas de vida diferentes entre si e dependentes umas das outras por meio de relações complexas. Da mesma forma, tudo o que ocorre em nosso planeta interage com componentes físicos, químicos, bióticos e sociais. Entender como essas conexões são estruturadas e como efeitos positivos e negativos percorrem essas redes de interações é fundamental para desenvolver estratégias capazes de mitigar rupturas em um cenário de constantes alterações no mundo natural.
A mudança do clima já interfere na distribuição das espécies e no funcionamento dos ecossistemas. Comunidades biológicas podem ser expostas a condições climáticas diferentes daquelas observadas ao longo de sua distribuição histórica, modificando a composição das comunidades e as interações entre espécies (Trisos et al., 2020). Por exemplo, alterações na temperatura resultam em mudanças nas áreas de distribuição de diferentes organismos (Pecl et al., 2017). Em sistemas nos quais as espécies mantêm relações de dependência, a perda de uma espécie ou de uma interação pode desencadear efeitos em cascata e aumentar o risco de coextinções (Rezende et al., 2007).
A relação entre biodiversidade e bem-estar humano ocorre, em grande medida, por meio dos serviços ecossistêmicos ou, em uma abordagem mais recente, das Contribuições da Natureza para as Pessoas. Os ecossistemas fornecem água e alimentos, participam da regulação do clima e do ciclo hidrológico e contribuem para processos como polinização, ciclagem de nutrientes e controle de pragas e doenças. A redução da biodiversidade pode comprometer processos necessários ao funcionamento dos ecossistemas e produzir consequências que alcançam os sistemas produtivos e a segurança alimentar (Cardinale et al., 2012). Para muitas espécies de plantas, por exemplo, a reprodução e o fluxo gênico dependem da interação com polinizadores.
A produção de alimentos também é afetada pela mudança do clima. Alterações nas condições ambientais vêm reduzindo o crescimento da produtividade global, sobretudo em regiões mais quentes (Ortiz-bobea et al., 2021). Para muitas culturas, a dependência da polinização é um fator essencial para a produtividade (BPBES/REBIPP 2019). Se analisarmos apenas o aspecto econômico, a contribuição da polinização para culturas agrícolas dependentes desse serviço no Brasil foi estimada em aproximadamente US$ 12 bilhões anuais (Giannini et al., 2015). Medidas de adaptação podem reduzir parte desses efeitos, mas não eliminá-los (Hultgren et al., 2025). Nas cidades, a exposição ao calor extremo também aumentou, embora o risco não seja distribuído uniformemente entre os grupos sociais (Tuholske et al., 2021).
Clima, biodiversidade, produção, renda, infraestrutura e desigualdade compõem, portanto, um mesmo sistema de vulnerabilidades. Essa interdependência evidencia os limites de modelos de desenvolvimento que tratam economia, natureza e bem-estar social como dimensões separadas, reforçando o crescente entendimento de que as crises climáticas e de perda de biodiversidade estão interconectadas e não podem ser resolvidas de forma isolada (Instituto Ethos, 2023).
Conforme destacam Nobre et al. (2023) em sua análise sobre a sociobioeconomia e as tecnologias sociais para a conservação e inclusão social na Amazônia, a preservação ambiental só é efetiva quando articulada diretamente à melhoria das condições de vida das populações locais. É nesse ponto que a sociobioeconomia surge como resposta estrutural, ao reconhecer que o colapso climático, o declínio da biodiversidade e as disparidades socioeconômicas são manifestações de um modelo de desenvolvimento predatório e excludente.
Dado esse panorama, o presente artigo busca refletir sobre a relação entre as principais crises deste tempo, destacando a sociobioeconomia na construção de alternativas capazes de conciliar conservação da natureza, valorização dos conhecimentos e modos de vida locais, contribuindo para uma transição para modelos de desenvolvimento mais resilientes, inclusivos e sustentáveis.
A Sociobioeconomia no contexto brasileiro
A sociobioeconomia é um campo interdisciplinar que estuda as interações complexas entre fatores sociais, biológicos e econômicos na formação e funcionamento das sociedades humanas, buscando compreender como esses fatores influenciam e são influenciados uns pelos outros (Secretaria de Economia Verde e Descarbonização e Bioindústria, 2024). Essa perspectiva amplia a compreensão da bioeconomia, uma vez que enfatiza a dimensão social e territorial da geração de valor e permite reconhecer a biodiversidade não apenas como recurso econômico, mas também como parte dos modos de vida e dos conhecimentos construídos por povos indígenas e comunidades tradicionais.
Povos indígenas e populações tradicionais possuem conhecimentos e práticas desenvolvidas a partir da relação com o território, tais como manejo de plantas, sementes, alimentos e outros recursos naturais. A valorização desses saberes é fundamental na conservação da biodiversidade, desde que o uso econômico desses conhecimentos tradicionais respeite direitos, autonomia e a participação das comunidades, conforme estabelece na Lei nº 13.123/2015 (BRASIL, 2015; FERREIRA; TUPIASSU; GROS-DÉSORMEAUX, 2024).
A compreensão dessas relações, permite avaliar impactos negativos derivado de atividades econômicas desenvolvidas inadequadamente nos territórios. Assim, as Tecnologias Sociais (TS) podem atuar como ferramentas ou instrumentos benéficos para apoiar e compreender melhor a sociobioeconomia e dessa forma, contribuir para modelos de desenvolvimento que conciliem conservação da biodiversidade, valorização dos conhecimentos tradicionais e geração de trabalho e renda, fortalecendo o protagonismo das populações nos territórios (BRANDÃO; ARIEIRA; NOBRE, 2024).
Amazônia
Se a sociobioeconomia pressupõe a articulação entre biodiversidade, conhecimentos territoriais e geração de valor, a Amazônia ocupa posição estratégica nesse debate. A região reúne condições singulares por concentrar uma das maiores biodiversidades do planeta e uma ampla diversidade sociocultural formada por povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e populações extrativistas (COSTA, 2012). A história recente do território amazônico demonstra que o desmatamento na região não se deu simplesmente como resultado inevitável da ocupação territorial, mas como consequência de um modelo que promoveu crescimento econômico intensificando desigualdades territoriais e pressões ambientais, num contexto em meio ao qual as atividades responsáveis pela redução da floresta, continuaram apresentando retornos econômicos diretos para seus agentes (PRATES e BACHA, 2011; MARGULIS, 2003).
Principalmente entre as décadas de 1960 e 1980, se observou a busca por integrar a Amazônia por meio de estradas, incentivos à pecuária e grandes projetos produtivos, tendo como lógica a ocupação e exploração dos recursos naturais. Rodovias, crédito subsidiado e incentivos fiscais tiveram papel decisivo na expansão das atividades econômicas que em paralelo geraram a expansão do desmatamento. Em comum, a maior parte dessas iniciativas tratava a Amazônia como uma reserva de recursos a serem explorados para promover crescimento econômico. Hoje, a Amazônia não é apenas floresta, mas também um território cada vez mais urbano, com a maior parte da população vivendo em cidades (KOHLHEPP, 2002; PRATES e BACHA, 2011).
Em contrapartida, a Amazônia reúne uma extensa rede de áreas protegidas e territórios submetidos a diferentes regimes de conservação e uso sustentável. Em 2010, as áreas protegidas já abrangiam grande parte da Amazônia Legal, incluindo Unidades de Conservação (UCs) de Proteção Integral e de Uso Sustentável,[1] além de Terras Indígenas (TIs). As Terras Indígenas ocupam mais de um milhão de km² e desempenham papel fundamental na conservação da biodiversidade e dos ecossistemas amazônicos (VERÍSSIMO, 2011). Em geral, as áreas protegidas apresentam papel relevante na contenção do desmatamento, da exploração ilegal de madeira, da expansão desordenada da ocupação territorial e de outras pressões sobre os ecossistemas amazônicos. Isso mostra que uma parcela significativa da Amazônia está organizada sob regimes de gestão voltados para conservação e uso sustentável dos recursos naturais. O que, mais recentemente, tem favorecido a ascensão de modelos alternativos às formas predatórias de desenvolvimento que se concentram na extração e no uso insustentável da terra.
Diante desse histórico, é possível afirmar que o desafio amazônico não está em escolher entre desenvolvimento e conservação, mas em substituir um modelo de desenvolvimento baseado na conversão da floresta por outro capaz de gerar prosperidade a partir da manutenção dos ecossistemas e da valorização dos territórios, criando mecanismos econômicos que tornem sua conservação competitiva frente às atividades que promovem seu desmatamento. Desse modo, a economia amazônica não precisa ser construída em oposição à floresta. Pelo contrário, a biodiversidade, os conhecimentos tradicionais e os modos de vida locais constituem ativos econômicos estratégicos para uma trajetória de desenvolvimento sustentável.
A Amazônia, portanto, possui condições únicas para liderar modelos econômicos compatíveis com a conservação ambiental, incluindo mercados de serviços ambientais e mecanismos de valorização da floresta em pé, reforçando a conexão entre mitigação climática, conservação da biodiversidade e inclusão produtiva. Aqui, a sociobioeconomia surge exatamente como uma resposta a tais questões, ao buscar transformar biodiversidade, conhecimentos tradicionais, serviços ecossistêmicos e recursos biológicos em ativos geradores de renda, inovação e inclusão social.
[1] Importante destacar que há uma distinção entre Unidades de Conservação de Proteção Integral e de Uso Sustentável, visto que estas últimas permitem o manejo sustentável dos recursos, a permanência de comunidades locais e o desenvolvimento de atividades econômicas compatíveis com a conservação.
Sociobiodiversidade, mercados e geração de valor
Um dos principais desafios da sociobioeconomia brasileira consiste em ampliar a geração de valor a partir da biodiversidade sem reproduzir padrões históricos de concentração econômica e exclusão social. Conforme estabelecido pelo Plano Nacional de Promoção das Cadeias de Produtos da Sociobiodiversidade, o fortalecimento dessas cadeias deve combinar conservação ambiental, inclusão produtiva e geração de renda para povos e comunidades tradicionais (BRASIL, 2009).
Em diversas cadeias produtivas da sociobiodiversidade, povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e extrativistas permanecem restritos às etapas iniciais da produção, enquanto as atividades de beneficiamento, industrialização, logística e comercialização concentram a maior parcela do valor agregado. Como resultado, os grupos responsáveis pela conservação dos ecossistemas e pela manutenção dos conhecimentos tradicionais capturam apenas uma fração dos benefícios econômicos gerados pelos recursos da biodiversidade (IDESAM, 2024).
A superação desse cenário exige o fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade a partir de uma perspectiva territorial. Para além de ampliar a produção, trata-se de qualificar a participação dos atores locais em diferentes etapas da cadeia de valor, incorporando processos de agregação de valor, beneficiamento, transformação e comercialização. Para isso, tornam-se fundamentais investimentos em infraestrutura produtiva, formação técnica, gestão e governança coletiva, com cooperativas, associações e redes de produtores cumprindo papel estratégico na negociação e no compartilhamento de recursos (ABRAMOVAY, 2019).
O acesso a mercados constitui outro elemento central para a geração de valor. Embora haja crescente demanda por produtos associados à sustentabilidade, à produção responsável e à conservação ambiental, os empreendimentos da sociobiodiversidade frequentemente enfrentam dificuldades relacionadas à escala de produção, regularidade da oferta, exigências sanitárias, certificações e custos logísticos (ABRAMOVAY, 2019). Diante disso, o fortalecimento dos mercados locais e regionais deve ser articulado à ampliação do acesso a mercados institucionais, cadeias de fornecimento empresariais, comércio justo e plataformas digitais (CABRAL; FRAZÃO; TOMCHINSKY, 2024).
A construção dessa nova dinâmica econômica demanda uma visão ampliada sobre ciência, tecnologia e inovação. No contexto da sociobiodiversidade, a inovação não se limita à pesquisa científica convencional ou à introdução de novos equipamentos produtivos, ela resulta da interação entre conhecimentos acadêmicos, saberes tradicionais, experiências comunitárias e soluções desenvolvidas nos próprios territórios (DAGNINO, 2009). Essa perspectiva reconhece as populações locais não apenas como beneficiárias, mas como protagonistas dos processos inovadores, capazes de desenvolver respostas adequadas às especificidades ambientais, culturais e socioeconômicas de cada região.
Como exemplo, é possível citar aplicações concretas nas cadeias amazônicas, tais como rastreabilidade por blockchain, sensoriamento remoto para monitoramento de áreas de manejo e biotecnologia aplicada ao beneficiamento de insumos florestais. Tecnologias que vêm se somando ao conhecimento tradicional para agregar valor e comprovar a origem dos produtos (FERREIRA; RODRIGUES, 2025).
É nesse campo que a Tecnologia Social assume importância estratégica. Mais do que um conjunto de técnicas, ela representa uma metodologia participativa de construção de soluções voltadas ao desenvolvimento sustentável e à inclusão produtiva (FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL, 2025). Ao fortalecer capacidades locais, amplia a autonomia dos territórios e cria condições para que comunidades tradicionais e agricultores familiares participem de forma mais qualificada dos mercados. Além disso, contribui para a disseminação de práticas produtivas sustentáveis, para a conservação dos recursos naturais e para a valorização dos conhecimentos historicamente acumulados pelas populações locais.
O Programa Ecoforte constitui uma referência relevante no campo da Tecnologia Social. Resultado da articulação entre Fundação Banco do Brasil, BNDES, organizações da sociedade civil e instituições públicas, o programa atua de forma conjunta no fortalecimento de redes de agroecologia, extrativismo e produção orgânica em diferentes regiões do país (BNDES; FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL, 2026). Seu diferencial está na atuação em rede e no apoio a soluções construídas a partir das demandas e potencialidades de cada território. Entre as TSs apoiadas destacam-se sistemas agroflorestais, bancos comunitários de sementes, certificação participativa, unidades de beneficiamento e estratégias de comercialização coletiva, que contribuem simultaneamente para a geração de renda, a conservação ambiental e o fortalecimento das organizações locais.
As experiências apoiadas pelo Ecoforte demonstram que a ampliação da escala produtiva não precisa estar associada à concentração econômica. Por meio da cooperação entre empreendimentos, do compartilhamento de infraestrutura e da articulação de redes territoriais, torna-se possível alcançar ganhos de escala que aumentam a competitividade das cadeias da sociobiodiversidade sem comprometer a autonomia das comunidades. Essa lógica contribui para reduzir custos, melhorar a qualidade dos produtos, ampliar a regularidade da oferta e fortalecer o acesso a novos mercados (ARTICULAÇÃO NACIONAL DE AGROECOLOGIA, 2020).
Dessa forma, a competitividade na sociobioeconomia deve ser compreendida de forma mais ampla do que os critérios tradicionais de produtividade e redução de custos. Em mercados cada vez mais atentos às questões socioambientais, atributos como sustentabilidade, rastreabilidade, conservação da biodiversidade, inclusão social e identidade territorial tornam-se fatores relevantes de diferenciação (ABRAMOVAY, 2019; PEREIRA; RAMOS, 2025).
Por fim, a TS, ao conectar ciência, inovação, organização produtiva e mercado, torna-se um instrumento estratégico para transformar biodiversidade em geração de renda, fortalecimento econômico, inclusão social e conservação ambiental, contribuindo para a construção de um modelo de desenvolvimento mais sustentável e enraizado no território.
Desafios para a implementação e expansão da sociobioeconomia
Embora a sociobioeconomia ofereça ao Brasil uma oportunidade de conciliar conservação da biodiversidade, geração de renda e desenvolvimento territorial, transformar esse potencial em cadeias produtivas sustentáveis e escaláveis exige superar obstáculos que vão além da disponibilidade de recursos naturais. O desafio está em conectar a dinâmica ecológica e territorial da sociobiodiversidade às condições necessárias para a inserção estável nos mercados: regularidade de oferta, qualidade, rastreabilidade, capacidade de processamento, segurança jurídica e previsibilidade econômica.
A implementação da sociobioeconomia enfrenta um desequilíbrio estrutural entre as características da produção da sociobiodiversidade e os requisitos dos mercados. Ciclos biológicos, sazonalidade, dispersão territorial e variabilidade da produção contrastam com a demanda empresarial por volume, padronização, qualidade e regularidade. Sem contratos de compra, crédito adequado e capital de giro, produtores e cooperativas têm menor capacidade de investir em beneficiamento, armazenamento, certificação e rastreabilidade; sem oferta previsível, por sua vez, compradores encontram dificuldades para incorporar esses insumos de forma permanente às suas cadeias.
Essa questão é agravada pela infraestrutura disponível nos territórios, especialmente em regiões onde transporte, energia, conectividade, armazenamento e processamento permanecem limitados. A capacidade de agregar valor próximo à origem, portanto, não é apenas uma questão logística, mas também distributiva: quanto maior a dependência da comercialização de matéria-prima sem processamento, menor tende a ser a parcela de valor capturada localmente.
Além dos gargalos produtivos e logísticos, as próprias condições de acesso aos mercados estão se tornando mais exigentes. Regras e padrões relacionados a emissões, rastreabilidade, circularidade e desempenho socioambiental, inclusive em mercados internacionais, elevam a necessidade de informação e governança ao longo das cadeias. No mercado de capitais brasileiro, a Resolução CVM 244/2026 tornou voluntária a adoção dos padrões de sustentabilidade do CBPS e do ISSB, mas estabeleceu permanência mínima de três exercícios para as empresas que optarem pelo reporte. Assim, mesmo quando determinada exigência deixa de ser obrigatória, a capacidade de produzir informações confiáveis sobre impactos, riscos e oportunidades pode continuar sendo relevante para acesso a capital, mercados e parceiros comerciais.
A expansão dessas cadeias depende, ainda, de implementação regulatória coordenada e de condições para que o valor gerado permaneça nos territórios e junto às comunidades e produtores. Nesse contexto, o desafio regulatório decorre da fragmentação do arcabouço jurídico existente, da sobreposição de regimes e da dificuldade de traduzi-los em regras claras e aplicáveis à realidade dos negócios. Essa fragmentação se evidencia na própria diversidade de normas e políticas que podem incidir sobre iniciativas de sociobioeconomia. No plano internacional, a proteção da biodiversidade e o acesso a recursos genéticos são orientados pela Convenção sobre Diversidade Biológica e pelo Protocolo de Nagoya, promulgado pelo Decreto Federal nº 11.865/2023. Já no Brasil, a Lei da Biodiversidade (Lei Federal nº 13.123/2015) disciplina o acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado e a Estratégia Nacional de Bioeconomia (Decreto Federal nº 12.044/2024) que busca promover o uso sustentável da biodiversidade e a transição para uma economia de baixo carbono.
Embora essenciais para determinadas atividades, esses regimes não abrangem, por si só, a complexidade da bioeconomia. É por essa razão que a agenda vem sendo complementada por iniciativas mais amplas, como os Princípios de Alto Nível sobre Bioeconomia do G20, o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), o Prospera Sociobio e outras iniciativas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Esse processo de construção institucional busca preencher lacunas importantes, mas também evidencia um desafio de coordenação. Enquanto essa arquitetura ainda se consolida, empresas podem enfrentar incerteza sobre os requisitos, as competências e os procedimentos aplicáveis aos seus modelos de negócio, elevando custos de conformidade, riscos jurídicos e barreiras ao investimento e à expansão. De outro lado, tal arcabouço jurídico também oferece instrumentos capazes de criar condições favoráveis ao desenvolvimento dessas cadeias, como a Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais (Lei Federal nº 14.119/2021) e mecanismos de financiamento e indução econômica, entre eles o Fundo Amazônia, a Taxonomia Sustentável Brasileira e o Fundo Clima.
O desafio, portanto, não é apenas criar instrumentos, mas articulá-los em um ambiente mais coerente, previsível e capaz de favorecer inovação, investimento e geração de valor nos territórios. A expansão da sociobioeconomia dependerá, portanto, de transformar conformidade, rastreabilidade e governança em capacidades produtivas e competitivas, e não apenas em requisitos adicionais para os negócios. Por isso, um de seus desafios é anterior à própria expansão dessas cadeias: se a natureza ainda não estiver incorporada de forma estruturante à governança e às decisões centrais do negócio, a sociobioeconomia também tende a permanecer à margem da estratégia empresarial.
É justamente nesse ponto que a governança de clima e natureza têm o desafio de passar do reconhecimento da relevância desses temas para sua efetiva incorporação à atuação dos conselhos. No contexto brasileiro, a maturidade dessa governança depende de capacidades e responsabilidades claramente definidas e, sobretudo, de sua tradução em supervisão ativa e decisões concretas, e não apenas em estruturas formais (IBGC, 2026).
Superar esses desafios requer decisões empresariais compatíveis com a realidade dos territórios. Isso envolve ajustar modelos de negócio, dar previsibilidade às relações nas cadeias produtivas e acessar mercados que remunerem produtos e serviços associados à biodiversidade. Nessas condições, a sociobioeconomia passa a integrar a estratégia comercial e operacional das empresas, com efeitos diretos sobre competitividade, oferta e acesso a mercado.
O papel das empresas
De modo geral, o debate sobre sociobioeconomia costuma destacar a extraordinária biodiversidade brasileira como uma vantagem estratégica para o desenvolvimento sustentável. No entanto, a biodiversidade, por si só, não gera desenvolvimento. O que transforma recursos naturais em prosperidade compartilhada são investimentos, inovação, conhecimento, governança e acesso a mercados, como visto anteriormente. Nesse sentido, o papel das empresas vai muito além da aquisição de matérias-primas oriundas da sociobiodiversidade. Sua contribuição mais relevante está na capacidade de fortalecer as condições que permitem que a biodiversidade gere valor econômico, inclusão social e conservação ambiental de forma simultânea.
A Estratégia Nacional de Bioeconomia reconhece que o desenvolvimento da bioeconomia brasileira depende da articulação entre uso sustentável dos recursos biológicos, inovação tecnológica e inclusão social (MMA, 2024). Essa perspectiva é particularmente importante em um país que reúne uma das maiores biodiversidades do planeta e uma ampla diversidade de povos, comunidades tradicionais e agricultores familiares, cujos conhecimentos e práticas constituem parte fundamental do patrimônio socioambiental brasileiro.
Nesse contexto, as empresas podem atuar como indutoras das cadeias da sociobiodiversidade. Embora muitas dessas cadeias apresentem elevado potencial econômico, ainda persistem desafios relacionados ao acesso a crédito, assistência técnica, infraestrutura, logística, certificações e mercados consumidores. O Plano Nacional de Promoção das Cadeias de Produtos da Sociobiodiversidade já apontava que a geração de renda, a conservação ambiental e a inclusão produtiva dependem do fortalecimento dessas estruturas econômicas e organizacionais (MDA; MMA; MDS, 2009). Ao estabelecer relações comerciais estáveis, apoiar a agregação de valor e promover o acesso a novos mercados, as empresas contribuem para aumentar a competitividade e a sustentabilidade dessas atividades.
As decisões de compra também exercem papel estratégico. Cadeias de fornecimento responsáveis não se limitam ao cumprimento de requisitos legais ou à mitigação de riscos reputacionais. Elas podem criar incentivos concretos para práticas produtivas compatíveis com a conservação dos ecossistemas e com a valorização dos territórios de origem dos produtos. Contratos de longo prazo, rastreabilidade, transparência e critérios socioambientais consistentes permitem gerar maior previsibilidade econômica para produtores e empreendimentos locais, fortalecendo atividades que dependem diretamente da manutenção da biodiversidade.
Analogamente, para que o tema de sociobioeconomia seja adotado de forma estruturante na atividade empresarial, uma das agendas que precisa avançar é a inclusão do tema de natureza ao de governança corporativa. Neste sentido, o movimento recente é a incorporação estruturante da natureza ao sistema pelo qual as organizações são regidas e monitoradas (IBGC, 2023), ao lado do espaço que clima já vem (ou deveria estar) sendo incorporado. Em 2026, o World Economic Forum, em parceria com a Chapter Zero Alliance e com colaboração da Deloitte, publicou os Princípios Orientadores para a Governança Climática e da Natureza, reforçando que esses temas devem fazer parte da forma como os conselhos orientam e supervisionam os negócios, e não permanecer restritos à agenda de sustentabilidade (WORLD ECONOMIC FORUM, 2026).
Essa integração parte do reconhecimento de que clima e natureza são interdependentes. A mudança climática é um importante vetor de perda de ecossistemas, enquanto ecossistemas saudáveis armazenam carbono e ajudam a moderar seus impactos; para os conselhos, isso significa considerar os dois temas conjuntamente, inclusive porque seus efeitos podem se acumular e exigir uma supervisão integrada (WORLD ECONOMIC FORUM, 2026). Um referencial complementar é o Asking Better Questions on Nature, da Taskforce on Nature-related Financial Disclosures. O guia parte justamente da premissa de que natureza não deve ser tratada como um tema isolado das equipes de sustentabilidade ou reporte, mas integrada aos processos centrais de decisão da organização; para isso, oferece perguntas que ajudam os conselheiros a compreender as dependências e impactos da empresa sobre a natureza e sua relação com o clima (TNFD, 2025).
A inovação é outro elemento central para a consolidação da sociobioeconomia. Nesse contexto, inovar não significa apenas desenvolver novas tecnologias, mas conectar conhecimento científico e conhecimentos tradicionais para criar produtos, serviços e soluções capazes de responder aos desafios econômicos, sociais e ambientais contemporâneos. A Estratégia Nacional de Bioeconomia destaca justamente a integração entre ciência, tecnologia e saberes tradicionais como um dos pilares para o desenvolvimento da bioeconomia brasileira (MMA, 2024). Um exemplo concreto é o programa Inova Amazônia do Sebrae, que estimula empreendimentos e novos negócios a pesquisar e usar a biodiversidade com inovação aberta aliada à conservação ambiental. (SEBRAE, 2026). Essa combinação amplia as possibilidades de geração de valor em setores como alimentos, cosméticos, bioinsumos, fitoterápicos, biomateriais e soluções baseadas na natureza.
Além de investir em inovação, as empresas podem contribuir para a construção de modelos de negócio mais inclusivos. Um dos riscos associados à expansão dos mercados ligados à biodiversidade é a concentração dos benefícios econômicos nos elos mais estruturados das cadeias produtivas, enquanto os territórios produtores permanecem com uma parcela reduzida do valor gerado. A simples comercialização de produtos da biodiversidade não garante desenvolvimento territorial. Por isso, mecanismos de governança, transparência e repartição justa de benefícios são fundamentais para assegurar que a geração de valor esteja associada à valorização dos conhecimentos, práticas e modos de vida dos povos e comunidades que contribuem para a conservação dos ecossistemas. Essa preocupação está presente, inclusive, na definição oficial de produtos da sociobiodiversidade estabelecida pela Portaria Interministerial nº 239/2009 (MDA; MMA; MDS, 2009).
As experiências mais bem-sucedidas demonstram que a construção de parcerias duradouras entre empresas, comunidades, organizações territoriais, instituições de pesquisa e sociedade civil tende a produzir resultados mais consistentes e sustentáveis. O estudo Bioeconomia na Amazônia: análise conceitual, regulatória e institucional destaca que a geração de valor a partir da biodiversidade depende da articulação entre diferentes atores e do fortalecimento das capacidades locais (CPI, 2022). Isso exige relações baseadas em confiança, diálogo e corresponsabilidade, nas quais os territórios sejam reconhecidos não apenas como espaços de produção, mas como ambientes que concentram conhecimentos, identidades culturais e ativos socioambientais fundamentais para a sustentabilidade das cadeias produtivas.
Em um cenário marcado pela emergência climática e pela crescente perda de biodiversidade, a sociobioeconomia oferece uma oportunidade concreta para alinhar competitividade empresarial, conservação da natureza e inclusão produtiva. O Relatório Global de Avaliação da Biodiversidade e dos Serviços Ecossistêmicos do IPBES (2019) demonstra que a proteção dos ecossistemas e a manutenção dos serviços prestados pela natureza são condições indispensáveis para o desenvolvimento econômico e o bem-estar das sociedades. Ao fortalecer cadeias da sociobiodiversidade, promover inovação e apoiar o desenvolvimento dos territórios, as empresas podem contribuir para uma economia mais resiliente, de baixo carbono e positiva para a natureza, além de atuarem como parceiras na construção de um novo modelo de desenvolvimento.
Conclusão e recomendações
A sociobioeconomia emerge como uma das mais promissoras estratégias para responder simultaneamente a três dos maiores desafios do século XXI: a crise climática, a perda acelerada da biodiversidade e a persistência das desigualdades sociais. Ao longo deste artigo, buscou-se demonstrar que essas agendas não podem ser tratadas de forma isolada. Os impactos das mudanças climáticas afetam diretamente os ecossistemas, comprometem serviços ecossistêmicos essenciais à produção de alimentos e à segurança hídrica e ampliam vulnerabilidades sociais já existentes. Da mesma forma, a degradação da biodiversidade reduz a resiliência dos territórios e limita oportunidades econômicas associadas ao uso sustentável dos recursos naturais.
No contexto brasileiro, a sociobioeconomia oferece uma oportunidade singular de construir um modelo de desenvolvimento capaz de transformar biodiversidade, conhecimento e território em prosperidade compartilhada. O país reúne ativos estratégicos que poucos países possuem simultaneamente: uma das maiores biodiversidades do mundo, ampla diversidade cultural, sistemas de conhecimentos tradicionais acumulados ao longo de gerações e experiência consolidada em iniciativas de desenvolvimento territorial, agroecologia e tecnologias sociais. Mas, o que determinará o sucesso da sociobioeconomia será a capacidade de construir mecanismos de governança, inovação, financiamento e mercado que permitam às populações locais participarem efetivamente da geração e da apropriação do valor econômico produzido.
Conforme discutido ao longo do artigo, essa tecnologia social não deve ser compreendida apenas como um conjunto de técnicas ou metodologias de baixo custo, mas como uma abordagem baseada na participação, na coprodução de conhecimento, na valorização dos saberes locais e na construção de soluções adequadas às realidades de cada território. As experiências como do Programa Ecoforte demonstram que a geração de renda, a conservação ambiental e o fortalecimento comunitário podem caminhar juntos quando existe articulação entre organizações sociais, instituições públicas, sistemas de conhecimento e mercados comprometidos com o desenvolvimento sustentável.
A consolidação da sociobioeconomia exige uma visão de longo prazo e uma ação coordenada entre diferentes atores sociais e institucionais. Abaixo reunimos algumas recomendações que podem contribuir para acelerar essa transição:
- Para as empresas, recomenda-se incorporar a sociobioeconomia às estratégias de negócio, fortalecendo cadeias da sociobiodiversidade por meio de relações comerciais de longo prazo, mecanismos de rastreabilidade, agregação de valor nos territórios e repartição justa de benefícios. A biodiversidade deve ser reconhecida como elemento estratégico para inovação, competitividade e geração de valor sustentável.
- Para o poder público, torna-se fundamental ampliar e integrar políticas voltadas à sociobioeconomia, à agroecologia e ao desenvolvimento territorial. Isso inclui fortalecer mecanismos de assistência técnica, ampliar o acesso a mercados institucionais, estimular instrumentos de financiamento adequados às especificidades das cadeias da sociobiodiversidade e consolidar ambientes regulatórios que ofereçam segurança jurídica para investimentos e iniciativas comunitárias.
- Às instituições financeiras e de fomento cabe desenvolver instrumentos compatíveis com a realidade dos territórios e das organizações locais. Além do crédito, é necessário ampliar investimentos em fortalecimento institucional, infraestrutura produtiva, assistência técnica e tecnologia social, reconhecendo que resultados econômicos sustentáveis dependem da construção de capacidades coletivas e da manutenção dos ativos socioambientais.
- Para a academia e a sociedade civil, o desafio está em ampliar a produção de conhecimento aplicado, fortalecer processos de sistematização e disseminação de experiências e promover espaços de diálogo entre diferentes formas de conhecimento. A interação entre ciência, saberes tradicionais e tecnologias sociais será cada vez mais relevante para a construção de soluções inovadoras capazes de responder à complexidade dos desafios contemporâneos.
A liderança brasileira na sociobioeconomia não será medida apenas pela capacidade de gerar riqueza a partir da biodiversidade, mas, sobretudo, pela capacidade de transformar essa riqueza em desenvolvimento territorial, inclusão social, conservação ambiental e bem-estar coletivo. A construção desse futuro depende da articulação entre Estado, empresas, instituições de pesquisa, organizações sociais e comunidades locais. Não se limitando a uma agenda econômica, a sociobioeconomia representa uma oportunidade concreta de construir um futuro mais resiliente, justo e alinhado aos desafios da atualidade.
Referências
ABRAMOVAY, Ricardo. Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza. São Paulo: Elefante, 2019.
ARTICULAÇÃO NACIONAL DE AGROECOLOGIA (ANA). Redes de agroecologia para o desenvolvimento dos territórios: aprendizados do Programa Ecoforte. 1. ed. Rio de Janeiro: ANA, 2020.
BRANDÃO, Diego Oliveiro; ARIEIRA, Julia; NOBRE, Carlos A. Impactos das mudanças climáticas na sociobioeconomia da Amazônia. Estudos Avançados, São Paulo, v. 38, n. 112, p. 249-270, 2024.
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Artigo colaborativo, construído no âmbito do Grupo de Trabalho de Meio Ambiente do Instituto Ethos, por:
Alexsandra Moraes, Assessora Executiva em Sustentabilidade do Senac Brasil
Andréia Moreira Barbosa, Analista de Estratégia e Transformação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae)
Brenda Rocha, Analista de Cidadania Corporativa Sênior da Firjan
Caio Norões de Lima, Comprador Técnico da FIOTEC/FIOCRUZ
Camila Fagundes, Consultora ESG na ESG Now,
Carolina Helena Oliveira Da Silva, Analista de Negócios em Responsabilidade Social da Firjan
Fabrício Erick de Araújo, Assessor da Fundação Banco do Brasil
Fernanda Braun Lara, Advogada Pleno no Gaia, Silva, Gaede Advogados/ Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)
Giovanna Costa Sousa, Analista de Projetos e Serviços em Meio Ambiente e Clima do Instituto Ethos
Israel Schneiberg, Coordenador de Natureza e Biodiversidade da I Care Brasil
Mariana Rodrigues da Silva, Advogada Sênior no Gaia, Silva, Gaede Advogados/ Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)
Rodrigo Sluminsky, Sócio do Gaia, Silva, Gaede Advogados/Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)
Sergio Augusto Portes de Souza, Assessor da Gerência de Projetos da Fundação Banco do Brasil
Thais Domingues, Especialista de Relações Institucionais e Governamentais do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)












