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Empresas e distribuição de renda

23/01/2015

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Relatório da Oxfam sobre desigualdade é ponto de partida para as discussões sobre modelo econômico e distribuição de renda em Davos.      

Por Jorge Abrahão*

A ONG humanitária Oxfam divulgou na semana passada um relatório mostrando que as 85 pessoas mais ricas no mundo possuem um patrimônio de US$ 1,7 trilhão de dólares, o que equivale ao patrimônio das 3,5 bilhões de pessoas mais pobres do mundo. O relatório afirma ainda que a riqueza do 1% das pessoas mais ricas do mundo equivale a um total de US$ 110 trilhões, 65 vezes a riqueza total da metade mais pobre da população mundial.

Esse relatório serviu de ponto de partida para as discussões sobre modelo econômico e distribuição de renda no Fórum Econômico de Davos, que começou no dia 21 de janeiro e vai até este sábado (24/1).

A pergunta que a Oxfam faz aos participantes do evento é: “Afinal, queremos viver num mundo onde 1% da população tem mais do que todo o resto? Queremos de fato essa desigualdade assombrosa?”.

Os dados da pesquisa

O relatório da Oxfam, que se chama Equilibre o Jogo: É Hora de Acabar com a Desigualdade Extrema (Even It up: Time to End Extreme Inequality), ressalta que, embora tenha havido crescimento econômico em países emergentes, a desigualdade interna continua enorme e crescente, pois sete entre dez pessoas vivem em países nos quais a distância entre ricos e pobres é maior do que há 30 anos.

A Oxfam calculou que, em 2014, a soma das fortunas das 85 pessoas mais ricas do mundo era igual às posses da metade mais pobre da humanidade – 3,5 bilhões de seres humanos. A maioria desses pobres não tem acesso a água potável, a comida suficiente, a saúde e a educação. E, por conta desse quadro de escassez, também suporta a violência de conflitos tribais, guerras civis e aquela decorrente da desagregação urbana.

Na outra ponta desse espectro, Bill Gates, o homem mais rico do mundo, segundo a revista Forbes e a agência Bloomberg, se gastasse um US$ 1 milhão por dia, levaria 218 anos para gastar parte de sua fortuna. Mesmo com modesto retorno de 2% sobre seu patrimônio, Gates ganharia US$ 4,2 milhões por dia só de juros. No continente africano, esse disparate é ainda maior: existem 16 bilionários na África subsaariana (ao sul do Saara, colonizada por europeus, uma das áreas mais pobres do mundo), ao lado de 358 milhões de pessoas vivendo em extrema miséria.

Soluções para o cenário

A Oxfam calculou que, se um imposto de 1,5% sobre a fortuna dos bilionários tivesse sido estipulado logo após a crise de 2008 e a quantia arrecadada imediatamente usada em melhorias sociais, poderiam ter sido salvas da pobreza extrema 23 milhões de pessoas nos 49 países mais pobres do planeta. Em 2014, esse mesmo imposto arrecadaria o suficiente para financiar a cobertura universal de saúde nesses 49 países por um ano ou garantir acesso à escola para todas as crianças do mundo.

Ao apresentar esses dados comparativos, a Oxfam quis ressaltar que a desigualdade não é algo inevitável, mas fruto das escolhas feitas. Assim sendo, a organização lista uma série de medidas para governos e empresas.

O primeiro passo que ela indica para combater o problema é “rejeitar o fundamentalismo de mercado”, mudando as regras e os sistemas que ocasionaram o atual cenário de devastação social e econômica.

Como fazer isso?

A Oxfam listou nove ações que podem ser adotadas por governos e empresas. Vamos nos ater ao que as corporações podem fazer.

– Governos trabalhando para os cidadãos e combate à desigualdade. As corporações podem usar seu poder de influência (lobby) nos congressos para instar parlamentares a aprovar políticas públicas mais distributivas. Também podem incentivar os cidadãos a se engajar no processo político;

– Promoção da igualdade econômica de gênero e dos direitos das mulheres. Acabar com as diferenças salariais entre homens e mulheres que executam as mesmas tarefas; garantir oportunidade de emprego para todas as mulheres; reconhecer a importância do trabalho doméstico (cuidados com crianças e mais velhos) e promover iniciativas que facilitem essas tarefas, como licenças para cuidar de pais doentes, horários flexíveis e ajuda profissional paga (via sistema de saúde, por exemplo);

– Salários dignos a todos os trabalhadores e fim das grandes distâncias em relação à remuneração dos executivos;

– Carga tributária justa e imposto global sobre a riqueza;

– Fechar brechas internacionais fiscais e tapar buracos da governança fiscal;

– Serviços públicos gratuitos e de alta qualidade até 2020;

– Mudança no sistema global de pesquisa e desenvolvimento e preços de medicamentos acessíveis para que todos tenham acesso adequado a tratamentos;

– Implementação de piso de proteção social universal;

– Financiamentos direcionados para a redução das desigualdades e para o fortalecimento do pacto entre os cidadãos e seus governos.

No Brasil, muitas dessas propostas podem ser adotadas pelos governos, em todos os âmbitos federativos, e pelas empresas também. O próprio relatório reconhece que, mesmo com os avanços obtidos, nosso país ainda tem um longo caminho para superar as desigualdades.

* Jorge Abrahão é diretor-presidente do Instituto Ethos.

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