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Medindo o bem-estar das pessoas

20/08/2013

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As empresas precisam criar indicadores capazes de ampliar suas estratégias para promover bem-estar efetivo entre seus colaboradores e na sociedade.

Por Marina Grossi*

O que não pode ser medido não pode ser gerenciado. Essa máxima do meio empresarial começa a ser estendida para áreas bem menos cartesianas. O desafio que se apresenta é o de construir indicadores para mensurar o bem-estar, visando ao aumento da felicidade das pessoas. No ano passado, às vésperas da Rio+20, o Banco Itaú lançou o seu Índice de Bem-Estar Social, que reúne uma série de indicadores econômicos e sociais, incluindo inflação, desemprego, expectativa de vida e desigualdade. O índice ainda precisa considerar variáveis importantes para avaliar o bem-estar dos brasileiros, mas a preocupação aponta para um novo caminho, impensável poucos anos atrás.

Ainda isolada, a iniciativa ilustra de forma emblemática um movimento mundial de empresas, de governos e da sociedade civil que atua no sentido de substituir o produto interno bruto (PIB) por um indicador que represente melhor o aumento ou a redução do bem-estar de uma população. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que serão adotados a partir de 2015, sinalizam essa preocupação.

De fato, o momento é bastante oportuno. Num ambiente de crise econômica global é possível repensar o papel messiânico que o crescimento do PIB tem no planejamento e no futuro da nossa sociedade. O questionamento nos leva à compreensão, ainda não devidamente difundida, de que é preciso conceber novos parâmetros que reflitam as reais fontes de felicidade de um povo. Nas empresas, é necessário haver indicadores de desempenho capazes de ampliar suas estratégias a um caminho de promoção de bem-estar efetivo, tanto na sociedade em que atua quanto na política com seus funcionários e fornecedores.

No início deste século, o psicólogo americano David Myers fez essa reflexão e concluiu que, ao contrário do senso comum, preenchidas as satisfações básicas do ser humano, o crescimento econômico não provoca aumento da felicidade da população. De acordo com o entendimento de Myers, a despeito de a sociedade americana ter dobrado sua riqueza em 40 anos, o número de pessoas que se consideravam felizes teve um ligeiro declínio – os índices de divórcio, de suicídio adolescente, de depressão e de crimes violentos cresceram enormemente no mesmo período.

No Brasil, o custo econômico ainda domina o escopo dos programas sociais, sem uma abordagem holística. Recentemente, o governo federal anunciou a ampliação do programa Brasil sem Miséria, com a meta de retirar da pobreza extrema mais de 2,5 milhões de pessoas. Nesse programa, o governo adota somente o indicador monetário (renda de até R$ 70,00 por mês) para definir pessoas extremamente pobres, sem considerar elementos fundamentais, como acesso a saúde, habitação, educação e segurança dignas.

Essa nova visão está presente em diversos ambientes, inclusive no empresarial. Foi-se o tempo em que uma empresa vendia somente um produto ou um serviço e nada mais. Hoje, ela vende uma imagem, um conceito, os benefícios atrelados à marca. Uma empresa com visão sistêmica sabe que a sua relação com o consumidor, com o meio ambiente e com a sociedade não pode ser inconsequente. A ideia é criar um ambiente auspicioso, positivo para os negócios e para todos que usufruem e são impactados por eles.

Grandes empresas já se movimentam em escala mundial. A Natura e a Itaipu são pontos focais de um grupo internacional que discute e tenta implementar experiências locais inspiradas na felicidade interna bruta do Butão, pequeno país asiático. Esse vanguardismo empresarial já se mostrou relevante em outros contextos e, certamente, contribuirá para o desenho de medidas que poderão vir a ser os novos indicadores de bem-estar social mundial. Espera-se que os ODS demonstrem essa preocupação ao buscar indicadores para mensurar novos padrões de produção e de consumo a partir de 2015. Entre os grupos que pensam os ODS, vale destacar a liderança de Paul Polman, CEO, da Unilever, e Peter Bakker, presidente do WBCSD (World Business Council for Sustainable Development), rede mundial da qual o CEBDS faz parte.

Ainda embrionário, esse pode ser um dos maiores legados da Rio+20. Devemos ir além da mensuração restrita do PIB. O capitalismo do século XXI terá necessariamente que superar a busca do crescimento econômico apenas, apontando sua bússola para incluir nessa mensuração o bem-estar e a felicidade da população.

* Marina Grossi é presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

Artigo publicado originalmente no jornal Correio Braziliense, em 16 de março de 2013. Crédito da foto: Divulgação CEBDS

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Este texto faz parte da série de artigos de especialistas promovida pela área de Gestão Sustentável do Instituto Ethos, cujo objetivo é subsidiar e estimular as boas práticas de gestão.

Veja também:
– A promoção da igualdade racial pelas empresas, de Reinaldo Bulgarelli;
– Relacionamento com partes interessadas, de Regi Magalhães;
– Usar o poder dos negócios para resolver problemas socioambientais, de Ricardo Abramovay;
– As empresas e o combate à corrupção, de Henrique Lian;
– Incorporação dos princípios da responsabilidade social, de Vivian Smith;
– O princípio da transparência no contexto da governança corporativa, de Lélio Lauretti;
– Empresas e comunidades rumo ao futuro, de Cláudio Boechat;
– O capital natural, de Roberto Strumpf;
– Luzes da ribalta: a lenta evolução para a transparência financeira, de Ladislau Dowbor;
– Painel de stakeholders: uma abordagem de engajamento versátil e estruturada, de Antônio Carlos Carneiro de Albuquerque e Cyrille Bellier;
– Como nasce a ética?, de Leonardo Boff;
– As empresas e o desafio do combate ao trabalho escravo, de Juliana Gomes Ramalho Monteiro e Mariana de Castro Abreu;
– Equidade de gênero nas empresas: por uma economia mais inteligente e por direito, de Camila Morsch;
– PL n° 6.826/10 pode alterar cenário de combate à corrupção no Brasil, de Bruno Maeda e Carlos Ayres;
– Engajamento: o caminho para relações do trabalho sustentáveis, de Marcelo Lomelino;
– Sustentabilidade na cadeia de valor, de Cristina Fedato;
– Métodos para integrar a responsabilidade social na gestão, de Jorge Emanuel Reis Cajazeira e José Carlos Barbieri;
– Generosidade: o quarto elemento do triple bottom line, de Rogério Ruschel;
– O que mudou na sustentabilidade das empresas, de Dal Marcondes;
Responsabilidade social empresarial e sustentabilidade para a gestão empresarial, de Fernanda Gabriela Borger;
Os Dez Mandamentos da empresa responsável, de Rogério Ruschel;
O RH como alavanca da estratégia sustentável, de Aileen Ionescu-Somers;
Marcas globais avançam na gestão de resíduos sólidos, de Ricardo Abramovay;
Inclusão e diversidade, de Reinaldo Bulgarelli; e
Da visão de risco para a de oportunidade, por Ricardo Voltolini.

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