O Grupo de Trabalho de Integridade do Instituto Ethos realizou um encontro no dia 06/10 para dialogar sobre parâmetros de governança, ética e mitigação de riscos na adoção de inteligência artificial pelas empresas. A reunião contou com palestras de representantes da academia e do setor corporativo sobre a formulação de diretrizes institucionais, a supervisão humana sobre sistemas automatizados e as propostas para a conexão entre tecnologia e a agenda socioambiental. 

Na abertura da sessão, o diretor-presidente do Instituto Ethos, Caio Magri, defendeu que as organizações conheçam a finalidade, os dados e os impactos gerados por sistemas automatizados antes de sua implementação. Magri afirmou que as estruturas de governança e conformidade devem acompanhar a evolução tecnológica para além da prevenção a ilícitos formais, com foco prioritário na apuração de riscos socioambientais e de direitos humanos. Caio ressaltou que a contratação de fornecedores externos de tecnologia não elimina a responsabilidade da empresa contratante perante a sociedade e os usuários. 

A professora associada e coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da Faculdade de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Direito SP), Marina Feferbaum, apresentou um roteiro para a estruturação de comitês de ética em inteligência artificial. A pesquisadora dividiu o modelo em cinco frentes: função organizacional, conteúdo ético, composição multidisciplinar, hierarquia interna e procedimentos de governança. Feferbaum explicou a distinção entre normas legais consolidadas e matérias sem regulamentação prévia, nas quais as escolhas de conduta dependem do apetite de risco da própria entidade. A professora também alertou para a necessidade de políticas corporativas formais com o objetivo de evitar o uso de ferramentas públicas por colaboradores com dados sensíveis das companhias. 

A experiência prática do setor bancário foi apresentada por profissionais convidados do Bradesco. O gerente sênior de compliance e riscos não financeiros, Alberlei Oliveira, tratou da aplicação de modelos em atendimentos, análises cadastrais e prevenção a fraudes. Oliveira expôs o modelo de corregulação previsto no Projeto de Lei 2338, em tramitação no Congresso Nacional, no qual o poder público estabelece princípios gerais e o setor privado constrói mecanismos de controle para viabilizar a inovação com segurança jurídica. O especialista Vitor Stevam ressaltou a atuação contínua para prevenir a reprodução de vieses históricos em bases de dados. Em seguida, o superintendente de riscos de cyber, inteligência artificial e privacidade, Luciano Valdomiro, detalhou a governança baseada em referenciais técnicos internacionais e na plataforma interna de controle técnico do banco. Valdomiro informou que a instituição mantém a exigência de supervisão humana mandatória sobre qualquer agente tecnológico, sem concessão de autonomia irrestrita às ferramentas. 

O assessor da presidência do Instituto Ethos, Valdemar de Oliveira Neto (Maneto), apresentou a estratégia da organização para a gestão integrada entre inteligência artificial e a agenda socioambiental e de governança (ASG). Maneto apontou a relação de influência mútua entre esses campos: a tecnologia gera impactos ambientais e trabalhistas, enquanto os compromissos éticos das corporações devem nortear o desenvolvimento dos sistemas. O assessor anunciou a elaboração de um radar de inteligência estratégica focado em tendências práticas, além da futura inclusão de critérios sobre tecnologia nos Indicadores Ethos.