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Gestão de impactos sociais nos empreendimentos: riscos e oportunidades

04/12/2013

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A Promon desenvolveu uma metodologia para gerir impactos sociais em grandes empreendimentos, com visão sistêmica e uma abordagem multidisciplinar.

Por Fábio Risério, Sérgio Avelar e Viviane Freitas*

“A legitimidade da ação social está na sintonia com os interesses legítimos da sociedade, mas também na sintonia com os negócios da empresa, por meio dos quais gera impactos positivos e negativos.”
Reinaldo Bulgarelli

O impacto social gerado por grandes empreendimentos é um tema tão amplo e complexo que há a tendência de tentar qualificá-lo para poder compreendê-lo. Exemplos como aumento de receitas, remoção da população local, geração de empregos, impacto em comunidades nativas, aumento do custo de vida e pressão nos equipamentos sociais expressam apenas alguns elementos da diversidade desses impactos. No entanto, lidar com eles não se faz por meio de um modelo único e definitivo ou por um projeto pré-formatado que se “implante” numa determinada região, mas por meio de um processo de construção coletiva, tendo a comunidade como um grande agente transformador.

As comunidades afetadas possuem características diversas, multifacetadas, com diferentes necessidades, expectativas, valores e potencialidades, próprios de suas regiões e conjunturas. Não há como simplesmente replicar ou adotar um mesmo modelo em regiões díspares. As relações sociais se processam de formas diferentes e desta forma também devem ser as respostas às necessidades apresentadas.

Por mais que existam referenciais teóricos solidamente embasados para a proposta de soluções, o mercado encontra desafios para traduzi-los em atividades cotidianas de diversos projetos que são lançados em nosso país, principalmente quando estes se deparam com a necessidade de conciliar nessa discussão interesses e atores tão diversos como empreendedores, governo local, sociedade civil, organizações não governamentais, com diferentes visões e dinâmicas de atuação, porém de enorme peso e fundamentais para atingir os resultados desejados.

Essa dificuldade em integrar as expectativas dos diversos atores gera impactos nos resultados esperados dos projetos, afetando empreendedores, órgãos de fomento e desenvolvimento, instituições, a comunidade e o próprio país, que não receberá os serviços prestados no prazo esperado.

É nesse contexto que a Promon Meio Ambiente desenvolveu uma metodologia para gerir impactos sociais em grandes empreendimentos, com uma visão sistêmica, que busca resultados utilizando uma abordagem multidisciplinar e voltada a atingir os resultados esperados pelo empreendedor, conciliando a geração de valor para as comunidades e os demais públicos envolvidos.

Os impactos de grandes empreendimentos

Diversos componentes de infraestrutura podem ser considerados para o desenvolvimento de determinada região. Dentre os mais representativos, podemos citar: energia, telecomunicações, transporte, água e saneamento básico, incluindo o tratamento de resíduos (lixo). Tais componentes são responsáveis por mais de 90% dos investimentos em infraestrutura efetuados pelos países em desenvolvimento, segundo dados do Banco Mundial.

É inegável que a chegada de grandes empreendimentos de infraestrutura traz impactos positivos e negativos às regiões onde se instalam: aumento de receitas, aumento de empregos locais, aumento na arrecadação de tributos, aumento da população e a consequente pressão adicional sobre a infraestrutura, os serviços aos cidadãos e os recursos naturais, bem como a intensificação e diversificação das dinâmicas sociais, políticas, econômicas e institucionais. As consequências desses impactos são relevantes não só no âmbito local, mas também estabelecem novas relações de trocas e fluxos, possivelmente para além das fronteiras municipais, redefinindo também o espaço regional.

Neste contexto, a implantação de empreendimentos e a realização dos objetivos econômicos, financeiros e sociais esperados para os projetos, torna-se uma tarefa desafiadora. O desempenho dos empreendimentos torna-se dependente de fatores que vão muito além das questões técnicas, de engenharia ou de necessidade social, precisando de um modelo robusto para gerir elementos de riscos ligados aos impactos sociais.

A gestão de impactos sociais

Nossa experiência tem mostrado que, para obter sucesso no tratamento dos impactos sociais, faz-se necessário implantar uma estratégia que englobe dimensões políticas, econômicas, tecnológicas e ambientais e sirva como base para a procura de soluções de caráter amplo para o desenvolvimento das comunidades, a partir de três pilares de atuação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Um pilar básico é a visão sistêmica do território onde o empreendimento será implantado. Ela permitirá maior flexibilidade de ideias e irá requerer uma abordagem multidisciplinar, na qual ciências naturais e sociais se fertilizem na busca de um equilíbrio dinâmico e harmônico.
  • Há necessidade também de uma abordagem multidiciplinar que abranja todos os públicos envolvidos com os empreendimentos, a fim de determinar estratégias para o desenvolvimento sustentável, desde a elaboração de propostas até a necessidade de formação, capacitação e recapacitação das pessoas. Esse posicionamento possibilita ampliar o alcance e evitar os riscos de gerar ações altamente meritórias do ponto de vista conceitual, mas de valor agregado extremante reduzido quando confrontadas com a dimensão dos problemas que se dispõem a enfrentar.
  • O tratamento dos impactos sociais deve estar alinhado ao negócio, numa estratégia que gere valor compartilhado para todos os públicos envolvidos, incluindo as comunidades. É necessário ver os impactos sociais através da lente dos riscos e oportunidades e pensar em como criar valor agregado para todos os públicos envolvidos, fruto da articulação dos objetivos e competências do empreendimento com as prioridades sociais da região onde ele será desenvolvido. Buscar um tratamento sintonizado com os empreendimentos não é tão simples e envolve efetivo compromisso em melhorar seus processos, serviços e/ou produtos de dentro para fora.

Ação

Os empreendimentos que estrategicamente apoiam programas e atividades de tratamento dos impactos sociais com uma abordagem mais aberta e participativa e com vinculação com seus negócios conseguem aproveitar mais os seus recursos, aumentar a eficiência e multiplicar o valor que geram para suas partes interessadas e para eles próprios.

A seguir, apresentamos o resultado da identificação de experiências de programas e projetos desenvolvidos no Brasil e no mundo que atuam com esse posicionamento, deixando claro que esse tipo de atuação é possível em países tão diversos como Chile, Gana, Brasil e Rússia.

Visão sistêmica

  • Uma mineradora do Chile, que opera nos Andes na extração de ouro e fica localizada próximo a um povoado indígena e a um parque nacional, organizou programas de treinamento para comunidades locais para capacitar os moradores a começar seus próprios negócios no setor de ecoturismo para geração de renda.
  • Uma mina de potássio na Tailândia trabalhou com fazendeiros locais para aumentar a produção por meio do uso de fertilizantes (dos quais o potássio é um engrediente-chave).

Alinhamento ao negócio

  • Empresa multinacional de serviços on-line e software dos Estados Unidos usa sua tecnologia de ponta para ajudar os índios da Amazônia a monitorar a destruição da floresta.
  • Um banco de investimento multinacional aproveitou seus contatos para fazer com que bancos nacionais em países emergentes e investidores sentassem à mesa para destravar o acesso a financiamento para microempresários.

Abordagem muldisciplinar

  • Uma empresa britânca, ao implementar seus programas de investimento comunitário ao longo da rota de um oleoduto na região do Cáucaso, na Rússia, optou por fazer uma parceria com ONGs locais e internacionais. Nos casos em que foram escolhidas ONGs internacionais, estas assumiram o papel de líderes, implementando os projetos em colaboração com organizações locais
  • Em Gana, uma mineradora montou um fundo de desenvolvimento comunitário em colaboração com partes interessadas para financiar atividades de desenvolvimento em dez comunidades vizinhas ao seu empreendimento.

Conclusão

Com o que expusemos até aqui, fica claro que o tão celebrado crescimento econômico gerado pela chegada de um empreendimento a uma localidade não é uma fórmula universal para dar conta de todos os impactos sociais gerados por ele. É fundamental avaliar seus significados, não apenas por seus efeitos sociais gerais, citados anteriormente, mas sobretudo por seus impactos diretos na vida das pessoas, das comunidades e das regiões.

Não basta evocar, de forma genérica, o aumento da riqueza material, de impostos e de empregos. É preciso colocar o empreendimento dentro do contexto do desenvolvimento sustentável da região, gerando valor para todas as organizações envolvidas, bem como para o empreendedor e para a comunidade. A experiência na Promon Meio Ambiente nos últimos anos mostra que, quanto mais o vínculo entre empreendimento e crescimento econômico for mecânico e superficial, mais problemático será, envolvendo riscos para a entrega do projeto planejado.

É importante considerar também que os problemas ambientais estão diretamente relacionados aos sociais, como o atendimento às necessidades básicas de alimentação, saúde e moradia. É necessário rever os sistemas de produção quanto à escolha, ao gerenciamento e à utilização dos recursos naturais, bem como quanto ao processo de inovação tecnológica. As soluções para as questões sociais têm de ser encontradas  num contexto amplo, no qual os aspectos ambientais, econômicos e políticos também precisam ser revistos.

A necessidade de uma visão integrada multidisciplinar impõe um desafio adicional aos empreendedores, que ainda têm muito a fazer nesse sentido, além de aprimorar as ações que vêm sendo desenvolvidas mais recentemente em razão da legislação ambiental. Mas apenas a visão integrada não basta; é preciso partir para a ação integrada, fundamental para o encaminhamento prático da questão.

Dessa forma, uma abordagem que possa congregar conhecimentos técnicos inerentes à execução dos projetos, a competência para articular os interesses dos empreendedores com as comunidades locais e a visão sistêmica dos diversos elementos é fundamental para garantir uma adequada gestão dos impactos sociais nos empreendimentos.

* Fábio Risério é gerente de Responsabilidade Social da Promon Engenharia, enquanto Sérgio Avelar e Viviane Freitas são, respectivamente, diretor de Operações e analista ambiental da Promon Meio Ambiente.

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Este texto faz parte da série de artigos de especialistas promovida pela área de Gestão Sustentável do Instituto Ethos, cujo objetivo é subsidiar e estimular as boas práticas de gestão.

Veja também:
– A promoção da igualdade racial pelas empresas, de Reinaldo Bulgarelli;
– Relacionamento com partes interessadas, de Regi Magalhães;
– Usar o poder dos negócios para resolver problemas socioambientais, de Ricardo Abramovay;
– As empresas e o combate à corrupção, de Henrique Lian;
– Incorporação dos princípios da responsabilidade social, de Vivian Smith;
– O princípio da transparência no contexto da governança corporativa, de Lélio Lauretti;
– Empresas e comunidades rumo ao futuro, de Cláudio Boechat;
– O capital natural, de Roberto Strumpf;
– Luzes da ribalta: a lenta evolução para a transparência financeira, de Ladislau Dowbor;
– Painel de stakeholders: uma abordagem de engajamento versátil e estruturada, de Antônio Carlos Carneiro de Albuquerque e Cyrille Bellier;
– Como nasce a ética?, de Leonardo Boff;
– As empresas e o desafio do combate ao trabalho escravo, de Juliana Gomes Ramalho Monteiro e Mariana de Castro Abreu;
– Equidade de gênero nas empresas: por uma economia mais inteligente e por direito, de Camila Morsch;
– PL n° 6.826/10 pode alterar cenário de combate à corrupção no Brasil, de Bruno Maeda e Carlos Ayres;
– Engajamento: o caminho para relações do trabalho sustentáveis, de Marcelo Lomelino;
– Sustentabilidade na cadeia de valor, de Cristina Fedato;
– Métodos para integrar a responsabilidade social na gestão, de Jorge Emanuel Reis Cajazeira e José Carlos Barbieri;
– Generosidade: o quarto elemento do triple bottom line, de Rogério Ruschel;
– O que mudou na sustentabilidade das empresas, de Dal Marcondes;
– Responsabilidade social empresarial e sustentabilidade para a gestão empresarial, de Fernanda Gabriela Borger;
– Os Dez Mandamentos da empresa responsável, de Rogério Ruschel;
– O RH como alavanca da estratégia sustentável, de Aileen Ionescu-Somers;
– Marcas globais avançam na gestão de resíduos sólidos, de Ricardo Abramovay;
– Inclusão e diversidade, de Reinaldo Bulgarelli;
– Da visão de risco para a de oportunidade, de Ricardo Voltolini;
– Medindo o bem-estar das pessoas, de Marina Grossi;
– A quantas andam os Objetivos do Milênio, de Regina Scharf;
– Igualdade de gênero: realidade ou miragem?, de Regina Madalozzo e Luis Cirihal;
– Interiorização do Desenvolvimento: IDH Municipal 2013, de Ladislau Dowbor;
– Racismo ambiental: derivação de um problema histórico, de Nelson Inocêncio;
Procuram-se líderes da sustentabilidade, de Marina Grossi e Marcos Bicudo;
Relato integrado: evolução da comunicação de resultados, de Álvaro Almeida;
A persistência das desigualdades raciais no mundo empresarial, de Pedro Jaime; e
A agropecuária e as emissões de gases de efeito estufa, de Marina Piatto, Maurício Voivodic e Luís Fernando Guedes Pinto.

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