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Felicidade, consumo e sustentabilidade

07/06/2013

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Interessante como a felicidade entrou em cheio nas discussões não apenas das pessoas, mas também dos economistas, das empresas e dos governos.

Por Paulo Itacarambi*

Uma grande rede de supermercados lançou um comercial baseado numa trilha sonora que pergunta: “O que você faz para ser feliz?”. E, enquanto rola a música, aparecem imagens de almoços em família, encontros de namorados, brincadeiras de crianças etc. E a letra lembrando que pra ser feliz é só começar.

Interessante como a felicidade entrou em cheio nas discussões não apenas das pessoas, mas também dos economistas, das empresas e dos governos. Esta semana mesmo, tanto no Facebook quanto na mídia, apareceram matérias dando conta de como jovens e mais velhos estão optando por estilos de vida mais simples e como essas opções já estão virando tendências que entram nos cálculos das indústrias.

Chamou a atenção o relato de uma jornalista brasileira que mora em Barcelona, cujos pais, em São Paulo, considerados de alta classe média, optaram por um estilo de vida mais simples depois de visitarem a filha na Espanha. Ao voltarem à capital paulista, mudaram-se para um apartamento menor e mais central, venderam carros, móveis, roupas e estão vivendo com bem menos e muito melhor. O estilo de vida baseado no “ter” acaba sendo uma escravidão, concluiu a jornalista, na matéria em que descreve a transformação dos pais.

Um caso que demonstra a tendência já adotada por algumas centenas de milhares de pessoas na Europa e nos Estados Unidos e que aos poucos se espalha pelo Brasil.

Não são poucos a se perguntar se essa transformação ocorre por necessidade ou por convicção. Algumas pesquisas divulgadas recentemente indicam que a mudança é pra valer.

Felicidade é…

Um recente artigo no jornal The New York Times mostrou que os jovens entre 18 e 24 anos estão se importando mais com os outros e com o mundo em que vivem, superando antigos valores e necessidades de consumo que já não os satisfazem. Um exemplo é o carro, que já não representa mais o ideal de liberdade. Esse ideal de liberdade hoje é representado pela capacidade de se relacionar com os outros.

Essa tendência de valorizar os relacionamentos pode ser verificada também no Brasil. A mais recente pesquisa do Instituto Akatu – Rumo à Sociedade do Bem-Estar – mostra que o brasileiro relaciona o bem-estar muito mais ao convívio social do que ao consumo. Ser feliz é: estar com a família; ter amigos e relacionar-se bem com eles; e ter saúde. A tranquilidade financeira é entendida como atendimento às necessidades básicas para uma vida decente: boa alimentação, educação, saúde, lazer. Acima disso, o dinheiro e as posses materiais, para o brasileiro, não trazem felicidade.

Um exemplo é o tema “afetividade”. Para a maioria dos que responderam a pesquisa, ela representa “passar mais tempo com a família e os amigos” do que “comprar presentes”. Essa preferência ocorreu em todas as classes sociais.

Então, será que as pessoas comuns já têm aberta a visão para uma profunda redistribuição de riquezas que permita acabar com a desigualdade?

É difícil saber. Porque a desigualdade não se manifesta apenas no nível de consumo, mas na educação, na cultura, no acesso às oportunidades e aos recursos, que são finitos e escassos.

Como fazer essa redistribuição?

Tradicionalmente, os países que lograram alcançar níveis mais igualitários entre seus cidadãos usaram de políticas públicas de incentivo ao consumo e de ampliação de acesso aos serviços públicos, com a inclusão de milhões de pessoas nas redes de educação, saúde e seguridade social, entre outras. Assim, surgiram cidadãos que exigem boas condições de trabalho e de vida. E bons produtos e serviços para consumir.

Esse modelo entrou em colapso no momento em que o consumo se sobrepôs ao bem-estar e o individualismo começou a falar mais alto que o sentido do coletivo. Chegamos ao ponto atual, com bilhões de excluídos para que poucos consumam muito e levem à exaustão os recursos finitos do planeta.

É preciso inventar outra forma de distribuir riquezas sem exaurir o planeta, mas garantindo a cada ser humano o necessário para uma vida digna, sem prejudicar a vida na Terra.

Isso é possível?

É o que a sustentabilidade está buscando provar. Sustentabilidade não é uma ciência exata nem um conceito acabado. Podemos considerar que é tudo o que dá sustentação à vida, mas a solução encontrada para um caso pode não servir para outro.

Deixar de andar de carro pode ser bom em Barcelona, que tem bom transporte público para todas as classes sociais, mas, em São Paulo, não será sustentável para o morador da Zona Leste, que perde quatro horas em ônibus, enquanto de carro faz o trajeto em duas horas.

O custo de vida é mais baixo nos países em que os serviços públicos funcionam melhor. Mas é nesses países que os salários são maiores.

Encontrar o equilíbrio entre renda, serviços públicos e sensação de bem-estar (que é individual) talvez seja o pulo do gato para o modelo de sustentabilidade que se busca construir.

As dicas podem ser garimpadas em todos os movimentos que envolvam a cidadania, como a Virada Sustentável, que se realiza em São Paulo.

A Virada Sustentável cria, sobretudo durante os dias em que é realizada, uma oportunidade para cidadãos se informarem e se engajarem sobre os temas da sustentabilidade e colocá-los em prática nos demais dias do ano. A abordagem positiva com que a Virada trata o assunto é fundamental para gerar o envolvimento das pessoas. É desse envolvimento que surgirá a criatividade e a ousadia para se construir o novo mundo de que precisamos.

Ontem (6/6), tivemos a primeira roda de conversa da série “Conta Aí”, com personalidades que atuam para transformar São Paulo numa cidade mais sustentável. O objetivo é promover bate-papos descontraídos com essas pessoas, que vão compartilhar sua trajetória de vida e sua atuação profissional com os espectadores e, dessa maneira intimista e informal, alertá-los sobre a sustentabilidade e o quanto podem contribuir.

Nesse primeiro bate-papo, Caco de Paula, do Planeta Sustentável, José Bueno, do Rios e Ruas, Wellington Nogueira, da Doutores da Alegria, e eu compartilhamos nossas histórias e refletimos sobre a sustentabilidade nos dias de hoje. Por meio dos nossos relatos tivemos a oportunidade de pensar sobre a questão de rios urbanos e a maneira como tratamos esses rios.

Também fomos levados a refletir sobre a maneira como as crianças enxergam a modernidade (com cidades cheias de prédios e carros), o que nos leva ao seguinte questionamento: as pessoas vão criar no futuro o que elas projetam em suas mentes hoje; então, como ensinar nossas crianças a ter uma visão mais sustentável sobre o futuro? Refletimos ainda sobre a felicidade em si e sobre o quanto nos perdemos em tarefas cotidianas e, com essa correria, acabamos desperdiçando nossa saúde e o papel da educação e da cultura, dentro e fora dos muros escolares.

Com diálogos descontraídos assim, tivemos a oportunidade de enxergar a sustentabilidade como um todo e pensar no nosso papel em tudo isso. Uma importante atividade para termos a virada sustentável de que tanto precisamos.

* Paulo Itacarambi é vice-presidente executivo do Instituto Ethos.

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