O trabalho decente deixou de ser tema de nicho e passou a atravessar as principais discussões do mundo corporativo e da sociedade brasileira: da saúde mental à escala 6×1, da sobrecarga de cuidado às mudanças climáticas. Ao longo de 2026, o Instituto Ethos tem reunido empresas, especialistas e parceiros para mostrar que essas pautas são faces de uma mesma agenda. 

Um conceito que vai além do emprego 

Formulado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 1999, o trabalho decente é a promoção de oportunidades de trabalho produtivo e adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade humana. Ele se apoia em quatro pilares: emprego produtivo, direitos no trabalho, proteção social e diálogo social. 

Na prática, isso significa olhar para remuneração digna, jornadas equilibradas, segurança no ambiente de trabalho, não discriminação e respeito à dignidade das pessoas, e não apenas para a geração de vagas ou o cumprimento formal da lei. 

Saúde mental: de ação pontual a responsabilidade estrutural 

No encontro do Grupo de Trabalho de Empresas e Direitos Humanos sobre “Trabalho Decente e Saúde Mental”, especialistas lembraram que o INSS registrou mais de 500 mil afastamentos por transtornos mentais no último ano. Com a atualização da NR-1, que passa a incluir fatores de riscos psicossociais na gestão ocupacional, o debate mostrou que iniciativas isoladas de autocuidado não bastam. É preciso perseguir a segurança psicológica e enfrentar o assédio e as metas incompatíveis com a realidade das equipes e culturas baseadas em urgência constante. 

Jornada e custos que não aparecem na planilha 

Em artigo para o Nexo Jornal, o diretor-presidente do Instituto Ethos, Caio Magri, destacou que reduzir o debate sobre a escala 6×1 à lógica dos custos empresariais é inadequado. Segundo dados da OIT citados por ele, mais de 840 mil pessoas morrem por ano no mundo por problemas associados a riscos psicossociais no trabalho, com perdas econômicas de até 1,37% do PIB global. Para o Ethos, competitividade e trabalho decente não são objetivos incompatíveis. 

Cuidado e clima: desigualdades que chegam ao trabalho 

As mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a atividades domésticas e de cuidado, contra 11,7 horas dos homens (PNAD Contínua 2022). Cerca de 70% das trabalhadoras domésticas no país são mulheres negras. Nesse contexto, o Ethos atua em parceria com a Secretaria Nacional da Política de Cuidados e Família, do MDS, na elaboração de um guia para apoiar as empresas na implementação da Política Nacional de Cuidados. 

Já o artigo colaborativo do GT de Meio Ambiente mostra que a crise climática também é uma crise de direitos laborais: segundo a OIT, 2,4 bilhões de trabalhadores estão expostos a calor excessivo, com cerca de 18.970 mortes ocupacionais por ano. 

O papel das empresas 

Em todas essas frentes, a mensagem é a mesma: as organizações não são espectadoras. Revisar políticas de saúde e segurança, discutir jornada e descanso, apoiar a conciliação entre trabalho e cuidado, mapear riscos na cadeia de fornecedores e abrir canais de diálogo com trabalhadores são caminhos concretos para sair de uma lógica de conformidade e avançar para uma atuação estratégica. 

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