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Costa Rica: fenômeno do futebol começou com gestão responsável

27/06/2014

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Empresários, times e governos concordavam que o futebol ajudaria a projetar o país no mundo, mas como participar desse jogo para ganhar?       

Por Caio Magri*

A Costa Rica é um pequeno país da América Central, sem tradição no futebol e que está dando um “banho” em países considerados mais fortes. Na Copa 2014, ganhou do Uruguai, da Itália, empatou com a Inglaterra e terminou em primeiro lugar no chamado “grupo da morte”.

Quem curte Milton Nascimento deve conhecer a música Coração Civil, cujos versos dizem “San José da Costa Rica, coração civil / Me inspire no meu sonho de amor, Brasil”.

De fato, o país aboliu o exército em 1º de dezembro de 1948, substituído por uma guarda civil, e perpetuou esse fato na constituição de 1949. E, mesmo integrando um continente conturbado e tendo muitos problemas comuns à região, é o único país da América Latina incluído na lista das 22 democracias mais antigas do mundo.

A Costa Rica está à frente do Brasil no que diz respeito à sustentabilidade. Em 2012, foi considerada o país com melhor desempenho ambiental do continente americano e o quinto do mundo. Tem uma lei severa que protege a biodiversidade e, desde que aboliu o Exército, destina as verbas de defesa para investir no ecoturismo e no manejo sustentável das florestas.

Esse rigor com o meio ambiente foi transformado em sentimento cívico da população, que tem orgulho dos parques nacionais e da escolha que os sucessivos governos vêm fazendo em favor do meio ambiente, em vez de investir em atividades mais rentáveis, como a mineração.

Nem por isso, o desenvolvimento humano é deixado de lado. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), a Costa Rica possui o sétimo melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da América Latina e o segundo da América Central. Sua posição, nesse ranking, é melhor do que a brasileira. Em 2013, o Pnud informou que o IDH do Brasil era de 0,73, com o país ocupando a 85ª posição entre 186 avaliados.  O IDH da Costa Rica foi de 0,77, e o país ocupa o 62º lugar.

Mas onde entra o futebol nisso?

Ao contrário de outros países da região, o futebol é o esporte mais popular da Costa Rica. Mas, os times locais nunca obtiveram maior projeção regional e nem mesmo a seleção conseguia bom desempenho diante dos adversários da América Central.

Até os anos 1990, o futebol costarriquenho permanecia sendo um esporte semiamador, sem times, ligas e federação bem organizados. Justamente, nessa década, esse esporte atingiu outro status no mundo, com os clubes se transformando em empresas e buscando patrocinadores. E a Copa do Mundo tornando-se um evento global e midiático.

Empresários, times e governos concordavam que o futebol ajudaria a projetar a Costa Rica no mundo, mas como participar desse jogo para ganhar? Fazendo diferente. E o que poderia ser diferente? Não seria no futebol em si, jogado entre as quatro linhas do gramado, mas na maneira de gerenciá-lo.

Num mundo cada vez mais globalizado, no qual futebol virou sinônimo de dinheiro e patrocínio, nada como voltar às raízes, isto é, buscar a identificação dos times com a comunidade.

Foi pensando assim que Roberto Artavia, professor da Incae Business School, da Costa Rica, elaborou um projeto para desenvolver o futebol no país – “A Indústria do Futebol: Responsabilidade Social e Promoção de Valores”.

Gestão responsável no futebol

Para Artavia, a RSE no futebol ocorre em três níveis: na comunidade em geral, porque promove valores desejáveis e contribui para a ocupação de espaços esportivos ociosos; na indústria do esporte, porque qualquer clube, por menor que seja, tem torcida e pode crescer; e na gestão interna de cada equipe, com a formação do atleta, a preparação para o pós-carreira e, mesmo, a integração familiar.

A gestão responsável de um clube, nos moldes do negócio que o futebol é hoje, foi desenhada pela Incae da seguinte maneira:

–      Forjar uma estratégia e uma equipe baseada em valores e na força da imagem do time na comunidade;

–      Capacitar os jogadores para fazer muito mais do que jogar futebol. Isto quer dizer que, desde a base, eles serão preparados para estudar e ter uma profissão, caso a carreira de jogador não dê certo. Se conseguirem firmar-se, devem entender perfeitamente qual é o papel deles na comunidade, no clube e na “indústria do futebol”;

–      Alinhar os objetivos com os recursos existentes (financeiros, físicos, etc.).

Esse plano era bonito no papel. Mas quem seria o investidor disposto a bancá-lo no mundo real? E com um time na Costa Rica?

Pois esse investidor apareceu no início dos anos 2000. Jorge Vergara, empresário mexicano que já comprara o Chivas no México e o Chivas USA, decidiu arriscar na Costa Rica: comprou o Saprissa para disseminar sua marca, a Omnilife, no país. No caso específico desse time, Vergara resolveu adotar a estratégia proposta pela Incae.

Assim, os dirigentes do Saprissa aceitaram critérios-chave, considerados imprescindíveis para o sucesso do projeto:

–      Contratar somente jogadores costariquenhos;

–      Limitar a concessão comercial na camisa do clube;

–      Lançar marcas próprias do time (Sapricola, Saprisnacks etc.);

–      Atuar na comunidade, com ações que contribuam para fortalecer a marca Saprissa;

–      Diversificar a prática de esportes, para atrair outros atletas e mesmo membros da comunidade.

A Omnilife também abriu escolinhas de futebol em seus mercados mais fortes, fez parceria com a Prefeitura de San José (a capital do país) para manutenção de campos e de equipes infantis e juvenis em bairros da periferia, alugou esses campinhos para jogos entre empresas e fundou a escola e a universidade do futebol, para capacitar profissionais nesse esporte.

A nova gestão do Saprissa foi muito bem-sucedida. Em 2005, o clube participou do Campeonato Mundial Interclubes, no Japão, porque venceu a Liga de Clubes Campeões da Concacaf, derrotando principalmente times mexicanos. Esse sucesso exigiu que os demais clubes do país também investissem na modernização, influenciando a federação de futebol da Costa Rica.

Campeonato Nacional

Atualmente, seis ligas compõem a Federación Costarricense de Fútbol, a saber: Unafut (Primeira Divisão), Lifuse (Segunda Divisão, a Liga de Acesso), Anafa (futebol de juniores), Afusco (futebol de salão), Adefupla (futebol de praia) e Adeliffe (futebol feminino).

A Unafut já tem como objetivo específico promover, por meio dos jogos dos grandes times do país, a identidade comunitária e a coesão social. Os técnicos, dirigentes e executivos dos clubes estão sendo capacitados para atuar também nesse sentido.

Por meio de uma parceria com o Colégio de Engenheiros e Arquitetos do país (uma espécie de Crea de lá), os estádios estão sendo reformados para atender um padrão mínimo de segurança, higiene e acessibilidade – o “padrão Costa Rica” de estádios: sem luxo, mas com todos os equipamentos para o torcedor frequentar e torcer com segurança.

A federação nacional também iniciou uma campanha para estimular as empresas a usar o investimento social privado em projetos de futebol, seja apoiando escolinhas, seja financiando técnicos para times comunitários (o equivalente a nossos “times de várzea”).

A Costa Rica também criou as primeiras fundações de times de futebol. A ideia é usar o poder de convocação dos times de futebol para mobilizar a sociedade civil para projetos que beneficiem jovens e outros setores mais carentes da população. O Saprissa, que iniciou esse projeto, há três anos é uma fundação e desenvolve ações com ONGs de educação, moradia e esportes paraolímpicos a fim de fazer-se conhecer por esse público, contribuir na arrecadação de fundos e incentivar a torcida a fazer trabalhos voluntários nessas entidades, entre outras ações.

Três equipes, entre elas o Saprissa, têm parcerias com governos locais para levar jovens em risco social para assistir a partidas de futebol no estádio do time e participar dos programas que os times mantêm. O Saprissa, por exemplo, a cada jogo que realiza em seu estádio, leva 80 jovens indicados por ONGs parceiras. Esses jovens são escolhidos de acordo com o desempenho escolar e a participação na vida comunitária.

Em parceria com especialistas, muitos times da primeira divisão abriram centros comunitários de reciclagem de resíduos sólidos, para aproveitar a localização e o espaço existente nos estádios.

Já imaginou se Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Santos, enfim, todos os times do campeonato nacional usassem a força de suas marcas e o poder de convocação que têm sobre as torcidas para ajudar as comunidades e bairros onde os próprios torcedores moram? Bem, esse é um sonho que a Costa Rica inspira.

* Caio Magri é diretor de Operações, Práticas Empresariais e Políticas Públicas do Instituto Ethos.

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