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A quantas andam os Objetivos do Milênio

28/08/2013

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Boa parte das metas sociais foram atingidas ou estão bem encaminhadas, mas o cumprimento das estritamente ambientais deixa muito a desejar.

Por Regina Scharf*

A dois anos do fim do prazo estabelecido para que os países-membros da ONU alcancem os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) acordados em 2000, boa parte das metas sociais foram atingidas ou estão bem encaminhadas (ao menos na média global, mas com grandes disparidades regionais). Entretanto, o cumprimento das metas estritamente ambientais deixa muito a desejar. As Nações Unidas lançaram em julho um relatório que faz um balanço dos progressos obtidos e dos desafios que persistem com base nos dados de mais de 27 agências internacionais. Versões em inglês, espanhol e francês podem ser obtidas on-line. Uma das áreas com ganhos mais significativos foi a da saúde. Entre 2000 e 2010:

  • as mortes por malária caíram mais de 25% e cerca de 1,1 milhão de mortes foram evitadas;
  • os óbitos por tuberculose também caíram dramaticamente e a meta de redução de 50% em relação aos números de 1990 parece factível;
  • o número de casos de infecção por HIV também caiu consideravelmente e 8 milhões de portadores do vírus em países em desenvolvimento têm acesso à terapia antirretroviral (o relatório indica que será possível universalizar esse acesso até 2015);
  • A taxa de mortalidade de crianças menores de 5 anos despencou 41% – de 87 mortes por 1.000 nascidos vivos em 1990 para 51 em 2011 (com maior concentração no primeiro mês de vida), tendo ocorrido uma redução total de 14 mil mortes diárias. A má notícia é que uma em cada seis crianças com menos de 5 anos tem peso abaixo do recomendado e uma em cada quatro tem o seu desenvolvimento atrasado; e 7% delas estão acima do peso;
  • A taxa de mortalidade materna também caiu drasticamente: 47% nas últimas duas décadas, de 400 para 210 mortes por 100 mil partos (de nascidos vivos) entre 1990 e 2010. Mas o relatório avalia que não será fácil cumprir a meta de redução dos números de 1990 em três quartos.

Quanto à pobreza:

  • A meta global de reduzir a pobreza extrema à metade foi atingida cinco anos antes do prazo. Nos países em desenvolvimento, a porcentagem dos que vivem com menos de US$ 1,25 por dia caiu de 47% do conjunto da população, em 1990, para 22% em 2010. Cerca de 700 milhões de pessoas deixaram a pobreza em 20 anos. A China liderou o processo – a porcentagem dos chineses que vivem na miséria passou de 60% em 1990 para 16% em 2005 e 12% em 2010. A África Subsaariana e o Sul da Ásia continuam sendo, previsivelmente, as regiões mais miseráveis do planeta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O gráfico mostra bem as disparidades regionais: proporção da população que vive com menos de US$ 1,25 por dia (1990, 2000 e 2010). De cima para baixo: África Subsaariana; Sul da Ásia; Sul da Ásia, excluída a Índia; Sudeste Asiático; Leste da Ásia (dados exclusivamente da China); América Latina e Caribe; Oeste da Ásia; e Norte da África.

  • A meta de reduzir à metade a porcentagem dos que têm fome também poderá ser alcançada dentro do prazo, segundo o relatório. A proporção de desnutridos caiu de 23,2% do conjunto da população em 1990-1992 para 14,9% em 2010-2012. Mas uma em cada oito pessoas ainda é cronicamente desnutrida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

População desnutrida em países em desenvolvimento, em milhões de indivíduos e porcentagem do conjunto da população.

  • O número de habitantes de favelas e outras habitações de baixa qualidade está caindo. Entre 2000 e 2010, mais de 200 milhões de pessoas nessas comunidades ganharam “um melhor acesso a fontes de água, saneamento, casas de qualidade ou mais espaço para viver” (uma declaração um tanto vaga, a meu ver), o dobro da meta dos ODM;
  • A crise financeira dos últimos anos teria incrementado o número global de desempregados em 67 milhões, enquanto o número de desalojados ou exilados por razões políticas ou algum tipo de perseguição é o maior em 18 anos (cerca de 45,1 milhões de pessoas no final do ano passado).
  • E boas notícias na educação: entre 2000 e 2011, o número de crianças fora da escola primária caiu quase pela metade – de 102 milhões para 57 milhões. O problema é que os avanços desse indicador começaram a perder força e é improvável que a meta de universalizar a educação até 2015 seja cumprida.

No meio ambiente, informações geralmente pessimistas, com algum alento aqui e ali. As emissões globais de dióxido de carbono continuam a aumentar – hoje elas são mais de 46% superiores ao seu nível em 1990. A cobertura florestal desaparece em ritmo alarmante e a sobrepesca está diminuindo a captura de espécies marinhas. A extensão de áreas protegidas tem crescido, mas a biodiversidade enfrenta uma onda crescente de extinções, com declínio de populações e sua distribuição. Entretanto:

  • As metas de acesso a água de qualidade foram cumpridas bem antes do prazo final. Nos últimos 21 anos, 2,1 bilhões ganharam acesso a água potável, mas 11% da população global ainda não tem esse direito na prática;
  • De 1990 a 2011, 1,9 bilhão de pessoas ganharam acesso a instalações sanitárias (latrina ou privada com descarga) ou outra melhoria nas instalações de saneamento. Entretanto, 2,5 bilhões ainda têm problemas sérios de acesso ao saneamento e é possível que as metas para esse indicador não sejam cumpridas até 2015.

Naturalmente esses indicadores, como todas as médias, escondem imensas disparidades regionais, entre diferentes grupos sociais ou entre homens e mulheres. Alguns exemplos:

  • Em 2011, apenas 53% dos nascimentos em áreas rurais foram assistidos por profissionais de saúde qualificados, em contraste com 84% nas áreas urbanas;
  • Cerca de 83% dos que não têm acesso a água potável vivem em comunidades rurais.

A ONU também indicou que os países ricos têm reduzido progressivamente a ajuda dada aos países em desenvolvimento para que atinjam os ODM. Em 2012, esses recursos ficaram na casa de US$ 126 bilhões, 4% a menos em termos reais do que em 2011, total que, por sua vez, foi 2% abaixo dos níveis de 2010. Em compensação, os países em desenvolvimento estariam se beneficiando da redução dos encargos de suas dívidas e de um melhor acesso ao comércio internacional.

* Regina Scharf é jornalista brasileira radicada nos Estados Unidos. Sua cobertura de temas ambientais, iniciada em meados dos anos 1980, rendeu prêmios como o Reuters-IUCN (América Latina) e o Ethos de Jornalismo.

Artigo publicado originalmente no site da revista Página 22, em 1º de julho de 2013.

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Este texto faz parte da série de artigos de especialistas promovida pela área de Gestão Sustentável do Instituto Ethos, cujo objetivo é subsidiar e estimular as boas práticas de gestão.

Veja também:
– A promoção da igualdade racial pelas empresas, de Reinaldo Bulgarelli;
– Relacionamento com partes interessadas, de Regi Magalhães;
– Usar o poder dos negócios para resolver problemas socioambientais, de Ricardo Abramovay;
– As empresas e o combate à corrupção, de Henrique Lian;
– Incorporação dos princípios da responsabilidade social, de Vivian Smith;
– O princípio da transparência no contexto da governança corporativa, de Lélio Lauretti;
– Empresas e comunidades rumo ao futuro, de Cláudio Boechat;
– O capital natural, de Roberto Strumpf;
– Luzes da ribalta: a lenta evolução para a transparência financeira, de Ladislau Dowbor;
– Painel de stakeholders: uma abordagem de engajamento versátil e estruturada, de Antônio Carlos Carneiro de Albuquerque e Cyrille Bellier;
– Como nasce a ética?, de Leonardo Boff;
– As empresas e o desafio do combate ao trabalho escravo, de Juliana Gomes Ramalho Monteiro e Mariana de Castro Abreu;
– Equidade de gênero nas empresas: por uma economia mais inteligente e por direito, de Camila Morsch;
– PL n° 6.826/10 pode alterar cenário de combate à corrupção no Brasil, de Bruno Maeda e Carlos Ayres;
– Engajamento: o caminho para relações do trabalho sustentáveis, de Marcelo Lomelino;
– Sustentabilidade na cadeia de valor, de Cristina Fedato;
– Métodos para integrar a responsabilidade social na gestão, de Jorge Emanuel Reis Cajazeira e José Carlos Barbieri;
– Generosidade: o quarto elemento do triple bottom line, de Rogério Ruschel;
– O que mudou na sustentabilidade das empresas, de Dal Marcondes;
Responsabilidade social empresarial e sustentabilidade para a gestão empresarial, de Fernanda Gabriela Borger;
Os Dez Mandamentos da empresa responsável, de Rogério Ruschel;
O RH como alavanca da estratégia sustentável, de Aileen Ionescu-Somers;
Marcas globais avançam na gestão de resíduos sólidos, de Ricardo Abramovay;
Inclusão e diversidade, de Reinaldo Bulgarelli;
Da visão de risco para a de oportunidade, de Ricardo Voltolini; e
Medindo o bem-estar das pessoas, de Marina Grossi.

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