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O que fazer para termos “energia sustentável para todos”

07/06/2012

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A ONU vem estimulando discussões acerca desse assunto na busca por soluções e alternativas. Tanto que é um dos temas de maior destaque da Rio+20.

Por Jorge Abrahão, presidente do Instituto Ethos

Jorge Abrahão, presidente do Instituto Ethos

Jorge Abrahão, presidente do Instituto Ethos

Temos aproveitado este espaço para comentar os temas que serão objeto de debate na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). A ONU proclamou 2012 como o Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos e, desde então, vem estimulando discussões acerca desse assunto na busca por soluções e medidas alternativas. Tanto que “Energia Sustentável para Todos” é um dos temas de maior destaque do encontro no Rio de Janeiro.

A questão energética está essencialmente atrelada ao desenvolvimento da economia e à qualidade de vida das pessoas, mas sua geração e consumo representam importantes pressões sobre os recursos naturais. Nas últimas décadas, cientistas e ecologistas vêm alertando sobre as consequências que o consumo abusivo de energias provenientes de matérias fósseis representa para o meio ambiente e a necessidade de se investir em energias mais limpas e sustentáveis.

O padrão energético mundial está baseado em combustíveis fósseis, responsáveis pela quase totalidade das emissões do principal gás do efeito estufa, o carbônico. As grandes fontes de emissão de gases de efeito estufa identificadas hoje no cenário global são os processos de geração de energia e transporte, que somados representam aproximadamente 40% das emissões projetadas para 2030. A geração de energia sozinha responde por 26% das emissões globais, posicionando o setor como líder na lista de maiores emissões.

Hoje, as fontes renováveis são responsáveis por apenas 12,9% da oferta de energia primária no mundo. Entretanto estima-se que as fontes renováveis têm capacidade para atender até 77% das necessidades globais.

Também devemos atentar para o fato de que, atualmente, mais de 1,4 bilhão de pessoas em todo o mundo (cerca de um quinto da população mundial) não têm acesso a eletricidade e cerca de 1 bilhão têm acesso intermitente, ou seja, não contínuo, o que acarreta problemas de saúde, déficit educacional, destruição ambiental e, até mesmo, atraso econômico.

Buscando reverter esse quadro, começou-se a pensar, há alguns anos, em energias alternativas e em como aperfeiçoar seu uso. Foi para dar maior ênfase a essa discussão e fomentar ações que possam ajudar a mudar essa realidade que a ONU estabeleceu 2012 como o Ano da Energia Sustentável e colocou o assunto como um dos temas de destaque a serem discutidos pela Rio+20.

A questão energética e o desenvolvimento sustentável

Investir em energias sustentáveis é combater de maneira expressiva as emissões e a pobreza energética no mundo, catalisando o crescimento sustentável e atenuando as mudanças climáticas.

Como já dissemos, um quinto da população mundial não tem acesso a energia elétrica. O dobro desse número – algo em torno de 3 bilhões de pessoas – ainda depende de fontes energéticas como carvão, lenha e outros tipos de biomassa tradicionais para satisfazer suas necessidades básicas. São dados alarmantes que batem de frente com a questão da qualidade de vida.

A energia é fator essencial de promoção do desenvolvimento. O início da era industrial marcou um expressivo desenvolvimento da população e com ele novas demandas energéticas. Máquinas que surgiam para otimizar o tempo e trazer maior qualidade de vida e conforto tinham como principal fonte energética o carvão e o petróleo, altamente poluentes e não renováveis, e que hoje são os grandes responsáveis pelo efeito estufa.

Na Rio+20, bem como na Conferência Ethos Internacional 2012, serão enfatizadas a ligação entre energia e desenvolvimento sustentável e a relevância da energia moderna, limpa e mais eficiente na erradicação da pobreza. O acesso às opções de tecnologia de energia limpa deve levar em consideração a diversidade das situações, de políticas nacionais e de necessidades específicas de países em vias de desenvolvimento.

Projeções futuras
O programa Sustainable Energy for All, da ONU, propõe três metas para 2030, baseando-se em números de 2009. A primeira é que cem por cento dos habitantes do planeta tenham acesso a energia. Em 2009, 1,3 milhões de pessoas estavam à margem desse mercado. A meta é que, até 2030, esse quadro tenha sido totalmente alterado.

Outra meta estabelecida é a de dobrar a coeficiência energética. Dados de 2009 revelam que 1,2% da energia mundial já tem sido economizado por eficiência energética. A meta é que em 2030 esse número passe a ser de 2,4%.

A terceira meta é a de dobrar a geração de energia renovável na matriz mundial. Pelos números do programa Global Energy Assessment, 15% da energia global em 2009 vinham de fontes renováveis. Pretende-se que essa cifra chegue a 30% em 2030.

A energia renovável no mundo
As hidrelétricas são responsáveis hoje por 16% da energia mundial, enquanto a energia solar corresponde a 0,1% e a eólica a 1,4%. A Agência Internacional de Energia prevê que até 2035 as energias renováveis corresponderão a 31% da geração total de energia no mundo.

Os países que mais se destacam em relação à geração de energia sustentável são: a Dinamarca, em que a energia eólica corresponde a 18% do total; a Espanha, que se destaca pela energia solar (3%); e os Estados Unidos, com 3% provenientes de energia eólica e solar. Os países que mais investem anualmente em energia renovável são a China, com US$ 50 bilhões, a Alemanha, com US$ 41 bilhões, e os EUA, com US$ 30 bilhões.

A questão da energia renovável no Brasil
Em nosso país, a predominância de hidrelétricas na geração de eletricidade e a elevada penetração do etanol no mercado de combustíveis impactam positivamente tanto o setor de geração de energia como o de transporte. A matriz de geração de energia do Brasil é uma das mais limpas do mundo e hoje responde somente por 1% das emissões de gases de efeito estufa do país. Mesmo com a expectativa de que se dobre a produção de energia no Brasil nos próximos 20 anos e que parte desse crescimento (14% da matriz de geração elétrica) tenha como base fontes de combustíveis fósseis, a participação das emissões do setor energético no total do Brasil ficará em torno de 3,5%, muito inferior à média mundial.

Embora a matriz energética brasileira, especialmente a matriz elétrica, seja considerada limpa, o aumento do consumo de energia projetado até 2030 justifica a preocupação com medidas de mitigação de emissão na geração e no uso de energia. Segundo o relatório da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a rápida expansão da população brasileira e o consequente crescimento no consumo de bens farão com que o país tenha que aumentar sua capacidade energética. A projeção é que, entre 2010 e 2020, a população brasileira passe de 195 milhões para 205 milhões e o número de residências suba em 15 milhões, chegando a 75 milhões. De acordo com estimativas, a classe comercial apresentará a maior alta (5,8% anuais, em média) entre os segmentos de consumo. Entretanto, a indústria permanecerá sendo a classe responsável por quase metade do consumo total de eletricidade no país.

Para o Brasil, a crescente demanda por energia pode também ser interpretada como uma oportunidade. A matriz energética limpa pode representar diferencial competitivo, atribuindo inclusive valor sustentável a produtos industrializados com menor impacto em emissões.

Tradicionalmente, o Brasil tem experiência no uso de hidreletricidade e de biomassa (como o etanol) para produzir combustíveis. Tem liderança nesse setor e agora começa a produzir energia eólica e solar. Há uma grande oportunidade para que o Brasil aumente a proporção de renováveis muito rapidamente, usando novas tecnologias. É importante observar que fontes energéticas como a hidráulica, a cana-de-açúcar, o carvão vegetal e outros biocombustíveis, ainda que tenham a vantagem de ser renováveis, podem tanto impactar negativamente o meio ambiente como implicar condições socioculturais desfavoráveis. O que se deseja é a promoção sustentável de fontes de energia renováveis. Essa é a ideia que deve guiar as metas.

O Brasil tem a valiosa experiência do Pró-Álcool, único programa bem-sucedido de substituição em larga escala dos derivados de petróleo no mundo. O biodiesel e as misturas de combustíveis que usam derivados de soja podem diversificar e tornar mais limpa a matriz energética brasileira. Também o dendê, o babaçu, a mamona e diversas espécies nativas são fontes potenciais de combustível. A energia de biomassa a partir de bagaço de cana, rejeitos de serrarias e lenha, em combustão direta ou em gaseificação, são fontes renováveis de energia e permitem dar um uso econômico a rejeitos que muitas vezes são simplesmente incinerados.

Algumas regiões do Brasil apresentam grande potencial para a produção de energia eólica e diversas empresas vêm investindo no ramo. O uso de energia solar está se expandindo, seja a fotovoltaica, seja a solar térmica. Esse crescimento deve continuar considerando o potencial que existe no Brasil e sua capacidade de atender a demandas descentralizadas.

O desafio que se apresenta é integrar todas essas opções para garantir, de modo sustentável, o suprimento de energia necessário. Não basta, porém, aumentar o suprimento energético em bases cada vez mais limpas. É preciso aumentar a eficiência no seu uso e na sua conservação.

Os desafios
Mesmo com iniciativas empresariais promissoras quanto ao aumento da eficiência energética, a manutenção de uma matriz energética limpa diante do aumento de demanda de energia, apresenta uma série de desafios, como:

  • Realizar a transição do atual sistema energético e um planejamento para cortar subsídios destinados às fontes fósseis e à energia atômica, garantindo incentivos para as energias renováveis.
  • Promover incentivos e modelos de negócio para ampliar a viabilidade econômica da energia eólica e da energia solar.
  • Desenvolver políticas tecnológicas inovadoras, com investimentos e incentivos à inovação.
  • Estabelecer sistema regulatório para produção e utilização de energia renovável e condições estáveis para que empresas invistam no setor energético.
  • Criar modelos de monitoramento dos custos reais de produção das fontes de energia.
  • Atrelar planos de desenvolvimento local aos projetos de geração de energia, envolvendo as populações afetadas e beneficiárias.
  • Estimular o desenvolvimento tecnológico para as novas gerações de biocombustíveis, como, por exemplo, o etanol de celulose, biotecnologia e engenharia genética.
  • Integrar diferentes interesses e visões dos setores governamental, privado (concessionárias), movimentos sociais e ambientalistas, favorecendo um diálogo genuíno, com regularidade e profundidade.
  • Estabelecer regras para monitoramento de emissões de gases de efeito estufa na produção de energia e padrões de monitoramento de eficiência energética nas cadeias produtivas.

O que fica como questão agora é como mudar para fontes energéticas sustentáveis, de maneira que não percamos eficiência, pelo contrário; e que mais pessoas tenham acesso a energia, mas que tenhamos alternativas limpas e não poluentes. O que deve embasar as principais discussões sobre energia sustentável é que é possível perseguir tanto a viabilidade econômica quanto a responsabilidade social sem que isso acarrete perdas.

 

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